sábado, 10 de julho de 2010

O FUTEBOL, A POLÍTICA E A VIDA

Passou a Copa do Mundo de 2010 e não ganhamos. Estatisticamente, sabe-se bem, é mais provável que se perca o título mundial do que se ganhe. Segundo a matemática, inexorável em suas verdades, são 32 times na disputa por um título. OK, isto não é consolo. Somos o país do futebol, uma potência atômica futebolística, a maior do mundo, ninguém tem mais títulos, jogadores famosos, recordes e glórias do que nós. Perder uma Copa, para nós, é como para um americano ser chutado no Vietnã ou no Afeganistão. Inadmissível e humilhante.
Só tem um detalhe: nosso técnico é o Richard Nixon e o presidente da CBF é o George W. Bush. Que morram nas masmorras de algum estádio-prisão em Abu Ghraib ou em Saigon ou em qualquer parte do fim do mundo. Ao mesmo tempo, nossos hermanos argentinos são festivamente recebidos, tendo perdido a mesma Copa, por 10 mil torcedores
entusiasmados.
Estou sendo deliberadamente sarcástico. Mas parece ser este o novo estágio de ânimo inflado e arrogante que nós, brasileiros, estamos propondo. Afinal, nosso mercado imobiliário é o terceiro que mais valoriza no mundo, a economia dá sinais de avanços expressivos, a balança comercial pende favoravelmente, o Lula é the man of the year e somos o país da próxima Copa e da Olimpíada.
Nossa noção de distância entre o céu e o inferno é um pênalti, uma bola no poste ou um cartão vermelho. Não importa que o técnico tenha 78% de aproveitamento ou que a Holanda tenha jogado melhor. Masmorra para o Dunga.
É hora de refletir, precisamos tirar lições de nossos insucessos, afinal fracassos
ensinam mais do que vitórias e a partir deles amadurecemos. Aprendemos mais de nossos erros do que dos acertos, o Brasil de hoje é visto diferentemente de como era percebido antes. No entanto, se não fizermos mudanças na estrutura de impostos, na política e no sistema previdenciário, vamos jogar por terra toda esta energia positiva.E, em especial, temos que mudar nossa mentalidade. A Holanda nunca foi campeã do mundo, e se não o for nesta edição do certame mundial, sua seleção não será afundada em algum canal de Amsterdã. A vida é assim: vitórias e derrotas, dia sim, dia não. A diferença está em metabolizar a lição e seguir em frente com o aprendizado.
Valeu Dunga.

Ricardo Sondermann - Administrador e professor da ESPM-RS
Fonte: Jornal Zero Hora 10/07/2010

