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sábado, 29 de novembro de 2025

Floresta em pé: lavoura e árvores reduzem impacto de mudança climática

 
Sistema combina produção agrícola com preservação ambiental

Imagine lavouras sendo cultivadas no mesmo espaço que florestas. Para ficar ainda mais evidente, poderia ser uma plantação de milho localizada à sombra de uma castanheira-do-pará, por exemplo.

Esta combinação de produção agrícola com preservação ambiental tem sido apontada por especialistas do clima e ativistas ambientais como ideal para ajudar o planeta Terra a se recuperar dos danos causados pela ação humana e que refletem no clima em forma de eventos extremos, como chuvas torrenciais e estiagens.

A este “casamento” que é, na verdade, um modelo de uso da terra justo e sustentável, dá-se o nome de “agrofloresta”.

Este sistema, que busca otimizar terrenos descampados e transformar técnicas de monocultivo em florestas biodiversas, é considerado hoje uma das principais apostas para mitigar os efeitos das mudanças climáticas na Terra.

A proposta é de uma agricultura não baseada em agrotóxicos e produtos químicos, mas baseada na própria ecologia, levando em consideração a existência de pragas, mas também o equilíbrio e a lógica da natureza. Daí, a junção de plantas menores - como as alimentares - com árvores maiores e com raízes profundas, para propiciar sombra e água, sempre que preciso for.

Em resposta a esta combinação, vem a diminuição da emissão de Dióxido de Carbono (CO₂) na atmosfera - a camada que protege o planeta da radiação solar e ajuda a equilibrar a temperatura. O CO₂ compõe os gases que agravam o efeito estufa, um dos causadores do aquecimento global. A matemática é simples - quanto mais árvores vivas, mais absorção de carbono pelas plantas e menos gás nocivo enviado à atmosfera.

Agrofloresta

Em entrevista ao podcast S.O.S! Terra Chamando!, Moisés Savian, engenheiro agrônomo e secretário do Ministério do Desenvolvimento Agrário, contou que a ideia da agrofloresta é atuar em duas frentes: na mitigação e adaptação dos efeitos das mudanças do clima.


“Quando eu estou diminuindo a emissão de carbono, eu estou mitigando. Se eu, por exemplo, tenho um pasto ralinho e eu monto uma agrofloresta, eu vou trazer para a superfície o carbono que está excessivo na atmosfera (o carbono é absorvido pelas plantas). Se eu tenho uma lavoura de milho que não resiste muito tempo sem chuva - diante da crise hídrica - e junto esta lavoura à floresta, que tem sombra e raízes profundas, o milho se beneficiará da captação de água de uma castanheira, por exemplo”, explica.

A produção é uma coprodução da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Savian lembra ainda que a lógica da agrofloresta vai além ao agregar as questões do planeta à geração de renda e produção de alimentos, potente ferramenta contra a fome no mundo.

A ideia de florestas produtivas ganhou popularidade nas últimas semanas, durante as plenárias e reuniões da COP 30, realizada em Belém (PA). Mas este é o caminho ancestral que vem sendo apontado nos últimos anos por especialistas do clima, como já adiantou em entrevista ao podcast o climatologista Carlos Nobre.


“Os indígenas chegaram na Amazônia 12, 14 mil anos atrás, e eles sempre utilizaram o conhecimento muito bem para tudo, para a saúde deles, para alimentação, no transporte, os produtos da biodiversidade. Os indígenas utilizaram e utilizam ainda mais de 2,3 mil produtos da biodiversidade, por exemplo, 250 frutas alimentares, 1.450 plantas medicinais. Eles aprenderam a conviver muito bem com a floresta”, disse.

Embora seja uma técnica milenar, a Floresta em Pé, mesmo a passos curtos, tem ganhado espaço entre o voluntariado no Brasil e no mundo.


Troca de Saberes




Estudante Yago Fagundes participou de projeto de imersão na França . Foto: Yago Fagundes/Divulgação

Em Botuporã, cidade baiana com cerca de 11 mil habitantes e localizada a cerca de 700 quilômetros de Salvador, um projeto de cooperação internacional tem incentivado moradores e jovens lideranças a entender a importância de unir o agro à ecologia.

O município faz parte de um consórcio, iniciado em 2021, com comunidades da França localizadas na região da Alsácia do Norte.

Segundo o idealizador do projeto, prefeito da cidade francesa de Eschbach - que tem menos de mil habitantes -, Hervé Tritschberger, a ideia surgiu após tratativas com a prefeitura botuporense para valorização de agricultores, produtores rurais e capacitação de jovens voluntários para troca de saberes sobre sustentabilidade.

Foi esta cooperação internacional que, há dois anos, levou o jovem estudante de Direito Yago Fagundes a uma imersão em agroecologia em terras francesas e, depois, à aplicação no Brasil.

“A experiência no Brasil tem sido de empoderamento rural. Nós recebemos, por exemplo, especialistas franceses que capacitaram nossos agricultores na produção do queijo Tomme de Vache (queijo de leite de vaca, em livre tradução), utilizando uma receita milenar de forma sustentável. Na França, eu vivenciei essa prática de perto, morei com agricultores com o selo 'BIO' e participei ativamente da construção de cercas vivas e projetos de plantio em escolas, elementos cruciais para a biodiversidade”, lembra Yago.

O estudante de 20 anos diz que apesar do desafio da língua, a vivência internacional o fez refletir sobre resiliência, inclusive, nos cuidados com o planeta.


“A agroecologia é fundamental para combater as mudanças climáticas. Ela usa a teia do voluntariado para criar uma solidariedade internacional que fortalece o planeta. Ela atua tornando o solo um sumidouro de carbono, aumentando sua matéria orgânica e sua capacidade de reter água, o que protege as comunidades de secas e eventos extremos”, explica.

Em contrapartida, duas voluntárias francesas passaram oito meses em Botuporã para aprender técnicas de agricultura orgânica.

“Brasil e França não têm os mesmos desafios, mas temos os mesmos objetivos, que é trabalhar para o desenvolvimento sustentável. O paradoxo dos países europeus é que eles não querem produzir alimentos com agrotóxicos, mas os consomem em importações. A partir dessa troca, é preciso repensar esta validação e capacitar agricultores para este modo mais saudável e sustentável”, diz o prefeito francês.

Como resultado da experiência, foi publicado um livro com a consolidação das principais trocas, disponibilizado gratuitamente e apresentado durante o Festival Nosso Futuro, realizado no início deste mês, em Salvador.

Consciência ambiental e planetária




Wyliam Torres é adepto da plantação de verduras e leguminosas no próprio quintal de casa Foto: Wylliam Torres/Divulgação

A troca de saberes pode ir muito além das fronteiras geográficas, Brasil-França. Pode ser passada de pai para filho, entre amigos, de avó para neto, como foi o caso do jornalista socioambiental e divulgador científico Wylliam Torres.

Morador do Rio de Janeiro, ele conta que é adepto da plantação de verduras e leguminosas no próprio quintal de casa, como prática sustentável e saudável.


“A minha primeira referência em agroecologia foi o quintal da minha avó e bisavó paternas, quando eu ainda era bem novinho e, àquela época, não fazia ideia da preciosidade que estava ao meu alcance e muito menos conhecia o termo. Hoje, é claro, entendo que a agroecológica vai muito além de alimentos livres de agrotóxicos, mas ela também engloba os aspectos subjetivos da nossa vida e que o adubo das nossas raízes: o território, a tradição e a sabedoria ancestral”, relata.

Torres diz ainda que a postura ambiental reflete valores como consciência ambiental responsável e coletiva, além da justiça socioambiental.

“É nesse caminho que resgato parte da minha história, minha relação profunda com a natureza, meu senso de comunidade, minha necessidade de lutar pela vida na Terra e preservá-la”, conclui.

E mesmo de forma isolada, ele entende que não há fórmula mágica para enfrentar individualmente a crise climática.


