quinta-feira, 22 de maio de 2025

Saiba o que muda com a nova política de ensino a distância do Brasil

 








Decreto determinou cursos que serão exclusivamente presenciais

O Ministério da Educação (MEC) revisou as regras para a oferta de educação a distância (EaD) nos cursos do ensino superior com o objetivo de garantir a qualidade dos serviços e o desenvolvimento da aprendizagem de todos os estudantes.

O governo federal, após meses de discussão com os setores envolvidos – como gestores da área educacional, especialistas, conselhos federais e representantes das instituições de educação superior – publicou nesta semana o decreto que trata do tema.

A Agência Brasil explica o que muda com a nova política de EaD.

Formatos dos cursos

A partir do novo marco regulatório da educação a distância, nenhum curso de bacharelado, licenciatura e tecnologia poderá ser 100% a distância.

Os cursos de graduação podem ser oferecidos em três formatos:Cursos presenciais: com pelo menos 70% da carga horária em atividades presenciais, com a presença física de estudantes e professor nas aulas; atividades em laboratórios físicos; frequência a estágios presenciais;
Cursos em EaD: oferta majoritária de carga horária a distância, composta por aulas gravadas e atividades em plataformas digitais de ensino. Porém, o decreto impõe o limite mínimo de 10% da carga horária do curso em atividades presenciais; e, no mínimo, 10% em atividades síncronas mediadas.
Cursos semipresenciais: criado pelo novo decreto, é composto obrigatoriamente por carga horária de 30% de atividades presenciais; e, no mínimo, 20% em atividades síncronas mediadas;atividades presenciais físicas (estágio, extensão, práticas laboratoriais);
atividades síncronas mediadas: devem ser realizadas com, no máximo, 70 estudantes por docente ou mediador pedagógico e controle de frequência dos estudantes;

Tipos de atividades

A nova política uniformiza as seguintes definições:

Atividades presenciais: realizada com a participação física do estudante e do docente em lugar e tempo coincidentes;

Atividades assíncronas: atividade de EaD na qual o estudante e o docente estejam em lugares e tempos diversos;

Atividades síncronas: atividade de EaD na qual o estudante e o docente estejam em lugares diversos e tempo coincidente;

Atividades síncronas mediadas: atividades interativas, com grupo reduzido de estudantes, apoio pedagógico e controle de frequência. Neste tipo de atividade, os estudantes e o docente estão em lugares diversos e tempo coincidente (ao vivo). O objetivo é garantir a efetiva interação no processo de ensino-aprendizagem.

Proibições em EaD

De acordo com o decreto, os cursos superiores de medicina, direito, odontologia, enfermagem e psicologia só poderão ser ofertados no formato presencial. O MEC justifica que a necessidade de realização de atividades práticas, laboratórios presenciais e estágios torna a formação nesses casos “incompatível com o formato da educação a distância”.

Pela portaria 378, o curso de medicina terá de ser integralmente ofertado por meio de atividades presenciais, vedada qualquer carga horária a distância.

O mesmo documento detalha que os outros quatro cursos de graduação (direito, odontologia, enfermagem e psicologia) poderão ter, no máximo, 30% da carga-horária em atividades a distância.

Cursos semipresenciais

Para o formato semipresencial, também chamado híbrido, o MEC estipulou na portaria 378 que cursos de licenciaturas, que formam professores, e de áreas como as de saúde e bem-estar também não poderão ser ofertados 100% no remoto. Estes cursos deverão ser somente em dois formatos: presencial ou semipresencial.

Os cursos classificados nesta nova portaria que regulamenta o decreto são das seguintes áreas: educação, ciências naturais, matemática e estatística; saúde e bem-estar; engenharia, produção e construção; e agricultura, silvicultura, pesca e veterinária.

São exemplos de cursos nesta situação: fisioterapia, farmácia, educação física, medicina veterinária, biomedicina, fonoaudiologia e nutrição.

Posteriormente, a pasta poderá definir outras áreas de cursos vedados para EaD.

Infraestrutura física

Em relação ao local, as atividades presenciais dos cursos de ensino superior das modalidades semipresencial e à distância podem ser ofertadas tanto na sede física da instituição, como em seus campi (fora de sede e de seus polos EaD).

