quarta-feira, 21 de maio de 2025

Trópicos registram perda recorde de floresta primária

 











Levantamento mostra destruição de 18 campos de futebol por minuto

Em 2024, países dos trópicos, como o Brasil e a Bolívia, perderam 6,7 milhões de hectares de floresta primária. A área, que corresponde à do Panamá inteiro, é a maior já registrada pelo Laboratório de Análise e Descoberta de Terras Globais (Glad Lab), da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos.

Os dados, que podem ser vistos na plataforma Global Forest Watch (GFW), do World Resources Institute (WRI), confirmam a destruição de 18 campos de futebol por minuto. Os incêndios florestais são o principal fator para a perda vegetal - algo que os especialistas destacam, a fim de diferenciar de desmatamento, já que esse pressupõe ação humana e nem sempre é o contexto de todas as situações monitoradas. Eles acrescentam que, ainda que os incêndios sejam um fenômeno natural em certos ecossistemas, em florestas tropicais são quase sempre provocados pelo ser humano.

Os incêndios queimaram cinco vezes mais floresta tropical primária em 2024 do que em 2023. Um grupo de apenas dez países responderam por 87% da perda registrada no ano passado, estando no topo da lista o Brasil, onde 42% da perda nos trópicos ficaram concentrados. Também compõem a relação a Bolívia, que subiu para a segunda posição nesse último ano de análise, a República Democrática do Congo, Indonésia, o Peru, Laos, a Colômbia, Camarões, a Nicarágua e o México.

Em todo o mundo, houve também um recorde de perda de cobertura arbórea, ou seja, o agravamento do quadro não ficou limitado às florestas tropicais primárias. O monitoramento indicou aumento de 5% na perda total, na comparação com 2023, o que elevou a soma da área devastada para 30 milhões de hectares e fez com que, pela primeira vez, os pesquisadores constatassem grandes incêndios consumindo vegetação tanto nos trópicos quanto em florestas boreais.

O acadêmico e codiretor do Glad Lab, Peter Potapov, explicou que foram identificadas perdas significativas, inclusive em locais remotos, como o Alasca, em pontos do Canadá e também na Sibéria. Para Potapov, há preocupação com o fato de atingir florestas em pontos mais recuados porque "nos cenários intactos não há atividade industrial".

Brasil

Quanto ao caso específico do Brasil, Potapov apontou os fatores que contribuem para o avanço na devastação de florestas intactas.

"A agricultura industrial, a mineração e a exploração madeireira são os principais responsáveis por sua perda", afirmou, em resposta ao questionamento da Agência Brasil.

O resultado da generalização é atribuído também ao volume de gases de efeito estufa produzido pelos incêndios. Foram expelidas 4,1 Gt, quantidade quatro vezes maior do que em 2023.

"Isso tem que ser um chamado para todos os países, os negócios, porque, se continuar nesse caminho, vamos devastar tudo, não vamos frear a mudança climática e teremos grandes impactos", recomendou a codiretora da GFW.

Segundo o catedrático Matt Hansen, também codiretor do Glad Lab, o documento com as informações consolidadas completa uma década com indicativos críticos. "Estamos vendo esse relatório como más notícias", resumiu.

Biomas brasileiros

No relatório, constam mais detalhes sobre o período atravessado pelo Brasil, país com o maior número de florestas primárias tropicais do mundo. De acordo com a equipe do Glab Lab, as taxas de perda não relacionada a incêndios também subiram 13% em 2024, mas permaneceram abaixo dos picos do início dos anos 2000 e também dos alcançados durante o governo anterior.

No documento, os pesquisadores atribuem, principalmente, ao desmatamento de florestas para monocultivo de soja e para a pecuária a responsabilidade pela perda de floresta primária. Eles reconhecem que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem buscado garantir a preservação dos biomas por meio de políticas socioambientais, com a revogação de leis, a demarcação de terras indígenas e ações que visam ao cumprimento da legislação em vigor, mas que essa evolução ainda está ameaçada pela expansão agropecuária.

A Amazônia teve a maior perda de vegetação desde o recorde em 2016, saltando 110% de 2023 a 2024, sendo os incêndios o elemento central no ano passado. O Pantanal, por sua vez, foi o bioma que apresentou o maior percentual de perda de cobertura arbórea.