“Quando se trata de combater os efeitos da crise climática que atravessamos, não existe uma balança que diga qual é a ação mais importante nesse processo, afinal, cada atitude que visa contrapor a lógica exploratória do agronegócio, é um ato revolucionário. Portanto, toda e qualquer ação individual que busque fugir da lógica do lucro, é sempre válida”, finaliza.

Exemplos do Brasil

Ainda acompanhando de perto o desfecho da COP 30, o Secretário de Governança Fundiária e Desenvolvimento Territorial e Socioambiental do Ministério de Desenvolvimento Agrário, Moisés Savian, adianta que o encontro tem sido uma grande oportunidade de mostrar para o mundo o que o Brasil tem feito.


“A COP foi muito positiva para o Brasil, apresentamos nossa agenda de florestas produtivas para o mundo. Além de manter, vamos ampliar a área de cobertura florestal com geração de renda e alimentos”, diz.

Para ele, é essencial pensar em um sistema de produção de alimentos resiliente às intempéries, como secas e chuvas extremas.

“Eu acho que o futuro do Brasil é avançar na agricultura resiliente, de baixo carbono, biodiversa, agricultura agroecológica nas áreas degradadas. Nós temos muita área degradada no Brasil. Nós temos muita pastagem subutilizada. São áreas em que não estão produzindo alimentos e não estão servindo para a questão ecológica também. A propósito, o governo tem trazido a ideia de florestas produtivas de agroflorestas - avançar com a produção biodiversa, de agroflorestas nessas áreas que já foram desmatadas, numa ótica de restauração, mas uma restauração produtiva.”, diz.

>> Ouça aqui o podcast S.O.S! Terra Chamando!

Savian defende ainda o incentivo financeiro de países mais desenvolvidos e, internamente, o crédito agrícola para capacitar pequenos agricultores e produtores rurais a aprenderem e utilizarem a técnica de produção de alimentos sustentável. Mas, ele chama a atenção, para um ponto ainda desafiador: ganhar o bolso e coração dos consumidores.

“Porque nós temos hoje, muita gente vive contando o dinheiro para passar o mês. Algumas outras pessoas podem pagar um pouco mais por um produto que é diferenciado. Nós nos reunimos com uma rede de supermercados internacional. E eles estão criando uma prateleira chamada de ‘produtos da floresta’. E aí, qual era o desafio que eles tinham? Muitas vezes, no mercado do varejo, ele vai precisar de 30 dias, 60 dias para pagar. O agricultor, não pode esperar tanto. E essa rede está fazendo pagamento antecipado”, diz Savian.

Segundo ele, são iniciativas como essa que podem dar um efeito mais importante - além da mobilização de governo e produtor, que é incluir o mercado consumidor como uma mola propulsora da economia sustentável, da produção decorrente do agroflorestamento.

Para Savian, a Floresta em Pé pode fazer parte da solução para a situação de emergência climática que o planeta vive.


“Acredito que é esse ‘remedinho’ que pode junto com a restauração florestal, com o combate ao desmatamento, com uma pecuária mais intensa, no sentido de ocupar melhor o espaço que já existe, sem derrubar mais árvores. Não é um remédio que você vai tomar na veia e vai resolver num dia pro outro, mas é uma dose meio homeopática - tomada em pequenas quantidades, mas de forma contínua”, conclui.

Fonte: Agência Brasil

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Entenda o Pacote de Belém; que inclui 29 documentos aprovados na COP30

 
Fundo Florestas Tropicais para Sempre é uma das conquistas

Depois de 13 dias de negociação, a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30) terminou no sábado (22), em Belém, com uma série de avanços e discussões que prosseguirão pelos próximos meses.

A presidência brasileira da COP30 teve como feito a aprovação de 29 documentos de forma unânime pelos 195 países que participaram do encontro na capital paraense.

Esse conjunto de textos ficou conhecido como Pacote de Belém, e está publicado no site da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC, da sigla em inglês), âmbito sob o qual se realizam as edições da COP.

De acordo com a presidência brasileira da conferência, as 29 decisões incluem avanços em temas como transição justa, financiamento da adaptação, comércio, gênero e tecnologia.

Entre as maiores conquistas da COP30, está o Fundo Florestas Tropicais para Sempre.

Por outro lado, o Mapa do Caminho para afastamento da economia dependente de combustíveis fósseis, uma das prioridades do governo brasileiro, não entrou na lista de consensos.

Veja as principais decisões resultantes da COP30:

Fundo Florestas Tropicais para Sempre

O Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF, do inglês Tropical Forest Forever Facility) cria uma forma inédita de pagamento para que países mantenham as florestas tropicais em pé.

Países que preservam as florestas tropicais serão recompensados financeiramente por meio de um fundo de investimento global. Ao menos 63 países já endossaram ideia. O fundo já mobilizou, segundo a presidência da COP30, US$ 6,7 bilhões.

O dinheiro não é uma doação. A proposta é que os investidores recuperem os recursos investidos, com remuneração compatível com as taxas médias de mercado, ao mesmo tempo em que contribuem para a preservação florestal e a redução de emissões de carbono.

A ideia é que as florestas sejam vistas como fonte de desenvolvimento social e econômico.

>> Entenda como funciona o Fundo Florestas Tropicais para Sempre

Financiamento

Os países incluíram no Pacote de Belém o compromisso de triplicar o financiamento da adaptação às mudanças climáticas até 2035 e a ênfase na necessidade de os países desenvolvidos aumentarem o financiamento para nações em desenvolvimento.

O documento Mutirão, classificado pela presidência brasileira da COP30 como um “método contínuo de mobilização que começa antes, atravessa e segue além da COP30”, cita a ampliação do financiamento para os países em desenvolvimento para ação climática, de todas as fontes públicas e privadas, para pelo menos US$ 1,3 trilhão por ano até 2035.

122 países com NDC

A COP termina com 122 países tendo apresentado Contribuições Nacionalmente Determinada, conhecidas nas discussões como NDC, sigla em inglês para Nationally Determined Contributions.

NDC são as metas e os compromissos assumidos pelas partes para a redução de emissões de gases do efeito estufa. Os países devem apresentar a cada cinco anos uma nova versão de NDC, com as ambições atualizadas em relação ao Acordo Paris.

O Acordo de Paris, lançado na COP21, em 2015, reúne ações globais em resposta à ameaça da mudança climática, como a redução das emissões de gases de efeito estufa.

Meta Global de Adaptação

A COP30 recebeu 59 indicadores voluntários para monitorar o progresso sob a Meta Global de Adaptação. São indicadores que envolvem setores como água, alimentação, saúde, ecossistemas, infraestrutura e meios de subsistência. Todos integram questões transversais como finanças, tecnologia e capacitação.

Atenção às pessoas

Os documentos aprovados ressaltam que a transição justa deve se atentar às pessoas, tanto como protagonistas de ações quanto em termos de igualdade entre elas, de forma que populações vulnerabilizadas recebem atenção maior no cenário de mudança do clima.

Pela primeira vez, afrodescendentes foram mencionados nos documentos da conferência sobre o clima. 

Gênero

Os países aprovaram um Plano de Ação de Gênero. A iniciativa amplia o orçamento e o financiamento sensíveis ao gênero e promove a liderança de mulheres indígenas, afrodescendentes e rurais.

Ambição coletiva

O documento Mutirão reafirma a determinação em aumentar a ambição coletiva ao longo do tempo. Para isso, há dois mecanismos de implementação:

  • Acelerador Global de Implementação: iniciativa colaborativa e voluntária lançada sob a liderança das presidências da COP30 e COP31 para apoiar os países na implementação de NDC e Planos Nacionais de Adaptação. 
  • Missão Belém para 1,5 °C: plataforma orientada para a ação sob a liderança da COP29-COP31, para promover maior ambição e cooperação internacional em mitigação, adaptação e investimento.