O polo EaD deve funcionar como um espaço acadêmico para o efetivo apoio ao estudante. Por este motivo, a infraestrutura física e tecnológica deve ser adequada às especificidades de cada curso ofertado.

Há também a exigência de infraestrutura mínima como: sala de coordenação; ambientes para estudos; laboratórios (quando aplicável); acesso à internet.

Além disso, não será permitido o compartilhamento de polos EaD entre instituições de ensino superior diferentes.

Prazo de adaptação

As instituições de educação superior terão prazo de até dois anos para adequar gradualmente os cursos às novas regras.

Nesta transição, devem ser garantidos os direitos dos estudantes. É responsabilidade da instituição de educação superior assegurar a continuidade da oferta do curso no formato EaD até a conclusão das turmas em andamento.

Estudantes do EaD

A partir da nova norma, todos os estudantes matriculados em cursos que não poderão mais ser ofertados 100% online terão assegurado seu direito de conclusão do curso no formato EaD, desde que seja o formato escolhido no ato de matrícula.
Provas presenciais

Cada disciplina dos cursos de graduação a distância deverá ter, pelo menos, uma avaliação presencial. No momento da avaliação, a instituição de ensino deve verificar a identidade dos estudantes para evitar fraudes.

Esta avaliação presencial deve ser a maior na composição da nota final do estudante para atestar se o aluno foi aprovado ou não naquela disciplina.

Segundo o MEC, o objetivo da exigência é incentivar o desenvolvimento de habilidades discursivas de análise e síntese ou que possuam natureza de atividade prática.

Mediador pedagógico

A nova política de EaD cria a figura do mediador pedagógico nos cursos de graduação a distância. O MEC esclarece que o mediador pedagógico não é um tutor, que desempenha função apenas administrativa e, por isso, não pode exercer funções pedagógicas.

Já o mediador pedagógico deve possuir formação acadêmica compatível com o curso. No exercício de suas atividades deverá ajudar a esclarecer dúvidas de aprendizagem dos estudantes e apoiar o processo de formação deles.

A quantidade de professores e mediadores deve ser compatível com o número de estudantes sob mediação deste profissional.

Os mediadores pedagógicos devem estar vinculados à instituição de educação superior e devem ser informados anualmente ao MEC e ao Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), por meio do Censo da Educação Superior.

Mais dúvidas podem ser tiradas no site do MEC.

Fonte: Agência Brasil

quarta-feira, 21 de maio de 2025

Trópicos registram perda recorde de floresta primária

 











Levantamento mostra destruição de 18 campos de futebol por minuto

Em 2024, países dos trópicos, como o Brasil e a Bolívia, perderam 6,7 milhões de hectares de floresta primária. A área, que corresponde à do Panamá inteiro, é a maior já registrada pelo Laboratório de Análise e Descoberta de Terras Globais (Glad Lab), da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos.

Os dados, que podem ser vistos na plataforma Global Forest Watch (GFW), do World Resources Institute (WRI), confirmam a destruição de 18 campos de futebol por minuto. Os incêndios florestais são o principal fator para a perda vegetal - algo que os especialistas destacam, a fim de diferenciar de desmatamento, já que esse pressupõe ação humana e nem sempre é o contexto de todas as situações monitoradas. Eles acrescentam que, ainda que os incêndios sejam um fenômeno natural em certos ecossistemas, em florestas tropicais são quase sempre provocados pelo ser humano.

Os incêndios queimaram cinco vezes mais floresta tropical primária em 2024 do que em 2023. Um grupo de apenas dez países responderam por 87% da perda registrada no ano passado, estando no topo da lista o Brasil, onde 42% da perda nos trópicos ficaram concentrados. Também compõem a relação a Bolívia, que subiu para a segunda posição nesse último ano de análise, a República Democrática do Congo, Indonésia, o Peru, Laos, a Colômbia, Camarões, a Nicarágua e o México.

Em todo o mundo, houve também um recorde de perda de cobertura arbórea, ou seja, o agravamento do quadro não ficou limitado às florestas tropicais primárias. O monitoramento indicou aumento de 5% na perda total, na comparação com 2023, o que elevou a soma da área devastada para 30 milhões de hectares e fez com que, pela primeira vez, os pesquisadores constatassem grandes incêndios consumindo vegetação tanto nos trópicos quanto em florestas boreais.