Fonte: Agência Brasil

terça-feira, 20 de maio de 2025

Governo do Rio Grande do Sul tem controle rigoroso e segue protocolos internacionais contra gripe aviária

 

Diretora Rosane Collares e Ananda Kowalski, coordenadora do Programa de Sanidade Avícola da Seapi - Foto: Divulgação Seapi










Secretaria da Agricultura detalha ações sanitárias, de contenção, uso de tecnologia e protocolos ambientais adotados pelo RS

Nesta semana, Montenegro segue no foco das ações do governo do Estado, por meio da Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi), para conter o foco de influenza aviária de alta patogenicidade (H5N1). A diretora do Departamento de Vigilância e Defesa Sanitária Animal (DDA/Seapi), Rosane Collares, esclarece nesta entrevista as medidas adotadas no município, que seguem protocolos nacionais e diretrizes da Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA). Veja os principais pontos no formato de pergunta e resposta.

Quais são as ações previstas para Montenegro nesta semana?

As ações seguem o Programa Nacional de Controle de Influenza Aviária e Doença de Newcastle, alinhadas às diretrizes da OMSA. Estamos atuando em duas frentes principais. A primeira são as barreiras sanitárias, com desinfecção de veículos que transportam material orgânico, como animais, ração, ovos, leite e camas de aviário — veículos que entram e saem de várias propriedades rurais. Isso reduz o risco de circulação do vírus. A segunda frente é a vigilância nas propriedades dentro do raio de três a sete quilômetros do foco. Nessas visitas, os médicos veterinários fazem a inspeção clínica dos animais e, na ausência de sinais clínicos, preenchem um formulário com dados de interesse e realizam a vistoria do local.

Essas ações fazem parte de protocolos nacionais e internacionais?

Sim. Tudo está bem detalhado no Plano Nacional de Controle e Erradicação da Influenza Aviária de Alta Patogenicidade (H5N1) e da Doença de Newcastle. As diretrizes seguem recomendações da OMSA.

Como a Plataforma de Defesa Sanitária Animal (PDSA-RS) ajuda no monitoramento das ações?

A PDSA é uma ferramenta de geolocalização com um módulo específico para atuação em focos. Ela agiliza a organização das equipes, permitindo dividir as propriedades em setores de atuação. Atualmente, temos dois fiscais médicos-veterinários em campo usando essa tecnologia: eles recebem seu roteiro, fazem as visitas e inserem as informações no sistema, permitindo à equipe de gestão acompanhar tudo em tempo real. Assim, podemos tomar decisões rápidas, como reforçar o número de profissionais em uma área, se necessário.

O Rio Grande do Sul trabalha com o conceito de tolerância zero para casos de Influenza. O que isso significa e quantas amostras já foram coletadas?

Desde 2022, com a chegada da Influenza Aviária na América do Sul, adotamos o conceito de tolerância zero. Isso significa que qualquer alteração comportamental ou sintoma respiratório ou neurológico em aves gera a coleta imediata de amostras. Desde então, o RS é o segundo estado com maior número de coletas, com 147 amostras enviadas para diagnóstico laboratorial.

Como funciona o processo de detecção do vírus e em quanto tempo sai o resultado?

As amostras são enviadas ao laboratório de referência do Ministério da Agricultura, localizado em Campinas (SP), por meio de um convênio com a Fundesa. Em casos negativos, o resultado sai entre 24 e 48 horas. Se houver suspeita, outras análises são feitas até a confirmação final.

Como é feito o descarte dos animais em caso de foco? Esse procedimento também segue normas ambientais?

Sim. As valas sanitárias são abertas com avaliação de órgãos ambientais para evitar contaminação do solo e da água. O método de descarte varia conforme o porte do animal e pode envolver quebra cervical ou uso de CO₂, sempre priorizando segurança ambiental e bem-estar animal.

Qual a orientação para a população quanto ao consumo de ovos e carnes?

Não existe risco zero, mas o risco é considerado insignificante, já que a cultura alimentar brasileira envolve o consumo desses alimentos cozidos. A recomendação é consumir sempre produtos de procedência conhecida, com inspeção federal, estadual ou municipal.