COP da Implementação

O Brasil tem defendido que uma série de anúncios e iniciativas de impacto já está em curso, fazendo dessa COP a conferência de implementação das medidas. São exemplos:

  • Iniciativa Fini (Fostering Investible National Implementation), medida para tornar mais viáveis os Planos Nacionais de Adaptação. A Fini reúne países, bancos de desenvolvimento, seguradoras e investidores privados e pretende desbloquear US$ 1 trilhão em projetos de adaptação dentro de três anos, com 20% mobilizados pelo setor privado;
  • A Fundação Gates prometeu US$ 1,4 bilhão para apoiar pequenos agricultores;
  • Plano de Ação de Saúde de Belém, endossado por mais de 30 países e 50 organizações, elevou a saúde como prioridade climática. Recebeu US$ 300 milhões do Fundo de Financiadores do Clima e Saúde (Climate and Health Funders Coalition), uma rede de organizações filantrópicas. Os recursos são destinados a fortalecer sistemas de saúde, hospitais, vigilância e prevenção de doenças resilientes ao clima, especialmente nos países emergentes;
  • Dez países anunciaram apoio ao Acelerador Raiz, iniciativa para restaurar terras agrícolas degradadas e mobilizar capital privado.

Mapa do Caminho

Prioridade do governo brasileiro, inclusive tendo sido objeto de discursos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nos últimos dias, o Mapa do Caminho, um roteiro para o afastamento dos combustíveis fósseis – emissores de gases do efeito estufa, causadores do aquecimento global – ficou de fora dos documentos.

Na COP, questões precisam ser aprovadas por unanimidade, mas o Mapa do Caminho teve apoio de 80 a 85 países.

De acordo com a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, e do presidente da COP30, o embaixador André Corrêa do Lago, o Mapa do Caminho não foi descartado. Pelo contrário, fará parte dos próximos meses de discussão entre os países.

O Brasil segue na presidência da COP até novembro de 2026.

“O Mapa do Caminho já não é mais uma proposta apresentada pelo Brasil, pelo presidente Lula, mas por dezenas de países e por milhares e milhares de pessoas em todo mundo, chancelada pela comunidade científica”, disse Marina.

A ministra disse acreditar que cada país deverá ter o seu próprio Mapa do Caminho, assim como acontece com as NDC.

“Um país rico, eu imagino que todos já têm seus mapas do caminho, já têm suas trajetórias muito bem planejadas. Agora países em desenvolvimento, países pobres, dependentes inclusive de petróleo em suas economias, não têm essas trajetórias. É por isso que é muito importante o esforço que será feito”.

Ela ressalta que o Brasil recebeu de mais de 80 países o mandato para tratar do tema, além de ser assunto com respaldo “muito grande na opinião pública, da sociedade civil e da comunidade científica".

Além do afastamento dos combustíveis fósseis, lembrou Marina, haverá outro mapa referente ao fim do desmatamento.

O embaixador Corrêa do Lago admitiu que imaginava ser difícil ter consenso sobre o Mapa do Caminho na COP30.

“Há uma resistência sobre o tema e havia uma outra possibilidade, que era a de transformar isso em uma agenda importante da COP”, relativiza ele, prometendo estudos pelos próximos 11 meses e meio da presidência brasileira na COP.

“Vamos juntar a maior inteligência possível sobre energia fóssil”, disse.

FONTE : Agência Brasil



terça-feira, 11 de novembro de 2025

Tornados simultâneos no Sul surpreenderam meteorologistas

 
Seis diferentes tornados se formaram quase que simultaneamente

Nos últimos anos, o registro de fenômenos meteorológicos envolvendo ventos fortes, com grande potencial destrutivo, têm se tornado mais frequentes em diferentes partes do planeta. Ainda assim, segundo especialistas, os tornados ocorridos no Paraná e em Santa Catarina, na última sexta-feira (8), teve um caráter inédito no Brasil. O fenômeno sem precedentes coincide com a realização, em Belém, da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), evento que reúne lideranças políticas, ambientalistas, pesquisadores e representantes da sociedade civil organizada para discutir formas de tentar conter as mudanças climáticas .

De acordo com órgãos estaduais, seis diferentes tornados se formaram a partir das mesmas condições atmosféricas, atingindo, quase que simultaneamente ao menos seis cidades: Rio Bonito do Iguaçu, Turvo e Guarapuava, no Paraná, e Dionísio Cerqueira, Xanxerê e Faxinal dos Guedes, em Santa Catarina.

“Não é fato incomum termos tornados no sul do Brasil” explicou o meteorologista do Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar), Lizandro Jacóbsen à Agência Brasil.

“Mas nestes 32 anos de existência do Simepar, este é o mais intenso [tornado já registrado no estado]. E não há registros de que vários eventos desta magnitude e abrangência tenham ocorrido em um mesmo dia, em um curto espaço de tempo”, acrescentou Jacóbsen.

O meteorologista reconhece que a urbanização das cidades e o aperfeiçoamento tecnológico podem ter facilitado a identificação de fenômenos simultâneos.

“Antes, qualquer tornado afetava muito mais zonas rurais, de forma que, muitas vezes, não havia registro ou danos. Hoje, com o adensamento urbano e a atual tecnologia, se ocorrer, nós vamos saber. Principalmente se houver estragos e estes forem registrados pela Defesa Civil”, concluiu Jacóbsen.

Consultado pela reportagem, o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) acrescentou que a forte instabilidade atmosférica que originou os “prováveis tornados” que atingiram o Paraná e Santa Catarina antecedeu uma frente fria. E que esta foi potencializada por um ciclone extratropical que se formou no Rio Grande do Sul e avançou em direção ao oceano.

“Sendo comprovada a ocorrência de múltiplos tornados independentes, pode ser um evento ímpar. Lembrando, no entanto, que por se tratar de um fenômeno de micro a mesoescala [cujo raio de ação varia entre algumas dezenas de metros e quilômetros de extensão], não há registros significativamente representativos sobre a ocorrência inequívoca destes fenômeno”, advertiu o instituto. De acordo com o Inmet, “somente estudos posteriores poderão esclarecer a ocorrência de múltiplos tornados”. "Muitas vezes, é necessária uma visita ao local, por especialista, para diferenciar os danos em relação a outros eventos que podem gerar danos similares".

como se forma um tornado

Em Rio Bonito do Iguaçu, cidade de cerca de 14 mil habitantes que fica a 400 quilômetros de Curitiba, o tornado de categoria F3 na escala Fujita provocou ventos estimados entre 300 km/h e 330 km/h, causando estragos em cerca de 90% da área urbana. Ao menos cinco pessoas morreram na cidade e 432 ficaram feridas devido às consequências dos fortes ventos. Um sexto óbito foi registrado em Guarapuava.

A chamada Escala Fujita Aprimorada, ou Escala EF, é empregada por diversos países para avaliar a intensidade dos tornados com base na destruição causada e outras variáveis, como as velocidades que as rajadas de vento de ao menos três segundos de duração atingem – e que podem variar entre pouco mais de 100 km/h e 330 km/h.

Os tornados têm a forma de um redemoinho de vento girando violentamente, com grande velocidade. Formados a partir de nuvens que podem estar a até 20 quilômetros acima da superfície da Terra, produzem uma espécie de coluna de ar ascendente capaz de sugar parte do que encontra em sua trajetória. Geralmente, os tornados duram pouco tempo – moradores de Rio Bonito cujos imóveis foram atingidos na última sexta-feira relataram que tudo não durou mais que poucos segundos -, mas têm grande poder destrutivo.

Condições meteorológicas instáveis podem ocasionar outros fenômenos semelhantes, como o chamado downburst, cuja principal diferença em relação ao tornado é que o sentido da corrente de ar é descendente. Ou seja, as fortes descargas de vento se voltam em direção ao solo. E, ao atingi-lo, se espalham horizontalmente, “varrendo” a área ao redor da base da nuvem.

Menos potente que tornados e downbursts, os vendavais são provocados e se caracterizam pelo forte deslocamento de ventos, normalmente acompanhados por tempestades que podem causar quedas de árvores, interrupção no fornecimento de energia elétrica ou nas telecomunicações, danos residenciais e em plantações, destelhamentos e outras consequências..