O acadêmico e codiretor do Glad Lab, Peter Potapov, explicou que foram identificadas perdas significativas, inclusive em locais remotos, como o Alasca, em pontos do Canadá e também na Sibéria. Para Potapov, há preocupação com o fato de atingir florestas em pontos mais recuados porque "nos cenários intactos não há atividade industrial".

Brasil

Quanto ao caso específico do Brasil, Potapov apontou os fatores que contribuem para o avanço na devastação de florestas intactas.

"A agricultura industrial, a mineração e a exploração madeireira são os principais responsáveis por sua perda", afirmou, em resposta ao questionamento da Agência Brasil.

O resultado da generalização é atribuído também ao volume de gases de efeito estufa produzido pelos incêndios. Foram expelidas 4,1 Gt, quantidade quatro vezes maior do que em 2023.

"Isso tem que ser um chamado para todos os países, os negócios, porque, se continuar nesse caminho, vamos devastar tudo, não vamos frear a mudança climática e teremos grandes impactos", recomendou a codiretora da GFW.

Segundo o catedrático Matt Hansen, também codiretor do Glad Lab, o documento com as informações consolidadas completa uma década com indicativos críticos. "Estamos vendo esse relatório como más notícias", resumiu.

Biomas brasileiros

No relatório, constam mais detalhes sobre o período atravessado pelo Brasil, país com o maior número de florestas primárias tropicais do mundo. De acordo com a equipe do Glab Lab, as taxas de perda não relacionada a incêndios também subiram 13% em 2024, mas permaneceram abaixo dos picos do início dos anos 2000 e também dos alcançados durante o governo anterior.

No documento, os pesquisadores atribuem, principalmente, ao desmatamento de florestas para monocultivo de soja e para a pecuária a responsabilidade pela perda de floresta primária. Eles reconhecem que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem buscado garantir a preservação dos biomas por meio de políticas socioambientais, com a revogação de leis, a demarcação de terras indígenas e ações que visam ao cumprimento da legislação em vigor, mas que essa evolução ainda está ameaçada pela expansão agropecuária.

A Amazônia teve a maior perda de vegetação desde o recorde em 2016, saltando 110% de 2023 a 2024, sendo os incêndios o elemento central no ano passado. O Pantanal, por sua vez, foi o bioma que apresentou o maior percentual de perda de cobertura arbórea.

Fonte: Agência Brasil

terça-feira, 20 de maio de 2025

Governo do Rio Grande do Sul tem controle rigoroso e segue protocolos internacionais contra gripe aviária

 

Diretora Rosane Collares e Ananda Kowalski, coordenadora do Programa de Sanidade Avícola da Seapi - Foto: Divulgação Seapi










Secretaria da Agricultura detalha ações sanitárias, de contenção, uso de tecnologia e protocolos ambientais adotados pelo RS

Nesta semana, Montenegro segue no foco das ações do governo do Estado, por meio da Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi), para conter o foco de influenza aviária de alta patogenicidade (H5N1). A diretora do Departamento de Vigilância e Defesa Sanitária Animal (DDA/Seapi), Rosane Collares, esclarece nesta entrevista as medidas adotadas no município, que seguem protocolos nacionais e diretrizes da Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA). Veja os principais pontos no formato de pergunta e resposta.

Quais são as ações previstas para Montenegro nesta semana?

As ações seguem o Programa Nacional de Controle de Influenza Aviária e Doença de Newcastle, alinhadas às diretrizes da OMSA. Estamos atuando em duas frentes principais. A primeira são as barreiras sanitárias, com desinfecção de veículos que transportam material orgânico, como animais, ração, ovos, leite e camas de aviário — veículos que entram e saem de várias propriedades rurais. Isso reduz o risco de circulação do vírus. A segunda frente é a vigilância nas propriedades dentro do raio de três a sete quilômetros do foco. Nessas visitas, os médicos veterinários fazem a inspeção clínica dos animais e, na ausência de sinais clínicos, preenchem um formulário com dados de interesse e realizam a vistoria do local.

Essas ações fazem parte de protocolos nacionais e internacionais?