Quanto tempo leva para que o Estado retome a condição sanitária anterior e volte a exportar normalmente?

Se todas as etapas dos protocolos forem cumpridas, o prazo mínimo é de 28 dias — dois ciclos de incubação do vírus, que é de 14 dias. Já a retomada das exportações depende dos acordos comerciais com cada país, e geralmente é tratada caso a caso.

Fonte:Texto: Ascom Seapi
Edição: Secom

segunda-feira, 19 de maio de 2025

Internações por inflamações intestinais cresceram 61% em dez anos










Sociedade de Coloproctologia faz campanha para alertar sobre doenças

As doenças inflamatórias intestinais são enfermidades que afetam o trato gastrointestinal e que resultaram, nos últimos dez anos, em 170 mil internações no Sistema Único de Saúde (SUS).

Os dados são de um levantamento da Sociedade Brasileira de Coloproctologia (SBCP), com base no Sistema de Informações Hospitalares do SUS, do Ministério da Saúde.

Esses dados mostram ainda um crescimento de 61% nas internações em 2024 (23.825), na comparação com 2015 (14.782).

As principais formas de doenças inflamatórias intestinais são a doença de Crohn e a retocolite ulcerativa. São condições crônicas para as quais ainda não há uma cura definitiva, segundo a SBCP.

“O número de internações aumentou exponencialmente nos últimos anos não só pela severidade dos casos, mas também pelo aumento da incidência, isto é, aparecimento de novos pacientes sem tratamento”, destaca a diretora de comunicação da SBCP, a coloproctologista Ana Sarah Portilho.

Ana ressalta que há um número maior de casos em capitais e em regiões com maior industrialização e urbanização.

As doenças inflamatórias intestinais, também conhecidas como DIIs, são o alvo de uma campanha de conscientização realizada pela SBCP neste mês, apelidado de Maio Roxo. O dia 19 de maio, aliás, é o Dia Mundial das Doenças Inflamatórias Intestinais.

De acordo com a SBCP, é importante ter um diagnóstico correto e iniciar um tratamento o mais cedo possível.


“Nosso objetivo é alertar para a importância do diagnóstico precoce e em seguida do tratamento adequado, a fim de proporcionar melhor qualidade de vida ao paciente e até mesmo remissão dos sintomas”, afirma o presidente da SBCP, Sergio Alonso Araújo.

Doenças

Segundo a coloproctologista Mariane Savio, as DIIs “podem acometer pessoas de todas as idades, mas são muito comuns em adultos jovens, que estão em uma fase produtiva da vida. Então, são doenças que, se não forem tratadas adequadamente e controladas, podem tirar a qualidade de vida do paciente, causar faltas ao trabalho e prejudicar muito esses pacientes e a família deles. São doenças que exigem um diagnóstico e um acompanhamento médico contínuos.”

Entre os principais sintomas das DIIs estão diarreia crônica (podendo haver sangue, muco ou pus), dor abdominal, urgência de evacuar, falta de apetite, cansaço e perda de peso.

Em casos mais graves, as doenças podem provocar anemia, febre e distensão abdominal, além de afetar outras partes do corpo, como as articulações (artrite), a pele (dermatite e piodermas) e oftalmológicas (uveítes).

A retocolite atinge a mucosa do intestino grosso. Já a doença de Crohn pode atingir todo o trato gastrointestinal, ou seja, da boca até o ânus, mas é mais comum no intestino, onde afeta todas as camadas desse órgão: os revestimentos interno (mucosa) e externo (serosa), além dos tecidos internos (submucosa e músculo).

Os mecanismos que levam ao surgimento dessas doenças ainda não foram esclarecidos, mas sabe-se que elas são resultado de uma conjunção de fatores genéticos, ambientais e imunológicos.

O fumo, por exemplo, é um fator que agrava essas enfermidades.

O diagnóstico é feito através da análise do histórico clínico da pessoa e de exames como endoscopia, colonoscopia, tomografia e ressonância magnética.