Quando acompanhadas por ventos de mais de 119 km/h, estas tempestades são designadas conforme a região do planeta onde ocorrem: furacões no Oceano Atlântico e nordeste do Oceano Pacífico; tufões no noroeste do Oceano Pacífico e ciclone tropical no Pacífico Sul e no Oceano Índico.

Fonte: Agência Brasil




Exposição digital mostra vida nos seis biomas brasileiros

 
Versão presencial está em cartaz até 1º de fevereiro, em Belém

Uma exposição digital que reúne mais de 50 histórias de vida coletadas nos seis biomas brasileiros entre 2024 e 2025 está disponível gratuitamente até o dia 1º de fevereiro de 2026.

A mostra exibe vídeos, sons e imagens que retratam como diferentes pessoas e comunidades convivem, resistem e criam soluções em meio a transformações da terra. Inaugurada pelo Museu da Pessoa, a mostra pretende que o público reflita sobre a relação entre seres humanos e o planeta a partir de uma escuta biocêntrica, que reconhece todas as formas de vida como igualmente valiosas.

Com curadoria de Ailton Krenak e Karen Worcman, a exposição traz narrativas de povos indígenas, agricultores, artistas, quilombolas, cientistas e guardiões da natureza que compartilham suas experiências de pertencimento à Terra.


“De onde nós viemos e para onde nós estamos indo, o que nós estamos fazendo com essa experiência? A terra tem resposta para todos nós, nos lugares de onde nós nos originamos”, afirma o curador Ailton Krenak.

Krenak diz acreditar que, conseguindo abrir o pensamento para esse movimento biocêntrico, seria mais fácil entender porque os povos nativos, os povos originários, são tão agarrados aos seus lugares de origem.

“Eu percebo que isso é uma atitude biocêntrica. E é interessante que ela articula também uma ideia de comunidade. É comum, não é individual. O jeito de estar na terra é comum, é coletivo”, ressalta.

Karen Worcman, curadora e fundadora do Museu da Pessoa, destaca que, ao longo da trajetória, exposições, mostras audiovisuais e projetos educativos têm ampliado o diálogo com diferentes públicos e visibilizado como as histórias de vida são ferramentas de transformação social. “É nessa perspectiva que apresentamos essa exposição, convidando cada visitante a se reconhecer como parte dessa grande teia comum de vida”, diz Karen.

Experiência imersiva em Belém

A versão presencial da mostra “Você Já Escutou a Terra?” está em cartaz até 1º de fevereiro de 2026 no Museu do Estado do Pará, no Palácio Lauro Sodré, em Belém. A exposição convida o público a “entrar” sob a crosta terrestre, por meio de um grande manto coletivo feito de resíduos e tecidos, trilha sonora imersiva e histórias gravadas em vídeo, criando uma experiência sensorial de escuta da Terra.

Com curadoria de Ailton Krenak e Karen Worcman, expografia de Marcelo Larrea e trilha de Benjamin Taubkin, a mostra é organizada em quatro módulos: Cabine Manto, O Manto (Escutando a Terra), Rios de Memória e Fala, Museu da Pessoa.

Fonte: Agência Brasil

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Entenda como funciona o Fundo Florestas Tropicais para Sempre - TFFF

 

Iniciativa foi lançada durante a COP30, em Belém

A sigla TFFF vem de Tropical Forest Forever Facility, batizado em português de Fundo Florestas Tropicais Para Sempre. Trata-se de um modelo de financiamento que vai combinar investimento público e privado e prevê que os recursos sejam repassados a países com florestas tropicais que trabalhem pela preservação dessas áreas.

Entre eles estão:

Brasil,
Colômbia,
Peru,
Indonésia,
República Democrática do Congo e
Gana.

Na prática, países que conseguirem recuperar e manter suas florestas de pé serão recompensados financeiramente por esse esforço. Eles só receberão os valores após verificação por imagens de satélite que confirmem níveis de desmatamento abaixo de limites pré-definidos.

Da mesma forma, haverá deduções para cada hectare desmatado ou degradado.

A lógica do TFFF é a de que as florestas tropicais regulam o clima global, fornecem água doce e abrigam uma biodiversidade valiosa que impacta a vida de todos ao redor do planeta e a própria sobrevivência da humanidade - e geram benefício não apenas para o território em que se encontram.

Por isso, a ideia é que os países que trabalham pela preservação sejam recompensados financeiramente, uma vez que os benefícios da floresta em pé são usufruídos por todo o planeta.
O TFFF já está em funcionamento?

A ideia foi anunciada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2023, na COP 28 em Dubai, e passa a funcionar neste ano, a partir do lançamento oficial durante a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), que acontece em Belém.

O Brasil fez o primeiro aporte de US$ 1 bilhão para o fundo durante a Assembleia Geral da ONU, em Nova York, em setembro. O TFF está movimentando os debates da Cúpula do Clima, em Belém, evento que reúne chefes de Estado e governos e precede os debates oficiais COP30.
Quem já doou para o TFFF?

Além do aporte inicial de US$ 1 bilhão anunciado pelo Brasil, em setembro, outros países anunciaram investimentos durante a Cúpula do Clima, em Belém: Noruega - US$ 3 bilhões
Indonésia - US$ 1 bilhão
França - US$ 500 milhões

Dessa forma, até esta data, o TFFF já totaliza mais de US$ 5 bilhões.

O fundo já conta com o apoio de cinco países com florestas tropicais (Colômbia, Gana, República Democrática do Congo, Indonésia e Malásia), além de outros potenciais investidores como Alemanha, Emirados Árabes Unidos e Reino Unido.
Como ele funciona?

O TFFF se diferencia dos modelos tradicionais como os fundos que são alimentados por doações. Isso porque ele paga por resultados, em vez de financiar projetos e recompensar florestas em pé.

Além disso, prevê um protagonismo das populações indígenas e povos e comunidades tradicionais, que desempenham papel direto na proteção das florestas. O mecanismo propõe destinar pelo menos 20% dos pagamentos nacionais a essas populações.
Quanto será investido no TFFF?

A proposta é que sejam captados, durante a COP30, US$ 25 bilhões por países investidores. Espera-se que o aporte seja um atrativo para alavancar o capital da iniciativa privada e, com isso, reunir US$ 125 bilhões a serem investidos na conservação das florestas tropicais.

De acordo com o Ministério de Meio Ambiente (MMA), o objetivo é mobilizar cerca de US$ 4 bilhões por ano, a serem distribuídos entre os países com florestas tropicais. Esse valor representa, segundo o governo, de três a quatro vezes os orçamentos discricionários dos ministérios do Meio Ambiente dos principais países florestais.

Por isso, a avaliação é de que o TFFF pode ter um impacto transformador sobre as políticas nacionais de conservação florestal.

Fonte: Agência Brasil

2025 deve ser o segundo ano mais quente, diz organização meteorológica

 
Crescem as concentrações de gases de efeito estufa que retêm calor

O ano de 2025 deve ser o segundo ou terceiro mais quente já registrado. A temperatura média próxima à superfície, de janeiro a agosto, foi de 1,42° C ± 0,12° C acima da média pré-industrial.

Os dados são do Relatório sobre o Estado do Clima Global da Organização Meteorológica Mundial (OMM). Os últimos onze anos, de 2015 a 2025, terão sido individualmente os mais quentes nos 176 anos de registros de observação, sendo os últimos três anos os três anos mais quentes.

"Essa sequência sem precedentes de altas temperaturas, combinada com o aumento recorde dos níveis de gases de efeito estufa no ano passado, deixa claro que será praticamente impossível limitar o aquecimento global a 1,5 °C nos próximos anos sem ultrapassar temporariamente essa meta. Mas a ciência também é clara ao afirmar que ainda é totalmente possível e essencial reduzir as temperaturas para 1,5 °C até o fim do século", disse a secretária-geral da OMM, Celeste Saulo.