quarta-feira, 7 de julho de 2010

AS FALCATRUAS DO DIA A DIA

Nosso cotidiano é recheado de atitudes enganadoras e tapeadoras que não deixam de ser falcatruas. Acompanhamos com frequência pessoas usando de esperteza para tirar vantagem. É difícil nos opormos a isto, pois muitas vezes nos identificamos inconscientemente com o espertalhão e com o desejo de também levarmos vantagem.
Exemplos de falcatruas: quando o filho pega o carro escondido do pai e a mãe alia-se a ele para que o pai não saiba, ou o rapaz alia-se ao pai para que a mãe não saiba que a namorada engravidou e irão interromper a gestação.Aceitarmos a corrupção na política. O paciente com câncer que espera seis meses para ser operado pelo SUS. O rapaz sai com uma moça e noutro dia conta para os amigos como foi a noitada. A moça conta para as amigas que não vale a pena sair com o fulano, porque ele tem “tico pequeno”. O pai recebe o filho à noite e percebe que ele está alcoolizado e não toma nenhuma medida em relação ao ocorrido. A mãe radiante ao vestir a filha de 10 anos de uma maneira sedutora para a reunião dançante induz para que conquiste um menino através de sua aparência atraente.
Assistimos a jogadores de futebol simulando agressões e causando a punição do adversário, o que é aplaudido pelos torcedores. Vejam as maciças campanhas de cervejas, usando atletas do futebol. É um claro estímulo ao uso do álcool, que já é um problema de saúde pública. Ninguém se levanta contra essas campanhas enganosas. Não existe uma entidade pública como o Judiciário, promotoria ou associações médicas para nos protegerem dessas falcatruas?
Outro dia, dei uma palestra num colégio “top” de Porto Alegre e fui ao banheiro dos alunos homens do segundo grau. Para minha surpresa, não havia papel higiênico nem toalhas para secar as mãos. Saindo do banheiro, deparei com uma atendente numa mesa onde havia papel. Perguntei a razão dessa conduta. Disse que os alunos entupiam os vasos ou jogavam o rolo de papel pela janela. Pensei: “Aqui, o colégio é refém dos alunos. Tudo indica que os colégios não desejam endurecer com os alunos, pois poderão perdê-los para outros colégios mais tolerantes com os distúrbios de conduta”.
Escuto seguidamente que alguém usa droga devido às más companhias. Não tenho dúvida de que as más companhias estão dentro de nós, em nosso caráter. Nossa sociedade é conivente com as falcatruas do dia a dia, amparadas no desejo de levar vantagem e na ideia de que os meios justificam os fins.
Este jeito de levar a vida poderá estimular nas crianças e jovens a percepção de que tudo vale a pena e que tudo dará certo lá na frente. Crescem com a ideia de que ter dinheiro, amigos poderosos e influentes ou conquistar uma mulher gostosa ou um homem atraente torna-se o sentido da vida. Doce ilusão. Alcançam esses objetivos, mas ficam vazios internamente, deprimidos, desenvolvem ansiedades, síndrome do pânico, bebem em excesso ou usam outras drogas e a vida segue sem sentido.

Fonte:
Nélio Tombini Psiquiatra, responsável pelo Serviço de Psiquiatria da Santa Casa de Porto Alegre . Jornal Zero Hora 07/07/2010

TREM PORTO ALEGRE - GENERAL CÂMARA


Em setembro de 1962, os trens utilizados ainda eram os da linha Porto Alegre-Uruguaiana, que paravam em General Câmara. Pouco tempo depois, a linha foi retirada da cidade e foi construído um ramal ligando a nova linha, na estação de Argemiro Dornelles à cidade. Os guias de horários mostram trens ligando diretamente Porto Alegre a General Câmara passando já pelo ramal desde pelo menos outubro de 1965 e até 1979, sendo que ainda se vêem horários para ele no guia de horários da RFFSA de 1982 (ver fonte acima). Este trem, uma espécie de subúrbio para militares (não sei se somente os militares podiam-no utilizar), partia sempre por volta de 17h30 de Porto Alegre e, de General Câmara, sempre por volta das 05:30 da manhã. As paradas nas estações intermediárias eram facultativas, ou seja, se tivesse gente para descer ou subir, ele pararia. O ramal saía da estação de Argemiro Dornelles, na variante, tinha uma parada no km 258, onde havia um triângulo de reversão (mais tarde, esta parada passou a ser chamada de "Quilômetro 2", possivelmente por estar a dois quilômetros do início do ramal) e aí seguia mais quatro quilômetros até chegar a General Câmara. O percurso total desde Porto Alegre era de cerca de 86 quilômetros e era um trem específico, ou seja, não era o mesmo trem que seguia para Uruguaiana e que se dividia na estação de Argemiro. Algumas fontes citam apenas carros-motor e, no final (anos 1980), trens Minuano, correndo nessa linha, mas os guias citam também trens
mistos. Em todos os horários consultados, jamais houve divisão, e o trem que seguia para o interior partia de Porto Alegre (estação central) mais tarde, cerca de meia hora ou uma hora. No guia da RFFSA de 1982, citado acima, é dada uma frequência diária de 2a a 6a feira, uma velocidade média de cerca de 26-27 km horários, e era um trem misto, com "duas poltronas de primeira classe". Isto em 1982. Até pelo menos 1979, o trem era de passageiros (A-1) e o misto existiu em uma época ou não, mas sempre como uma alternativa ao de passageiros, neste caso, havendo dois horários diários. "Inicialmente, na linha Porto Alegre-General Câmara, corriam carros-motores; no final do transporte de passageiros, já sob controle da RFFSA, os Minuano, então já retirados das linhas principais, passaram a fazer o serviço, ligando General Câmara a Porto Alegre" (Eduardo S. L. Wizniewsky, 11/2005). "Eu fiz uma das últimas viagens do Minuano, quando em 1975 viajei para General Câmara, pois o carro-motor que servia essa cidade estava enguiçado. Fiquei triste com o estado dos dois carros do Minuano utilizados, com vidros quebrados, bastante danificado. Fim de um glorioso e belo trem que cruzou diversas vezes os pampas gaúcho." (Marcus Anversa, 04/2003)