“O tratamento precoce da doença, ou seja, nos primeiros dois anos de sintomas, reduz muito o risco de o paciente vir a precisar de cirurgias, por exemplo, e melhora a resposta dele aos tratamentos. Os estudos mostram que os tratamentos, quando são instituídos mais precocemente, têm uma resposta muito melhor do que quando tardiamente”, afirma Mariane.

Como ainda não há cura para essas condições, o tratamento envolve controlar os sintomas para melhorar a qualidade de vida dos pacientes, através de medidas como adotar uma alimentação saudável, parar de fumar e praticar exercícios físicos.

Medicamentos como aminossalicilatos, imunossupressores e imunobiológicos podem ser usados, dependendo do caso.

Mariane destaca que, nos últimos, anos houve muitos avanços no tratamento dessas doenças e que a aprovação de novas terapias amplia as opções para os pacientes. A campanha da SBCP envolverá publicações e vídeos em suas redes sociais [LINK: https://www.instagram.com/portaldacoloproctologia], que esclarecem sobre as principais dúvidas relacionadas às DIIs.

Fonte: Agência Brasil

domingo, 18 de maio de 2025

EUGÊNIO ALVES MARTINS














É no auge de seus 90 anos, , que Eugênio Alves Martins, morador de General Câmara, em meio a suas medalhas e seus quadros de homenagens emoldurados na sala de casa, volta no tempo e recorda de quando serviu ao Exército no Rio de Janeiro e São Paulo. Relembra os dias difíceis em que lutou na Força Expedicionária Brasileira (FEB), defendendo o país na Segunda Guerra Mundial, e fala dos bons tempos em que trabalhou com o então presidente João Goulart. Natural de Jaguari, no oeste do Estado, quando menino, Eugênio foi morar em Bossoroca, local em que seu pai tinha herdado algumas terras.

- Eu trabalhava com agricultura, plantei muito arroz em sociedade com um amigo meu. Plantei na fazenda dele. Por lá nos desentendemos e acabamos brigando. A briga acabou na justiça e resultou em uma indenização. Parte foi pago em gado e a outra, em dinheiro. Meu pai me aconselhou a não gastar o dinheiro, mas eu não dei ouvidos e fui embora. Fui para Santiago com o meu avô. Parei na casa de um primo, que era sargento, o Calistrado. Disse para ele que queria servir e ele prontamente me levou ao quartel. Fui apresentado ao coronel e já fiquei por lá mesmo. Servi quase três anos no Exército, lá em Santiago do Boqueirão. Eu tinha 16 anos – conta ele.
Após dois anos, Eugênio alçou voos mais altos. Foi como voluntário para o Rio de Janeiro, para o Esquadrão Metralhadora.
- Tempos depois, fui servir no Batalhão de Gala do Rio e fiz alguns cursos. Também trabalhei no QG do Getúlio Vargas, da Força Expedicionária Brasileira. Nesse tempo, fiquei quase três anos no Rio. Depois, fui transferido para São Paulo – completa.

Os tempos de Guerra

Ciente que poderia ir para a Guerra, Eugênio não se amedrontou diante da convocação. A Segunda Guerra Mundial foi um conflito militar global que durou de 1939 a 1945, e envolveu a maioria das nações do planeta. O número de mortes superou os 50 milhões, havendo ainda 28 milhões de mutilados.
A viagem para Itália, feita de navio em 1942, durou 12 dias e 12 noites.
- Éramos quatro mil soldados e fomos todos em um navio. Eu peguei coisas boas no trajeto. Eu era especialista da Companhia de Guarda, ficamos separados do resto do grupo. Ganhamos cama para dormir no convés. Os outros soldados ficaram em lonas. Mas passamos muito trabalho. Quando terminava o almoço, já entrava na fila da janta, de tanta gente que tinha – lembra.

No Pelotão de Reconhecimento

Na Itália, Eugênio fazia parte do Pelotão de Reconhecimento.
- O grupo reconhecia a posição para as tropas poderem avançar. Se fôssemos atacados, seríamos sempre os primeiros. Nosso distintivo era uma cobra fumando. Quando a coisa ficava feia, diziam “A cobra está fumando” – afirma, aos risos.