Indicadores climáticos

O relatório foi divulgado pela OMM para a Cúpula da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), em Belém, como referência científica para fundamentar as negociações da COP em evidências confiáveis. O documento ainda mostra indicadores climáticos essenciais e sua relevância para apoiar a formulação de políticas e documentos científicos mais detalhados.

Em seu discurso na COP30, o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, disse que cada ano acima de 1,5 grau prejudicará as economias, aprofundará as desigualdades e causará danos irreversíveis.

“Devemos agir agora, com grande rapidez e em grande escala, para que esse aumento seja o menor, o mais curto e o mais seguro possível e para que as temperaturas voltem a ficar abaixo de 1,5°C antes do final do século”, assegurou.

Segundo o relatório, as concentrações de gases de efeito estufa que retêm calor e o conteúdo de calor dos oceanos continuaram a aumentar em 2025, com a extensão do gelo marinho no Ártico após o congelamento de inverno sendo o menor já registrado, e a extensão do gelo marinho na Antártida bem abaixo da média ao longo do ano. “A tendência de longo prazo de elevação do nível do mar continuou, apesar de uma pequena e temporária oscilação devido a fatores naturais”, diz o texto.

Também tiveram impacto em cascata os eventos climáticos extremos registrados em todo o mundo em 2025, como chuvas torrenciais e inundações, calor intenso e incêndios florestais. Todos esses fatores contribuíram para o deslocamento de pessoas em diversas regiões, prejudicando o desenvolvimento sustentável e o progresso econômico.

Fonte: Agência Brasil

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Da Eco92 à COP30: a trajetória de enfrentamento à mudança do clima

 
Representantes do mundo inteiro voltam a se reunir dia 10 em Belém

No próximo dia 10 de novembro, representantes de países do mundo inteiro voltam a se reunir com o objetivo comum de acelerar as ações climáticas globais na busca de frear um antigo desafio: a mudança do clima. Neste ano, a 30ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30) será na cidade de Belém (PA) e, de volta ao Brasil, retoma parte da história onde tudo começou.

Com características de emergência, a mudança do clima será debatida em meio a outras crises como a do multilateralismo refletido em conflitos mundiais. Na última Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), o secretário-geral, António Guterres, destacou que “neste momento de crise, as Nações Unidas nunca foram tão essenciais.”

Foi no ambiente multilateral, em 1992, que foi lançado o primeiro tratado para que países de diferentes regiões, culturas e naturezas cooperassem para enfrentar o problema que afetava a todos. A proposta de convenção foi apresentada na cidade do Rio de Janeiro, durante a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, que ficou conhecida como Eco92.

Desde 1988, a Organização Mundial de Meteorologia e o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente já alertavam sobre as mudanças no regime climático no planeta, mas as causas e futuros impactos foram compreendidos após a criação do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC).

O primeiro relatório produzido pelo IPCC, a partir de análises de pesquisas científicas de todo o mundo, levaram à criação do Comitê Intergovernamental de Negociação (INC, na sigla em inglês). O colegiado instituído na Assembleia Geral da ONU, em dezembro de 1990, tinha como objetivo estabelecer compromissos, metas e calendários para enfrentar a causa de todo o problema: as emissões de gases de efeito estufa.

Entre as medidas está a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC, na sigla em inglês), o tratado lançado no Rio de Janeiro e que iniciou a história das COPs sobre a mudança do clima.

Após a adesão de 196 países, a Convenção do Clima, ou UFNCCC, entrou em vigor e já previa encontros anuais de avaliação, para que o tratado fosse revisto e as políticas públicas adotadas nos países pudessem ser conhecidas, replicadas e adaptadas à realidade de cada nação.

A primeira Conferência das Partes ocorreu após um ano da entrada em vigor da convenção. Foi realizada em Berlim, na Alemanha, em 1995. Desde então a Convenção do Clima foi sendo redesenhada com novos compromissos, mecanismos financeiros e responsabilidades comuns, mas diferenciadas dos países-parte do tratado.

Entre os instrumentos que modificaram e aperfeiçoaram esse primeiro tratado, estão o Protocolo de Quioto, o Acordo de Paris, o Livro de Regras do Acordo de Paris e o Balanço Global, que resultaram das negociações e consensos alcançados em cada um dos encontros anuais.

Confira os locais onde ocorreram todas as COPs da Convenção do Clima e alguns dos principais acordos resultantes.

1ª – Berlim, Alemanha (1995) – Mandato de Berlim

2ª – Genebra, Suíça (1996)

3ª – Quioto, Japão (1997) – Protocolo de Quioto

4ª – Buenos Aires, Argentina (1998)

5ª – Bonn, Alemanha (1999)

6ª – Haia, Holanda (2000) – Objetivos de Desenvolvimento do Milênio

7ª – Marraquexe, Marrocos (2001) – Acordos de Marraquexe

8ª – Deli, Índia (2002)

9ª – Milão, Itália (2003) – Mecanismo de Desenvolvimento Limpo

10ª – Buenos Aires, Argentina (2004) – Inventário Nacional de Emissões de Gases de Efeito Estufa

11ª – Montreal, Canadá (2005)

12ª – Nairóbi, Quênia (2006)

13ª – Bali, Indonésia (2007)

14ª – Posnânia, Polônia (2008)

15ª – Copenhague, Dinamarca (2009) – Acordo de Copenhague

16ª – Cancún, México (2010)

17ª – Durban, África do Sul (2011) – Fundo Verde para o Clima

18ª – Doha, Catar (2012) – Convenção de Doha

19ª – Varsóvia, Polônia (2013)

20ª – Lima, Peru (2014)

21ª – Paris, França (2015) – Acordo Paris

22ª – Marraquexe, Marrocos (2016)

23ª – Bonn, Alemanha (2017) - Powering Past Coal Alliance e Plano de Ação de Gênero

24ª – Katowice, Polônia (2018)

25ª – Madri, Espanha (2019)

26ª – Glasgow, Escócia (2021) - Livro de Regras do Acordo Paris e Mercado de Carbono (Artigo 6)

27ª – Sharm El Sheikh, Egito (2022)

28ª – Dubai, Emirados Árabes (2023) - Balanço Global

29ª – Baku, Azerbaijão (2024)

30ª – Belém, Brasil (2025)

Fonte: Agência Brasil



segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Belém: saiba mais sobre a cidade palco da COP30

 
História do território começou há milhares de anos

Nomeada Belém em 1616, a cidade que receberá a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30) de 10 a 21 de novembro já foi chamada Mairi. O lugar era o território do povo Tupinambá, guardião de conhecimentos capazes de fazer frente ao desafio global que hoje reunirá líderes de todo o mundo em busca de solução.

Segundo o historiador Michel Pinho, a história do território começou há milhares de anos. “Essa região da Amazônia, ao contrário do que foi ensinado por muito tempo, é densamente povoada há 11 mil anos. Existem pesquisadores, como [o arqueólogo] Marcos Magalhães, do Museu Emílio Goeldi, que comprovam uma intensa ocupação ao longo dos rios, lagos e igarapés”.

Entre essas ocupações, estava Mairi, ou o território de Maíra, entidade responsável pela origem do mundo e provedora dos segredos ancestrais sobre a mandioca, o açaí e tantas outras culturas ancestrais.

“Nós atribuímos a outros povos fora da Amazônia esse grau de desenvolvimento tecnológico e social, como é o caso dos maias, aztecas, incas, egípcios, mas os tupinambás também tinham pleno conhecimento e domínio da natureza. Você tem toda uma costa que hoje é o estado do Pará, partindo de Belém, ocupada por uma população que tem um profundo conhecimento em relação à pesca, em relação à cerâmica, em relação ao plantio”, destaca Michel Pinho.

Os estudos arqueológicos da região apontam que esses grupos eram grandes e adensados, podendo ultrapassar mil indivíduos em áreas de cerca de 2,5 hectares segundo descreve Márcio Souza, no livro História da Amazônia.