Foto tirada a partir da plataforma estação Argemiro Dorneles. Mostra a esquerda, o ramal que ligava a linha principal a General Câmara. Acima a direita moradias dos funcionários. 1987.

Vagão restaurante
Os carros-restaurantes que a Viação Ferrea pretende inaugurar brevemente possuem todos os melhoramentos modernos, entre elles o novo processo de fechamento, de sorte que, absolutamente, a poeira da estrada não penetra no interior dos vehiculos. Os carros são tambem providos de numerosos ventiladores.

Correio do Povo 13 de abril de 1912




terça-feira, 6 de julho de 2010

CRACK - SOFRIMENTO EPIDÊMICO

Há uma verdadeira epidemia de abuso do crack no país. Mas, diferente das doenças infecciosas, em que é possível isolar e combater o agente causador, a dependência química é difícil de ser tratada, pois a doença transforma o cérebro dos usuários.

Alterar o estado de consciência não é invenção da modernidade – soluções mágicas para afastar o sofrimento e fugir da realidade eram empregadas em rituais de muitas civilizações antigas. Os sumérios, no terceiro milênio a.C., já possuíam um ideograma para a “planta da felicidade”, a papoula, da qual se extrai o ópio. Recente, porém, é o conhecimento da química cerebral e do sistema de recompensa, um grupo de células responsável pela sensação de prazer e gratificação de comportamentos consumatórios, como a ingestão de alimentos e o sexo. As drogas de abuso, como a cocaína e o crack, causam forte ativação deste sistema e produzem sensação de grande satisfação; uma viagem química e imediata ao “mundo da felicidade”. Viagem que custa caro, pois a volta à realidade fica cada vez mais dolorosa e difícil de suportar.

Mas se a humanidade convive há tanto tempo com substâncias que causam dependência, o que faz com que o abuso de crack tenha atingido proporções tão alarmantes? Primeiro, o fato de ser fumada faz com que a droga tenha uma superfície enorme de absorção; em consequência, mais de 90% atinge o cérebro. Com isto, o estabelecimento da dependência é muito rápido e pode ocorrer na primeira utilização. Outro fator significativo é o “comercial”: o crack é barato, acessível a qualquer pessoa. Diferente de outras substâncias ilícitas, como a cocaína, e mesmo as lícitas, como as bebidas alcoólicas e o cigarro, o crack é acessível a qualquer pessoa. Apesar de o lucro ser menor, o traficante ganha no volume de comercialização. A desagregação das famílias, a onda de violência e as condições degradantes dos usuários são hoje motivo de preocupação de toda a sociedade.

Combater essa doença exige um esforço articulado. O poder público, o Judiciário, os serviços de saúde e a sociedade organizada são atores fundamentais nesta missão. O 1º Congresso Internacional sobre o Crack e outras Drogas, iniciativa pioneira da Associação do Ministério Público e da UFRGS, com apoio da RBS, propõe a discussão de estratégias de prevenção, tratamento e redução. Entender e elaborar esses aspectos e sugerir políticas públicas são os objetivos dos mais de mil participantes; uma contribuição relevante para tentar estancar esta epidemia de sofrimento que assola jovens, suas famílias e toda a sociedade.