Sim. Tudo está bem detalhado no Plano Nacional de Controle e Erradicação da Influenza Aviária de Alta Patogenicidade (H5N1) e da Doença de Newcastle. As diretrizes seguem recomendações da OMSA.

Como a Plataforma de Defesa Sanitária Animal (PDSA-RS) ajuda no monitoramento das ações?

A PDSA é uma ferramenta de geolocalização com um módulo específico para atuação em focos. Ela agiliza a organização das equipes, permitindo dividir as propriedades em setores de atuação. Atualmente, temos dois fiscais médicos-veterinários em campo usando essa tecnologia: eles recebem seu roteiro, fazem as visitas e inserem as informações no sistema, permitindo à equipe de gestão acompanhar tudo em tempo real. Assim, podemos tomar decisões rápidas, como reforçar o número de profissionais em uma área, se necessário.

O Rio Grande do Sul trabalha com o conceito de tolerância zero para casos de Influenza. O que isso significa e quantas amostras já foram coletadas?

Desde 2022, com a chegada da Influenza Aviária na América do Sul, adotamos o conceito de tolerância zero. Isso significa que qualquer alteração comportamental ou sintoma respiratório ou neurológico em aves gera a coleta imediata de amostras. Desde então, o RS é o segundo estado com maior número de coletas, com 147 amostras enviadas para diagnóstico laboratorial.

Como funciona o processo de detecção do vírus e em quanto tempo sai o resultado?

As amostras são enviadas ao laboratório de referência do Ministério da Agricultura, localizado em Campinas (SP), por meio de um convênio com a Fundesa. Em casos negativos, o resultado sai entre 24 e 48 horas. Se houver suspeita, outras análises são feitas até a confirmação final.

Como é feito o descarte dos animais em caso de foco? Esse procedimento também segue normas ambientais?

Sim. As valas sanitárias são abertas com avaliação de órgãos ambientais para evitar contaminação do solo e da água. O método de descarte varia conforme o porte do animal e pode envolver quebra cervical ou uso de CO₂, sempre priorizando segurança ambiental e bem-estar animal.

Qual a orientação para a população quanto ao consumo de ovos e carnes?

Não existe risco zero, mas o risco é considerado insignificante, já que a cultura alimentar brasileira envolve o consumo desses alimentos cozidos. A recomendação é consumir sempre produtos de procedência conhecida, com inspeção federal, estadual ou municipal.

Quanto tempo leva para que o Estado retome a condição sanitária anterior e volte a exportar normalmente?

Se todas as etapas dos protocolos forem cumpridas, o prazo mínimo é de 28 dias — dois ciclos de incubação do vírus, que é de 14 dias. Já a retomada das exportações depende dos acordos comerciais com cada país, e geralmente é tratada caso a caso.

Fonte:Texto: Ascom Seapi
Edição: Secom

segunda-feira, 19 de maio de 2025

Internações por inflamações intestinais cresceram 61% em dez anos










Sociedade de Coloproctologia faz campanha para alertar sobre doenças

As doenças inflamatórias intestinais são enfermidades que afetam o trato gastrointestinal e que resultaram, nos últimos dez anos, em 170 mil internações no Sistema Único de Saúde (SUS).

Os dados são de um levantamento da Sociedade Brasileira de Coloproctologia (SBCP), com base no Sistema de Informações Hospitalares do SUS, do Ministério da Saúde.

Esses dados mostram ainda um crescimento de 61% nas internações em 2024 (23.825), na comparação com 2015 (14.782).

As principais formas de doenças inflamatórias intestinais são a doença de Crohn e a retocolite ulcerativa. São condições crônicas para as quais ainda não há uma cura definitiva, segundo a SBCP.

“O número de internações aumentou exponencialmente nos últimos anos não só pela severidade dos casos, mas também pelo aumento da incidência, isto é, aparecimento de novos pacientes sem tratamento”, destaca a diretora de comunicação da SBCP, a coloproctologista Ana Sarah Portilho.

Ana ressalta que há um número maior de casos em capitais e em regiões com maior industrialização e urbanização.

As doenças inflamatórias intestinais, também conhecidas como DIIs, são o alvo de uma campanha de conscientização realizada pela SBCP neste mês, apelidado de Maio Roxo. O dia 19 de maio, aliás, é o Dia Mundial das Doenças Inflamatórias Intestinais.