“Os tupinambás colocavam a questão Mairi como um ajuntamento, como um grupo de pessoas. E no nosso caso, esse ajuntamento é plenamente explicável pelo fato de ele estar entre dois espaços geográficos fundamentais, que é o Rio Guamá e a Baía do Guajará. Então, você tem locomoção, você tem proteção e também tem alimentação”, explica o historiador Michel Pinho.

Por muitos anos após a chegada de colonizadores no Brasil, os tupinambás resistiram em Mairi, até a disputa entre franceses e portugueses por terras na região levar Francisco Caldeira Castelo Branco e uma tropa com mais de 100 soldados para fundar uma cidade e construir o forte que fosse capaz de barrar a ocupação do território por outras nações europeias.

Como Castelo Branco navegou em direção a Mairi no período do Natal, logo após reconquistar o Maranhão dos franceses, decidiu renomear o local escolhido para construção do Forte do Presépio, de cidade de Nossa Senhora de Belém do Grão Pará.

Os embates entre os tupinambás e os portugueses que seguiram após a chegada de Castelo Branco não foram capazes de apagar totalmente a ancestralidade de Mairi.

“Na verdade, essa ocupação Tupinambá é a prática cotidiana de milhares de pessoas até hoje. Então, a população que está na beira dos rios, a população que está nos campos do Marajó, ela tem uma relação direta com esse passado histórico, no sentido do cultivo do açaí, do cultivo da castanha, do consumo de peixe, do manejo da floresta. Esse passado, não está distante. Na verdade, ele está presente no nosso cotidiano”, ressalta o historiador.

Um cotidiano que resiste também na língua tupi, ainda presente no vocabulário de quem vive em Belém, seja na rua que homenageia os tupinambás ou na cidade vizinha Marituba, seja em palavras cotidianas como o carapanã, que permanece sendo a palavra usada para nomear o que o resto do Brasil conhece como pernilongo.

Palavras que farão parte do cotidiano de líderes mundiais ao longo de duas semanas em que terão a oportunidade de buscar inspiração nos povos que viveram por milhares de anos em harmonia com o meio ambiente sem causar qualquer alteração no clima.

“Eu acho que é uma relação até poética, porque você tem um passado que ensina o presente. Você tem um habitante da floresta que ensina que derrubar é a pior solução, você ensina que o cuidado das águas é fundamental para a existência, você ensina que o consumo consciente dos alimentos faz parte de uma sociedade que pensa no futuro. A COP30 precisa pensar que a sustentabilidade do planeta não está no futuro, ela está lá no passado para ensinar a gente”, conclui Michel Pinho.

Durante a programação da COP30, em Belém, o historiador Michel Pinho dará uma aula aberta gratuita sobre a cidade, a partir do Forte do Presépio, no complexo Feliz Lusitânia, passando pelo Mercado Ver-o-Peso, Mercado Bolonha, Convento das Mercês, Boulevard da Gastronomia, Companhia das Docas do Pará até o Museu das Amazônias.

Fonte: Agência Brasil



Barcos pesqueiros atracados na Doca do Ver-o-Peso, na Cidade Velha, às margens da baía do Guajará. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasi


A Ilha do Combú, banhada pelo Rio Guamá, é uma Área de Proteção Ambiental (APA) e destino turístico amazônico na região insular de Belém, habitada por comunidades tradicionais que vivem de pesca, artesanato, turismo e produção de açaí. É acessada através de barcos que partem com passageiros do Terminal Hidroviário Ruy Barata. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil


O mercado Ver-o-Peso, em Campina. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil


sábado, 1 de novembro de 2025

Mais ricos emitem, em média, 400 vezes mais CO₂ que mais pobres

 
Participação dos ricos nas emissões aumentou 32% em 24 anos

O 0,1% mais rico da população mundial emite em apenas um dia mais gases do efeito estufa que metade das pessoas mais pobres. Apenas um indivíduo entre os mais ricos emite, em média, 800 quilos de gás carbônico equivalente (CO₂e) por dia, 400 vezes mais que alguém do grupo de menor poder aquisitivo, que tem uma média de dois quilos de CO₂/dia.

Os dados integram o relatório Saque Climático: como poucos poderosos estão levando o planeta ao colapso, lançado nesta quarta-feira (29), pela organização global da sociedade civil, Oxfam.

O relatório analisa o quanto o planeta ainda é capaz de emitir gases do efeito estufa para manter a meta do Acordo de Paris de conter o aquecimento global em 1,5 graus Celsius (°C) em comparação com o período pré-industrial.

Como base de dados, os pesquisadores partiram dos cálculos do Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas (IPCC), que estimava, em 1990, uma margem de 1.149 Gigatoneladas (Gt) de CO₂e para garantir 50% de chance de sucesso na contenção do aquecimento global.

No entanto, o relatório alerta que, desde 1990, o 0,1% mais rico da população mundial aumentou em 32% sua participação nas emissões globais de CO₂, enquanto a metade mais pobre viu sua parcela cair 3%.

“Nos últimos 24 anos, as emissões continuaram a aumentar, e 89% desse orçamento de carbono restante já foi consumido”, informa o relatório.

Segundo a diretora-executiva da Oxfam Brasil, Viviana Santiago, os dados revelados pelo estudo reforçam a ideia de que quem mais causa os efeitos das mudanças climáticas deve fazer frente ao problema.

“Quando a gente fala que o princípio das responsabilidades comuns, porém diferenciadas é o que deve iluminar a atuação dos países na crise climática, isso também tem a ver com o nosso modo de vida enquanto conjunto da sociedade”, reforça.

A responsabilidade dos mais ricos sobre os impactos no clima global fica mais clara com um outro dado trazido pelos pesquisadores. Segundo eles, se toda a população mundial tivesse o mesmo comportamento de emissão de gases do efeito estufa que os mais ricos do mundo, o limite de emissões para evitar um colapso climático seria esgotado em menos de três semanas.

“Essas pessoas têm um próprio estilo de vida, e também a maneira como elas geram suas riquezas e consomem está completamente relacionada com a emissão de carbono. E é uma emissão completamente desproporcional, em relação ao resto do planeta”, explica Viviana.

Diante desses dados, os pesquisadores calcularam ainda qual seria a redução necessária nas emissões da população 0,1% mais rica para manter o aquecimento global abaixo de 1,5°C. De acordo com o relatório, os mais ricos precisam reduzir em 99% as emissões individuais até 2030.

Investimentos

Com o maior poder de consumo no mundo, essa pequena parcela da população global também emite gases do efeito estufa por meio de seus investimentos financeiros, já que 60% das aplicações são feitas em atividades econômicas de grande emissão, como petróleo, gás e mineração.

De acordo com o estudo, o bilionário médio produz 1,9 milhão de toneladas de CO₂e por ano, apenas por meio dos investimentos.

Influência

Além de manter o padrão de consumo capaz de impactar mais o clima do planeta, os investimentos dos mais ricos do mundo também financiam uma maior influência em ambientes decisivos como a própria Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP).

O relatório da Oxfam cita o exemplo da COP29, ocorrida em 2024, na cidade de Baku, no Azerbaijão. Na conferência, foram concedidas 1.773 pessoas ligadas aos setores de carvão, petróleo e gás ─ uma delegação capaz de superar a média participativa de todos os representantes dos 10 países mais vulneráveis ao clima.

“A gente percebe como esse poder e essa riqueza, de potenciais poluidores e que constroem a crise climática, também estão nesses espaços onde o mundo tenta construir acordos para pausar o aquecimento global”, reforça a diretora-executiva da Instituição.

Diante dos dados apresentados, o relatório traz ainda recomendações para a diminuição dos impactos climáticos causados pelas grandes riquezas. Entre as medidas estão a taxação e limitação da atuação de super-ricos em ambientes incidência política sobre decisões globais, melhor distribuição do orçamento climático e fortalecimento da participação da sociedade civil e de grupos tradicionais.

“A crise climática é uma crise de desigualdade. Os indivíduos mais ricos do planeta financiam e lucram com a destruição do clima, enquanto a maioria da população mundial paga o preço das consequências fatais do seu poder sem controle”, conclui Amitabh Behar, diretor-executivo da Oxfam Internacional.