Tudo pela vida do amigo

Durante uma operação de alto risco, Eugênio não mediu esforços para salvar a vida de um amigo de infância e companheiro na guerra.
- Em uma diligência, nos deparamos com duas patrulhas inimigas. Junto comigo, tinha esse meu amigo; nos criamos em Bossoroca, era filho de um fazendeiro. Ele ficou atrás de mim, em uma trincheira. Eu me desloquei e pedi para ele ficar na trincheira onde eu estava. Quando se mexeu, veio uma bomba e o impacto levantou seu corpo. Ele foi atingido por tiros de metralhadora. Começou a gritar e a chorar. Peguei ele e o carreguei nas minhas costas. Caminhei uns 300 metros, em uma montanha, até encontrar ajuda. Ele foi levado para os Estado Unidos, ficou dois anos lá. Voltou com perna mecânica e com outras próteses no corpo. Eu o visitei depois disso. Ficou muito agradecido por eu ter ajudado ele durante a guerra. Até presente a família dele me mandou – diz.

“Em uma guerra, soldado não tem medo”



Depois que deixou o amigo a salvo, Eugênio voltou para o combate e acabou matando um tenente alemão.
- Quando voltei, prendemos uns 50 soldados. E tinha um tenente alemão, que não queria levantar as mãos. Eu gritava para ele: levanta as mãos, levanta as mãos! Ele estava armado. E quando fez um gesto, achei que fosse pegar a arma e acabei atirando nele. Matei-o. Caminhamos 100 metros e voltei. Lembrei que o alemão tinha um anel muito bonito no dedo. Pensei: vou lá ver aquele anel. Ele estava trancado no dedo, mas o tirei.
Era de ouro com brilhante. Anos depois, empenhei o anel em General Câmara – recorda.
Eugênio tinha o sobrenome da avó como seu nome de guerra. O Machado, como todos o conheciam, não passou ileso em um dos combates mais sangrentos da história.
- Fui atingido por uma granada, em 30 de março de 1945. Atirei-me em um valo e não consegui proteger as pernas. Tive muitas queimaduras. Fiquei quatro dias no hospital de campanha. Mas eu não tinha medo. Em uma guerra, soldado não tem medo. Quando a gente saia para o front, nos davam um chiclete amarelo americano, e tu ficava com uma coragem medonha. Nem fome a gente tinha. Fiquei na Itália uns três anos. Participei de quatro batalhas. Saíamos camuflados do mato, tínhamos estratégia de guerra. A turma de reconhecimento vai junto com a infantaria para fazer um croqui da tropa inimiga para entregar ao comandante. Só faz a defesa - destaca.
O casamento durante a guerra
Em meio ao caos, Eugênio casou-se com uma italiana, em Pisa, na Itália.
- Foi em 1944. Ela era professora. Eu tinha que carregar ela disfarçada de homem, pois não podia fazer transporte de mulher. Ela veio embora comigo para Porto Alegre depois da guerra. Eu mandei buscar minha sogra e meu cunhado. Eles moravam comigo, no Partenon. Mas tive muito atrito com minha sogra. Tivemos dois filhos, um homem e uma mulher, mas a menina morreu. O casamento não durou muito, nos separamos aqui no Brasil – lembra.
“Saía para o front e não sabia se voltava”
As lembranças da guerra ainda comovem Eugênio. Assume que em certos momentos tem vontade de chorar ao lembrar-se de alguns episódios, mas não se arrepende de ter representado seu país em um momento difícil da história mundial.
- Uma guerra não é brincadeira. Não é fácil ir para um lugar onde a gente não conhecia nada. Andávamos com água pelo pescoço durante a noite. Vi muita gente morrendo do meu lado. Vi até um soldado caminhando sem cabeça. Ele levou muitos tiros e seguiu caminhado por alguns segundos. As pessoas mortas pareciam um gado abatido. Eu ficava muito abalado. Saia para o front e não sabia se voltava. Mas eu estava preparado para isso. Fui como voluntário. O medo lá era constante. Estive de norte a sul da Itália.
– pontua.
Eugênio ficou na Europa até o final da guerra. Tinha planos de ficar no Pelotão de Sepultamento, no cemitério dos Pracinhas, na Itália.
- Decidi voltar para o Brasil com minha esposa. Levei 30 noites para voltar, de navio.