De acordo com a SBCP, é importante ter um diagnóstico correto e iniciar um tratamento o mais cedo possível.


“Nosso objetivo é alertar para a importância do diagnóstico precoce e em seguida do tratamento adequado, a fim de proporcionar melhor qualidade de vida ao paciente e até mesmo remissão dos sintomas”, afirma o presidente da SBCP, Sergio Alonso Araújo.

Doenças

Segundo a coloproctologista Mariane Savio, as DIIs “podem acometer pessoas de todas as idades, mas são muito comuns em adultos jovens, que estão em uma fase produtiva da vida. Então, são doenças que, se não forem tratadas adequadamente e controladas, podem tirar a qualidade de vida do paciente, causar faltas ao trabalho e prejudicar muito esses pacientes e a família deles. São doenças que exigem um diagnóstico e um acompanhamento médico contínuos.”

Entre os principais sintomas das DIIs estão diarreia crônica (podendo haver sangue, muco ou pus), dor abdominal, urgência de evacuar, falta de apetite, cansaço e perda de peso.

Em casos mais graves, as doenças podem provocar anemia, febre e distensão abdominal, além de afetar outras partes do corpo, como as articulações (artrite), a pele (dermatite e piodermas) e oftalmológicas (uveítes).

A retocolite atinge a mucosa do intestino grosso. Já a doença de Crohn pode atingir todo o trato gastrointestinal, ou seja, da boca até o ânus, mas é mais comum no intestino, onde afeta todas as camadas desse órgão: os revestimentos interno (mucosa) e externo (serosa), além dos tecidos internos (submucosa e músculo).

Os mecanismos que levam ao surgimento dessas doenças ainda não foram esclarecidos, mas sabe-se que elas são resultado de uma conjunção de fatores genéticos, ambientais e imunológicos.

O fumo, por exemplo, é um fator que agrava essas enfermidades.

O diagnóstico é feito através da análise do histórico clínico da pessoa e de exames como endoscopia, colonoscopia, tomografia e ressonância magnética.


“O tratamento precoce da doença, ou seja, nos primeiros dois anos de sintomas, reduz muito o risco de o paciente vir a precisar de cirurgias, por exemplo, e melhora a resposta dele aos tratamentos. Os estudos mostram que os tratamentos, quando são instituídos mais precocemente, têm uma resposta muito melhor do que quando tardiamente”, afirma Mariane.

Como ainda não há cura para essas condições, o tratamento envolve controlar os sintomas para melhorar a qualidade de vida dos pacientes, através de medidas como adotar uma alimentação saudável, parar de fumar e praticar exercícios físicos.

Medicamentos como aminossalicilatos, imunossupressores e imunobiológicos podem ser usados, dependendo do caso.

Mariane destaca que, nos últimos, anos houve muitos avanços no tratamento dessas doenças e que a aprovação de novas terapias amplia as opções para os pacientes. A campanha da SBCP envolverá publicações e vídeos em suas redes sociais [LINK: https://www.instagram.com/portaldacoloproctologia], que esclarecem sobre as principais dúvidas relacionadas às DIIs.

Fonte: Agência Brasil

domingo, 18 de maio de 2025

EUGÊNIO ALVES MARTINS














É no auge de seus 90 anos, , que Eugênio Alves Martins, morador de General Câmara, em meio a suas medalhas e seus quadros de homenagens emoldurados na sala de casa, volta no tempo e recorda de quando serviu ao Exército no Rio de Janeiro e São Paulo. Relembra os dias difíceis em que lutou na Força Expedicionária Brasileira (FEB), defendendo o país na Segunda Guerra Mundial, e fala dos bons tempos em que trabalhou com o então presidente João Goulart. Natural de Jaguari, no oeste do Estado, quando menino, Eugênio foi morar em Bossoroca, local em que seu pai tinha herdado algumas terras.