Fonte: Agência Brasil


sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Calor já mata meio milhão de pessoas por ano, alertam cientistas

 
Pesquisadores apontam que mudanças climáticas ameaçam vidas

Cerca de 546 mil pessoas morrem por ano em todo mundo por causa do calor, e, apenas em 2024, outras 154 mil mortes foram provocadas pela fumaça dos incêndios florestais. Esses são alguns dos alertas do relatório Contagem regressiva em saúde e mudanças climáticas, elaborado por mais de cem cientistas de diversos países para a revista The Lancet, em parceria com a Organização Mundial da Saúde.

Publicado nesta quinta-feira, na Inglaterra, o documento pretende se antecipar à 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30), que começa no dia 10 de novembro, em Belém, no Pará. O relatório apela por uma redução consistente do uso de combustíveis fósseis e das emissões de gases do efeito estufa e também por adaptações que minimizem seus efeitos para a população.

"Com os impactos das mudanças climáticas aumentando, a saúde e a vida dos 8 bilhões de habitantes do mundo estão agora em risco", enfatizam os cientistas.

O texto lembra que 2024 foi o ano mais quente da história, o que fez com que 12 dos 20 indicadores que monitoram os riscos à saúde relacionados às mudanças climáticas atingissem níveis sem precedentes. Entre 2020 e 2024, as pessoas foram expostas a ondas de calor em 19 dias por ano, em média, e 16 deles não teriam ocorrido se não fosse pelo aquecimento global.

A revista também divulgou um compilado de dados do Brasil. No período de 2020 a 2024, ocorreram 7,7 mil mortes anuais associadas à fumaça dos incêndios florestais. Estima-se também outras 3,6 mil mortes por ano no país relacionadas ao calor, considerando o período de 2012 a 2021. Os pesquisadores também calcularam que a população brasileira foi exposta a 15,6 dias de onda de calor, em média, e 94% deles não teriam acontecido sem as mudanças climáticas.

Além disso, o relatório aponta que a proporção de terras que experimentaram pelo menos um mês de seca extrema por ano chegou a 72% no período de 2020 a 2024, quase dez vezes mais do que o observado nas décadas de 50 e 60.

Foi lançada ainda uma publicação sobre a América Latina, alertando que a temperatura média da região tem crescido de maneira constante desde os anos 2000, alcançando um recorde de 24,3 graus Celsius (°C) em 2024. Com isso, as mortes relacionadas ao calor chegam a 13 mil por ano.

Apesar disso, o relatório manifesta esperança nas negociações internacionais, ressalvando que "construir um futuro resiliente exige transformar fundamentalmente nossos sistemas de energia e reduzir nossa dependência de combustíveis fósseis".

A publicação ressalta também que a adaptação "não é mais opcional, mas sim uma necessidade essencial e inegociável", para que se possa "reduzir os riscos climáticos, aumentar a resiliência e enfrentar as desigualdades socioeconômicas existentes."

"À medida que se aproxima a COP30 em Belém, o Brasil desponta como um farol de esperança e transformação, com uma oportunidade única de liderar ações de adaptação e mitigação climática que priorizem a saúde, promovendo o desenvolvimento sustentável e o bem-estar para todos", afirma o documento.

Fonte: Agência Brasil

segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Boleto gigante cobra países ricos sobre dívida com o clima

 
Ação é parte de campanha da Aliança dos Povos pelo Clima

Para chamar a atenção sobre a dívida climática dos países mais ricos com os povos e territórios do Sul global, um boleto gigante foi instalado na manhã de ontem (26) em plena Avenida Paulista, em São Paulo. A ação é parte da campanha A Gente Cobra – Financiamento Climático Direto para Quem Cuida da Floresta, organizada pela Aliança dos Povos pelo Clima e que será lançada no próximo dia 28, terça-feira.

Além de São Paulo, a ação foi realizada em Brasília, no Recife, em Santarém e na região do Xingu e exibiu um boleto gigante, com até oito metros de largura, trazendo o valor simbólico de R$ 1,6 trilhão estampado.

Em entrevista neste domingo (26) à Agência Brasil, Jonaya de Castro, que integra o coletivo Unidos pelo Clima, destacou que esse boleto “já está vencido”, trazendo como data de vencimento o dia 21 de abril de 1500, data em que o país teria “sido descoberto”.

“O boletão é esse boleto vencido, porque o Sul Global precisa de financiamento para conseguir fazer adaptação, fazer mitigação e manter a floresta de pé. E quem tem que ser financiado são os projetos dos indígenas e das comunidades tradicionais que protegem as florestas e os biomas”, disse ela. “Esse boleto vence em novembro, na COP30, porém ele já está vencido desde 1.500, quando ocorreu a invasão do Brasil, então tem um processo histórico aí para entender que a colonização financeira continua existindo”, completou.

A iniciativa antecede a realização da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (Conferência das Partes), que será realizada em Belém (PA), e cobra que os fundos internacionais de financiamento climático destinem 50% dos seus recursos diretamente para os povos e comunidades tradicionais.

“A gente já sabe o que tem que fazer, sabe o que pode evitar o colapso e fazer regredir a temperatura, mas isso vai depender de financiamento e de interesse político e internacional. Temos que conseguir direcionar os fundos de financiamento climático para quem exatamente está protegendo [esses biomas]”, disse Jonaya.

Além do direcionamento de recursos, o ato também pede que as comunidades e povos originários e tradicionais garantam sua participação nos conselhos deliberativos desses fundos. Outra reivindicação que aparece estampada no boleto gigante é a taxação das grandes fortunas, para que parte dessa verba seja destinada também para o financiamento climático.

Fonte: Agência Brasil

sábado, 25 de outubro de 2025

“Não existe Planeta B”, alerta astrofísico às vésperas da COP30

 
Ogando exclui a crença futurística de colonização de outros planetas

A menos de três semanas do início da COP30, em Belém (PA), lideranças mundiais engajadas em discutir as mudanças do clima afinam o discurso com cientistas que estão preocupados com o futuro da Terra e com a resistência das espécies do planeta, entre elas, a espécie humana.

Para o astrofísico Ricardo Ogando, do Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer (MCTI), a Terra é “a nossa única opção”. Ele está alinhado com o movimento global de astrônomos e voluntários Astronomers for Planet Earth (Astrônomos pelo Planeta Terra, em livre tradução), que defende soluções práticas em prol da regeneração do planeta.

Em entrevista exclusiva, Ogando reforçou a importância do planeta Terra e de investimentos em políticas públicas a favor do meio ambiente. Ele exclui, por uma série de fatores científicos, a crença futurística de habitarmos um “Planeta B”, em um futuro próximo ou remoto.

“São vários fatores que você tem que conjugar para chegar a um planeta que seja habitável. Mas, ainda tem a questão de conseguir chegar lá. Ou seja, nosso planeta é algo muito extraordinário mesmo”, explica Ogando.

Para Ogando, nem mesmo Marte, nosso planeta vizinho, e com missões programadas para as próximas décadas seria habitável. Além de questões de infraestrutura e de habitação, o astrofísico pondera a questão dos investimentos. “É muito mais barato ficar na Terra e cuidar dela. Essa é uma conta fácil de fazer”, diz.

Acompanhe trechos da entrevista para o podcast S.O.S! Terra Chamando!, uma parceria da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) e da Fundação Oswaldo Cruz e que estreia no dia 3 de novembro, na Rádio MEC.

Agência Brasil: Do ponto de vista da ciência e da astronomia estamos diante de um momento antagônico. De um lado, conquistas espaciais e astronômicas que apontam até para a possibilidade de encontrarmos vida em outros planetas e luas. Por outro lado, nosso planeta corre sérios riscos. Por que a humanidade precisa entender que a Terra é um planeta especial?