No Brasil

De volta ao Brasil e com as queimaduras da guerra estampadas em suas pernas, Eugênio trabalhou com o presidente João Goulart, que governou o país de 1961 a 1964.
- Eu trabalhei sete anos como milico do Jango. Fazia a sua guarda. Ele era como um irmão pra mim. Eu me dava com a família dele, que morava em São Borja. Quem me levou para trabalhar com ele foi um primo do João, que me falou: “o João Goulart precisa de dois sargentos para trabalhar para ele. Eu me lembrei de vocês”. Fiquei também seis meses em Fernando de Noronha. Quando vim embora, trabalhei com o João. Foi um tempo bom. Nunca me faltou nada. Sempre estávamos de prontidão para defendê-lo. Ele ia seguido para a fazenda em São Borja – afirma.
Em Porto Alegre
Com a vinda para Porto Alegre, Eugênio não demorou muito para chegar a General Câmara.
-Eu vim para cá com o coronel que era meu amigo na Itália. Era meu comandante lá. Veio comandar o 3º Exército aqui. Com a o Movimento pela Legalidade, liderado pelo Brizola, esse coronel botou o Exército a favor do Brizola. Nesse tempo, o comandante do regimento me deu um ofício e disse que tinha arrumado uma vaga para mim, aqui no Arsenal, em General Câmara. Apresentei-me e fiquei por aqui. Fiquei um tempo em um hotel e depois me deram uma casa – fala.
Em General Câmara, Eugênio conheceu a atual esposa, Vivalda da Costa Pacheco, com quem já está casado há mais de 50 anos.
- Tenho quatro filhos. O filho com a italiana tem 60 e poucos anos. Com a minha segunda esposa, o filho mais novo faleceu – ressalta.
Aposentado há 30 anos, Eugênio não cansa de mostrar as medalhas que ganhou. Os quadros emoldurados na parede são a memória viva de tempos de dificuldade e de vitórias. O mapa da guerra, as medalhas de sangue, fazem parte da sua vida.
- Pena que eu já não lembre mais de algumas coisas. Mas essa é a minha história – finaliza.

Fonte:
Viviane Bueno
Jornal Portal de Notícias 11/09/2012

Gripe aviária: tire suas dúvidas sobre doença que afeta aves

 







Brasil confirma primeiro caso da infecção no Rio Grande do Sul

O Brasil confirmou esta semana o primeiro caso de vírus da influenza aviária de alta patogenicidade (IAAP) em um matrizeiro de aves comerciais no município de Montenegro, no Rio Grande do Sul. De acordo com o Ministério da Agricultura e Pecuária, trata-se do primeiro foco de IAAP detectado em sistema de avicultura comercial do país.

Em nota, a pasta destacou que a doença não é transmitida pelo consumo de carne nem de ovos.

“A população brasileira e mundial pode se manter tranquila em relação à segurança dos produtos inspecionados, não havendo qualquer restrição ao seu consumo. O risco de infecções em humanos pelo vírus da gripe aviária é baixo e, em sua maioria, ocorre entre tratadores ou profissionais com contato intenso com aves infectadas (vivas ou mortas)”.

Desde o anúncio do primeiro caso de IAAP no país, China, União Europeia e Argentina suspenderam as importações de carne de frango brasileira, inicialmente por um prazo de 60 dias. Apesar do foco ser regional, as restrições comerciais, no caso da China e do bloco europeu, abrangem todo o território nacional, por exigências previstas em acordos comerciais com o Brasil.

Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que, desde 2006, casos de IAAP vêm sendo registrados em diversas partes do mundo, sobretudo na Ásia, na África e no norte da Europa.

Confira, a seguir, as principais perguntas e respostas sobre a infecção, conforme avaliação da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas).

O que é a influenza aviária?

A influenza aviária, comumente conhecida como gripe aviária, é uma doença causada por vírus influenza originários de aves. Esses vírus pertencem à família Orthomyxoviridae e incluem o A(H5N1). Eles afetam principalmente aves, mas também foram detectados em mamíferos, incluindo bovinos. A gripe aviária raramente afeta humanos, mas a orientação é que as pessoas se mantenham informadas e tomem as medidas preventivas recomendadas.