- Eu trabalhava com agricultura, plantei muito arroz em sociedade com um amigo meu. Plantei na fazenda dele. Por lá nos desentendemos e acabamos brigando. A briga acabou na justiça e resultou em uma indenização. Parte foi pago em gado e a outra, em dinheiro. Meu pai me aconselhou a não gastar o dinheiro, mas eu não dei ouvidos e fui embora. Fui para Santiago com o meu avô. Parei na casa de um primo, que era sargento, o Calistrado. Disse para ele que queria servir e ele prontamente me levou ao quartel. Fui apresentado ao coronel e já fiquei por lá mesmo. Servi quase três anos no Exército, lá em Santiago do Boqueirão. Eu tinha 16 anos – conta ele.
Após dois anos, Eugênio alçou voos mais altos. Foi como voluntário para o Rio de Janeiro, para o Esquadrão Metralhadora.
- Tempos depois, fui servir no Batalhão de Gala do Rio e fiz alguns cursos. Também trabalhei no QG do Getúlio Vargas, da Força Expedicionária Brasileira. Nesse tempo, fiquei quase três anos no Rio. Depois, fui transferido para São Paulo – completa.

Os tempos de Guerra

Ciente que poderia ir para a Guerra, Eugênio não se amedrontou diante da convocação. A Segunda Guerra Mundial foi um conflito militar global que durou de 1939 a 1945, e envolveu a maioria das nações do planeta. O número de mortes superou os 50 milhões, havendo ainda 28 milhões de mutilados.
A viagem para Itália, feita de navio em 1942, durou 12 dias e 12 noites.
- Éramos quatro mil soldados e fomos todos em um navio. Eu peguei coisas boas no trajeto. Eu era especialista da Companhia de Guarda, ficamos separados do resto do grupo. Ganhamos cama para dormir no convés. Os outros soldados ficaram em lonas. Mas passamos muito trabalho. Quando terminava o almoço, já entrava na fila da janta, de tanta gente que tinha – lembra.

No Pelotão de Reconhecimento

Na Itália, Eugênio fazia parte do Pelotão de Reconhecimento.
- O grupo reconhecia a posição para as tropas poderem avançar. Se fôssemos atacados, seríamos sempre os primeiros. Nosso distintivo era uma cobra fumando. Quando a coisa ficava feia, diziam “A cobra está fumando” – afirma, aos risos.

Tudo pela vida do amigo

Durante uma operação de alto risco, Eugênio não mediu esforços para salvar a vida de um amigo de infância e companheiro na guerra.
- Em uma diligência, nos deparamos com duas patrulhas inimigas. Junto comigo, tinha esse meu amigo; nos criamos em Bossoroca, era filho de um fazendeiro. Ele ficou atrás de mim, em uma trincheira. Eu me desloquei e pedi para ele ficar na trincheira onde eu estava. Quando se mexeu, veio uma bomba e o impacto levantou seu corpo. Ele foi atingido por tiros de metralhadora. Começou a gritar e a chorar. Peguei ele e o carreguei nas minhas costas. Caminhei uns 300 metros, em uma montanha, até encontrar ajuda. Ele foi levado para os Estado Unidos, ficou dois anos lá. Voltou com perna mecânica e com outras próteses no corpo. Eu o visitei depois disso. Ficou muito agradecido por eu ter ajudado ele durante a guerra. Até presente a família dele me mandou – diz.

“Em uma guerra, soldado não tem medo”