Fonte:
Carlos Alexandre Netto Reitor da UFRGS
Jornal Zero Hora 05/07/2010

sábado, 3 de julho de 2010

CARTA AO DUNGA

Caro Dunga
Minha solidariedade, Dunga. Tu foste genial. Eu me tornei definitivamente teu fã. A eliminação contra a Holanda não abalará em coisa alguma a minha admiração. Tu és ingênuo, Dunga. Quiseste ganhar com base na seriedade, na lealdade e no caráter. Tiveste a coragem de dizer sempre a verdade e de enfrentar os mais poderosos. Cometeste erros, Dunga, mas isso é normal. Só os cretinos imaginam fazer tudo certo. Deixaste de fora alguns meninos talentosos, Dunga, e o velho Ronaldinho Gaúcho. Tiveste boas razões para isso. Tu havias ganhado tudo com o grupo que levaste a Copa. Desejavas valorizar os teus comandados e vencer ou perder com eles. És um capitão de navio à moda antiga. Aceitaste afundar com teu navio. Tua vitória teria sido uma revolução nos costumes. Que pena!
É verdade que não apostaste na beleza. Outros, no entanto, ganharam sem beleza alguma e tampouco sem tua valentia e tua nobreza rude. A derrota foi o resultado de alguns erros que podem acontecer com qualquer um: um gol contra de Felipe Melo, uma agressão boba de Felipe Melo, que determinou sua expulsão, e a perda do controle emocional pelo time todo. O mesmo Felipe Melo, entretanto, deu o lindo passe do gol do Robinho. Estiveste a um passo da glória, Dunga. Agora, voltaste, apesar dos triunfos anteriores, a ser um desgraçado, um maldito, um desprezado. Conheço isso, Dunga. Por mais que tu venças, serás sempre um perdedor. É tua sina. Os donos do mundo não suportam a tua franqueza, que chamam de arrogância. Detestam tua simplicidade, que rotulam de grossura. Odeiam tua transparência, que os impede de conceder privilégios e de fazer negociatas na tua cara.
Foste um exemplo, Dunga. O mundo, porém, não está preparado para a tua vitória. Espero que esteja para a de Maradona, técnico antagônico e completar a ti, mas não acredito. Tomara que eu me engane. Foste bravo, Dunga, impávido, colosso. Não mandaste Felipe Melo pisar no adversário. Buscaste o equilíbrio. Apostaste no talento de Kaká e Robinho. Sonhaste com a beleza. Ela não sorriu para ti. A mídia te condenou por não teres feito o jogo dela. Viste o jogo como um jogo e tudo fizeste para alcançar os teus objetivos. Não compreendeste que o jogo é também um teatro no qual alguns devem sempre figurar nos camarotes. Até o teu sotaque incomodou, Dunga, neste país onde os que debocham do teu sotaque têm sotaques tão ou mais caricaturais. Tiveste personalidade, Dunga. Isso é imperdoável. Há muita gente feliz agora. Teus inimigos podem sorrir triunfantes e sentenciar: “Eu não disse...”
Nós, os ruins, os ressentidos, os malditos, os perdedores, apesar de todas as nossas vitórias, estamos contigo Dunga. Somos os teus representantes por toda parte. Tinhas razão, Dunga: boa parte da mídia estava dividida, torcendo pelo Brasil e, ao mesmo tempo, te secando. Para vencer neste mundo, Dunga, é preciso aprender a ser hipócrita. Tu nunca conseguirás. Tuas vitórias serão sempre laboriosas. Tuas derrotas te marcarão mais. Tu, ao contrário de outros, não te escondes jamais. Aceita, caro Dunga, meus cumprimentos.

Fonte:Correio do Povo ; Juremir Machado da Silva - 03/07/2010