Ricardo Ogando: A Terra é especial porque é o único planeta em que há vida, segundo a conhecemos. Pelo menos, até o momento, é o que sabemos. Nesse momento específico, em que se fala muito em emergência climática, é possível fazer um paralelo com a saúde - e o planeta Terra está febril. Pode-se dizer que está num processo de inflamação. E para tratar é preciso realmente parar com a fonte desse problema, para que a humanidade e outras espécies continuem vivendo aqui. Não há outra alternativa. Temos várias razões para o planeta estar nessa situação de emergência climática, passando por aquecimento global, aumento da temperatura média do planeta, ao longo dos anos, especialmente após o início da atividade industrial. A humanidade precisa entender que será afetada, principalmente as comunidades mais vulneráveis, que serão os primeiros a serem impactados. Vimos recentemente episódios extremos de chuvas no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro, em Duque de Caxias. Esse é um fenômeno que vai cada vez mais afetar vários aspectos da vida, da sociedade humana, e a gente precisa olhar para isso com cuidado, porque o prejuízo vai ser dividido entre todos nós.

Agência Brasil: O senhor faz parte do grupo de cerca de 2,3 mil astrônomos e voluntários que integram o Astronomers for Planet Earth (Astrônomos pelo Planeta Terra, em livre tradução), que defende pragmatismo e urgência para lidarmos com a situação do planeta. Como frear a degradação da Terra, na sua avaliação?

Ricardo Ogando: Essa é uma pergunta muito interessante. De um lado temos a importância das atitudes individuais. Sem dúvida são muito importantes para os cidadãos se engajarem, entenderem o lugar onde estão para que tomem atitudes ambientalmente conscientes. Mas, a gente precisa também de medidas públicas, de políticas efetivas que tocam nesse assunto. Vamos pegar, por exemplo, o consumo de canudos de plástico, objetos maléficos à fauna marinha. Esse já foi um assunto bastante polêmico. Até é possível oferecer outras opções em restaurantes, bares, lanchonetes e quiosques, mas se ainda há fornecedores fabricando canudos, o problema continua acontecendo. Então, você tem que atacar o problema na raiz com políticas públicas, com regulação.

Agência Brasil: O astrofísico Marcelo Gleiser em seu último livro “O Despertar do Universo Consciente” cita a Terra como um oásis no Universo, onde a vida evoluiu de forma complexa. Então, lhe pergunto se há esperança de encontrarmos uma outra Terra, um planeta B?

Ricardo Ogando: Primeiro, concordo com esse olhar do Marcelo Gleiser de falar que a Terra é, sim, um oásis para a vida complexa. E sobre essa visão futurista de “Planeta B” ou planeta alternativo à Terra, obviamente que a ciência almeja descobertas astronômicas que cheguem a esse grau de surpresa. Mas, por outro lado, está muito longe ainda. Não existe nada palpável. Essa grande pergunta - “estamos sozinhos no Universo?” - é irmã de outra pergunta “existem outros lugares onde a gente poderia expandir o alcance da humanidade?”. E ainda estamos muito longe de respondê-las.

Agência Brasil: Quais seriam os principais desafios para respondermos a essas perguntas?

Ricardo Ogando: Eles passam por vários aspectos científicos, uma vez, por exemplo, que a Terra orbita uma estrela do tipo solar. Então, os grandes esforços para responder a essa pergunta passam no início por procurar estrelas do tipo solar, a chamada GMS Solares, que são estrelas muito, muito parecidas com o Sol, em que você espera conseguir reproduzir as condições para a vida. Agora, essa é só uma parte da história. Você também precisa encontrar um sistema parecido com o nosso Sistema Solar, com o planeta rochoso, a uma distância do Sol ou da estrela, em que permita ter água líquida. Mais uma vez, do nosso ponto de vista, da humanidade, o que permite você ter a formação da vida é a água. Agora, não basta ter só água líquida. São vários fatores que você tem que conjugar para chegar a um planeta que seja habitável. Mas, ainda tem a questão de conseguir chegar até um possível planeta habitável. Esse já é outro problema de logística! Ou seja, nosso planeta é algo muito extraordinário mesmo. Não existe esse plano B ou Planeta B. O planeta Terra é o videogame da vida no modo fácil, e sem direito a continuar. Você não tem mais “fichas no fliperama”. Então, a gente está aqui no modo fácil, e esse modo fácil ainda tem um monte de desafios, como se observa na história da geologia do planeta Terra. Se a gente ainda adicionar mais uma camada de dificuldade, que é emergência climática, a gente no fundo está complicando a nossa situação.

Agência Brasil: E sobre as missões para a exploração de Marte, especialmente da Agência Espacial Norte-Americana (NASA)? Qual é a viabilidade do planeta vermelho ser uma nova casa para a humanidade?

Ricardo Ogando: Marte é um planeta bem menor do que a Terra. E não tem uma atmosfera como a Terra tem. A atmosfera dele é muito, muito tênue. Mas, quando se olha também para a geologia dele, para as formações rochosas, a gente vê que houve um passado ali muito rico, potencialmente com rios caudalosos, lagos e tudo mais. Muito potencialmente, por conta dessa baixa massa do planeta Marte, esse material atmosférico, além da água, desapareceu. A gravidade do planeta é importante para manter esse material coeso, preso ao planeta. Então, Marte, se por um lado tem temperaturas mais parecidas com a Terra, se você estiver olhando para a Sibéria, que vai -70º Celsius até a 40º no verão, teria temperaturas que estão nessa faixa. Mas, na média, não é um ambiente propício. Você conseguir manter a vida em um planeta sem ter uma atmosfera e sem água líquida facilmente acessível é altamente improvável. E do ponto de vista da sustentabilidade também, da viabilidade financeira, não seria muito mais interessante.

Agência Brasil: Por falar em recursos financeiros, essas pesquisas e missões para Marte envolvem bilhões de dólares. Há inclusive questionamentos sobre a efetividade de investimentos altos neste tipo de ciência e não em tentar regenerar a Terra, por exemplo. Qual é a sua opinião sobre isso?

Ricardo Ogando: É claro que a gente sempre pode atacar vários problemas em paralelo, se a gente tem os recursos para tal. Uma questão é quando se usa a justificativa de que a Terra já não pode mais ser salva e deve-se procurar outro planeta. Essa justificativa já começa errada. Se estamos acabando aqui, vamos acabar em outro planeta também. No caso de Marte, por exemplo, seria um estilo de vida totalmente artificial para respiração, alimentação e sobrevivência. E tudo que é artificial, custa mais. A humanidade precisaria de energia, de infraestrutura, de um monte de recursos para manter a vida lá. Então, é muito mais barato ficar na Terra e cuidar dela. Essa é uma conta fácil de fazer. O que não impede que a gente continue pesquisando planetas do Sistema Solar, entendendo como eles funcionam até porque isso nos ajuda a entender como o nosso próprio planeta funciona. Ao entender o efeito estufa em Vênus, a gente entendeu o efeito estufa aqui no planeta Terra, por exemplo. Ao entender o que aconteceu em termos geológicos em Marte, a gente pode tentar entender o que aconteceu no planeta Terra e tentar até se preparar para o futuro. Se preparar para o futuro como, fugindo da Terra? Não! Aproveitando que a Terra nos dá condições ideais de sobrevivência e utilizar dessa vantagem competitiva da melhor forma possível. Ao invés de desperdiçá-la.

Agência Brasil: E a às vésperas da estreia do podcast, S.O.S! Terra Chamando!, que fala sobre a saúde da Terra, pergunto por que o nosso planeta pede socorro?

Ricardo Ogando: A Terra está gritando muito. A Terra está pedindo muito socorro. E quem tem o poder de resolver isso precisa escutar. A gente está vivendo uma emergência climática que tem razões baseadas no nosso estilo de vida, de consumo e que arranca do planeta mais do que ele pode dar. A gente precisa refletir muito bem sobre essas coisas, como a gente falou da política pública. A gente precisa regular certas atividades, não quer dizer proibir, não quer dizer censurar, quer dizer regular. Para que não seja uma destruição desmedida do planeta é preciso cuidar dele agora.

Fonte: Agência Brasil