Depois que deixou o amigo a salvo, Eugênio voltou para o combate e acabou matando um tenente alemão.
- Quando voltei, prendemos uns 50 soldados. E tinha um tenente alemão, que não queria levantar as mãos. Eu gritava para ele: levanta as mãos, levanta as mãos! Ele estava armado. E quando fez um gesto, achei que fosse pegar a arma e acabei atirando nele. Matei-o. Caminhamos 100 metros e voltei. Lembrei que o alemão tinha um anel muito bonito no dedo. Pensei: vou lá ver aquele anel. Ele estava trancado no dedo, mas o tirei.
Era de ouro com brilhante. Anos depois, empenhei o anel em General Câmara – recorda.
Eugênio tinha o sobrenome da avó como seu nome de guerra. O Machado, como todos o conheciam, não passou ileso em um dos combates mais sangrentos da história.
- Fui atingido por uma granada, em 30 de março de 1945. Atirei-me em um valo e não consegui proteger as pernas. Tive muitas queimaduras. Fiquei quatro dias no hospital de campanha. Mas eu não tinha medo. Em uma guerra, soldado não tem medo. Quando a gente saia para o front, nos davam um chiclete amarelo americano, e tu ficava com uma coragem medonha. Nem fome a gente tinha. Fiquei na Itália uns três anos. Participei de quatro batalhas. Saíamos camuflados do mato, tínhamos estratégia de guerra. A turma de reconhecimento vai junto com a infantaria para fazer um croqui da tropa inimiga para entregar ao comandante. Só faz a defesa - destaca.
O casamento durante a guerra
Em meio ao caos, Eugênio casou-se com uma italiana, em Pisa, na Itália.
- Foi em 1944. Ela era professora. Eu tinha que carregar ela disfarçada de homem, pois não podia fazer transporte de mulher. Ela veio embora comigo para Porto Alegre depois da guerra. Eu mandei buscar minha sogra e meu cunhado. Eles moravam comigo, no Partenon. Mas tive muito atrito com minha sogra. Tivemos dois filhos, um homem e uma mulher, mas a menina morreu. O casamento não durou muito, nos separamos aqui no Brasil – lembra.
“Saía para o front e não sabia se voltava”
As lembranças da guerra ainda comovem Eugênio. Assume que em certos momentos tem vontade de chorar ao lembrar-se de alguns episódios, mas não se arrepende de ter representado seu país em um momento difícil da história mundial.
- Uma guerra não é brincadeira. Não é fácil ir para um lugar onde a gente não conhecia nada. Andávamos com água pelo pescoço durante a noite. Vi muita gente morrendo do meu lado. Vi até um soldado caminhando sem cabeça. Ele levou muitos tiros e seguiu caminhado por alguns segundos. As pessoas mortas pareciam um gado abatido. Eu ficava muito abalado. Saia para o front e não sabia se voltava. Mas eu estava preparado para isso. Fui como voluntário. O medo lá era constante. Estive de norte a sul da Itália.
– pontua.
Eugênio ficou na Europa até o final da guerra. Tinha planos de ficar no Pelotão de Sepultamento, no cemitério dos Pracinhas, na Itália.
- Decidi voltar para o Brasil com minha esposa. Levei 30 noites para voltar, de navio.

No Brasil

De volta ao Brasil e com as queimaduras da guerra estampadas em suas pernas, Eugênio trabalhou com o presidente João Goulart, que governou o país de 1961 a 1964.
- Eu trabalhei sete anos como milico do Jango. Fazia a sua guarda. Ele era como um irmão pra mim. Eu me dava com a família dele, que morava em São Borja. Quem me levou para trabalhar com ele foi um primo do João, que me falou: “o João Goulart precisa de dois sargentos para trabalhar para ele. Eu me lembrei de vocês”. Fiquei também seis meses em Fernando de Noronha. Quando vim embora, trabalhei com o João. Foi um tempo bom. Nunca me faltou nada. Sempre estávamos de prontidão para defendê-lo. Ele ia seguido para a fazenda em São Borja – afirma.
Em Porto Alegre
Com a vinda para Porto Alegre, Eugênio não demorou muito para chegar a General Câmara.
-Eu vim para cá com o coronel que era meu amigo na Itália. Era meu comandante lá. Veio comandar o 3º Exército aqui. Com a o Movimento pela Legalidade, liderado pelo Brizola, esse coronel botou o Exército a favor do Brizola. Nesse tempo, o comandante do regimento me deu um ofício e disse que tinha arrumado uma vaga para mim, aqui no Arsenal, em General Câmara. Apresentei-me e fiquei por aqui. Fiquei um tempo em um hotel e depois me deram uma casa – fala.
Em General Câmara, Eugênio conheceu a atual esposa, Vivalda da Costa Pacheco, com quem já está casado há mais de 50 anos.
- Tenho quatro filhos. O filho com a italiana tem 60 e poucos anos. Com a minha segunda esposa, o filho mais novo faleceu – ressalta.
Aposentado há 30 anos, Eugênio não cansa de mostrar as medalhas que ganhou. Os quadros emoldurados na parede são a memória viva de tempos de dificuldade e de vitórias. O mapa da guerra, as medalhas de sangue, fazem parte da sua vida.
- Pena que eu já não lembre mais de algumas coisas. Mas essa é a minha história – finaliza.

Fonte:
Viviane Bueno
Jornal Portal de Notícias 11/09/2012