Como acontece a transmissão?

A forma mais comum de entrada do vírus em um território é por meio de aves selvagens migratórias. O principal fator de risco para a transmissão do vírus de aves para humanos é o contato direto ou indireto com animais infectados ou com ambientes e superfícies contaminados por fezes ou outros fluidos animais. Depenar, manusear carcaças de aves infectadas e preparar aves para consumo, especialmente em ambientes domésticos, também podem ser fatores de risco.

Quais são os sintomas em humanos?

Os sintomas variam de leves – com alguns pacientes até mesmo assintomáticos – a graves. As principais manifestações relatadas incluem febre, tosse, resfriado, conjuntivite, sintomas gastrointestinais e problemas respiratórios.

Qual é o tratamento para a gripe aviária?

Medicamentos antivirais são recomendados para pessoas com quadros graves ou em risco de desenvolver quadros graves devido a condições pré-existentes ou subjacentes, como no caso de idosos ou indivíduos com problemas de saúde crônicos. A orientação é que pessoas que apresentarem sintomas de gripe aviária entrem em contato com um profissional de saúde para receber o tratamento adequado.

Pessoas podem morrer de gripe aviária?

Os seres humanos não têm imunidade prévia à gripe aviária, portanto, o vírus pode causar quadros graves da doença. Entretanto, a OMS diz ser difícil generalizar a análise com base em dados históricos, já que o vírus tem evoluído. Desde 2003, cerca de 900 casos humanos de infecção por A(H5N1) foram relatados, com uma taxa de mortalidade superior a 50%.

Existe uma vacina para gripe aviária?

A OMS atualiza regularmente vacinas em potencial no intuito de se preparar para eventuais pandemias, o que ajuda a garantir que as doses possam ser produzidas rapidamente, se necessário. No caso do vírus H5N1 encontrado em vacas leiteiras, a entidade já tem vacinas em potencial prontas por meio de seu Sistema Global de Vigilância e Resposta à Influenza. Em relação a vacinas para humanos, a OMS tem acordos com 15 fabricantes de imunizantes para acessar cerca de 10% da produção em tempo real de uma futura dose contra a influenza em caso de pandemia. Essas vacinas, segundo a entidade, serão distribuídas aos países com base no risco e na necessidade para a saúde pública.

A vacina contra a gripe sazonal protege contra a gripe aviária?

As vacinas atuais contra a influenza sazonal ou gripe comum não protegem contra a infecção humana pelo vírus da gripe animal, incluindo os vírus H5N1.

Quem corre risco de contrair a gripe aviária?

De acordo com a Opas, sempre que houver qualquer tipo de exposição a animais infectados (como aves domésticas, aves selvagens ou mamíferos) ou a ambientes contaminados, onde circulam os vírus da gripe aviária, existe risco de infecção humana esporádica. Casos humanos de gripe aviária associada ao vírus A(H5N1), segundo a entidade, são isolados. Ao longo dos últimos anos, cerca de 70 infecções humanas foram relatadas na região das Américas, sendo 67 nos Estados Unidos (até abril de 2022), uma no Equador (janeiro de 2023), uma no Chile (março de 2023) e uma no Canadá (novembro de 2024), com uma morte associada à infecção nos Estados Unidos. A maioria dos casos está ligada ao contato com a criação de gado (40 casos, todos nos Estados Unidos) ou aves. A transmissão entre humanos não foi identificada em nenhum desses cenários.

É seguro consumir ovos e frango originários de áreas com surto em animais?

Carnes e ovos podem ser consumidos com segurança, desde que preparados adequadamente. O consumo de carne e ovos crus ou mal cozidos de áreas com surtos de gripe aviária é de alto risco e deve ser evitado. Da mesma forma, animais doentes ou que morreram inesperadamente não devem ser consumidos.

Como preparar carne e ovos com segurança?

A OMS recomenda seguir cinco orientações específicas: mantenha o ambiente limpo;
separe alimentos crus dos cozidos;
longo tempo de cozimento;
manter alimentos em temperaturas seguras;
utilizar água e matérias-primas seguras.

É seguro beber leite de vacas infectadas?

Altas quantidades do vírus A(H5N1) foram encontradas no leite cru de rebanhos infectados. O consumo e manuseio do leite em meio à transmissão da doença está sendo investigado pela OMS. Produtos lácteos produzidos com leite seguindo rigorosos padrões de higiene devem ser considerados seguros para consumo. A OMS e a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) recomendam fortemente o consumo de leite pasteurizado, já que a pasteurização é um sistema eficaz contra o vírus e outros patógenos. Estudos da Food and Drug Administration (FDA) sobre pasteurização também mostraram resultados promissores. A OMS alerta, entretanto, que algumas amostras comerciais de leite pasteurizado nos Estados Unidos continham fragmentos de vírus. Desde que o leite contenha apenas fragmentos de vírus e não o vírus vivo ou em sua forma infecciosa, ele é considerado seguro para consumo. Para trabalhadores da indústria leiteira, atividades que envolvem o manuseio do leite de rebanhos infectados, como ordenhar vacas ou limpar a sala de ordenha, podem aumentar a chance de infecção. Portanto, esses profissionais devem seguir medidas preventivas recomendadas.

E quanto ao queijo e outros laticínios?

Laticínios feitos com leite pasteurizado e que seguem rigorosos padrões de higiene são considerados seguros para consumo. No caso do queijo de leite cru, a sobrevivência do vírus durante a produção está sendo investigada. Como precaução, a produção de queijo de leite cru em áreas com surtos não é recomendada.

A carne bovina foi afetada? É seguro consumir carne de animais afetados?

Não foram relatados casos de detecção em rebanhos de gado de corte. A OMS recomenda o cozimento completo da carne para reduzir a exposição a patógenos.

O que tem sido recomendado para prevenir ou controlar surtos de gripe aviária em animais?

Os países precisam ter um plano de contingência completo e atualizado para surtos. Recomendações específicas para esses planos podem ser obtidas de organizações como a Food and Drug Administration (FAO) e a Organização Mundial da Saúde Animal (WOAH). Equipes envolvidas na vigilância e na resposta à gripe animal devem ser treinadas para implementar esses planos em caso de emergência, além de receber recursos necessários para isso. Também é considerado fundamental que produtores de aves reforcem a biossegurança em suas instalações, evitando o contato entre aves domésticas e aves selvagens, inclusive por meio de água e ração. Ainda segundo a OMS, os produtores desempenham papel fundamental na detecção precoce da doença e precisam ser capazes de reconhecê-la e notificá-la às autoridades veterinárias, para que a gripe aviária possa ser descartada ou confirmada e medidas apropriadas sejam tomadas. A detecção precoce facilita uma resposta oportuna, ajudando assim a reduzir a propagação do vírus. Indivíduos ou famílias que criam aves para consumo pessoal também devem estar bem informados sobre como reconhecer uma ave infectada, quais medidas tomar e como se proteger adequadamente.

Gatos são afetados pela gripe aviária? Existe risco para humanos que criam gatos?

Os gatos são suscetíveis ao H5N1, incluindo os de estimação e também felinos selvagens, como tigres, leões e leopardos. Os fatores de risco para gatos incluem exposição a aves doentes ou mortas, o consumo de aves cruas infectadas ou a ingestão de leite cru. Gatos infectados podem desenvolver sintomas graves e morrer em razão da doença. Estudos sugerem que as pessoas podem transmitir o vírus da gripe sazonal aos gatos, mas o risco da transmissão, para humanos, através de gatos infectados é classificado como baixo. A OMS, entretanto, recomenda evitar o contato com animais doentes ou mortos e a prática de hábitos de higiene ao manusear animais de estimação.

Por que a vigilância animal e a detecção precoce de casos são importantes?

A vigilância adequada da presença de influenza aviária em animais, incluindo aves e mamíferos, fornece informações sobre quais subtipos de influenza estão em circulação. O processo também permite detectar a presença do vírus com caráter zoonótico mais acentuado, ou seja, possivelmente apresentando alterações genéticas que podem resultar em maior adaptabilidade à transmissão de humano para humano, o que é importante para a saúde pública. A detecção precoce torna possível ainda que os países implementem ações de resposta rápida para mitigar o risco de transmissão do vírus para humanos.

Fonte: Agência Brasil