Mostrando postagens com marcador UNICEF. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador UNICEF. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Quase metade das crianças do mundo está exposta a riscos climáticos

 
No Brasil, crianças e adolescentes convivem com calor extremo e secas

Quase metade das crianças e adolescentes do mundo, o equivalente a 1,1 bilhão de indivíduos, está exposta a pelo menos três riscos climáticos, que ameaçam a sua saúde, educação e sobrevivência.

As conclusões estão no Relatório de Risco Climático das Crianças 2026, do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) lançado nesta segunda-feira (15).

Segundo o estudo, quase todas as crianças no mundo enfrentam pelo menos um risco climático, enquanto mais de 4 milhões podem sofrer até seis ameaças diferentes.

“No Brasil, 16 milhões estão expostos a três ou mais riscos climáticos, como ondas de calor ou secas - o equivalente a 3 a cada 10 meninos e meninas brasileiras. Olhando para dois ou mais riscos, são mais de 30 milhões de crianças e adolescentes (6 a cada 10) que convivem cotidianamente com essas ameaças”, alerta o relatório.

O estudo usa os dados mais recentes disponíveis para mapear a exposição das crianças e adolescentes às oito ameaças climáticas mais frequentes em todo o mundo: enchentes costeiras, secas, calor extremo, queimadas, ondas de calor, enchentes de rios, tempestades de areia e poeira e tempestades tropicais.

Pela primeira vez, o relatório mostra exatamente onde e com que intensidade múltiplas ameaças climáticas afetam crianças e os serviços públicos essenciais dos quais elas dependem, além de indicar como governos podem adotar ações concretas para responder a esse cenário.

De acordo com diretora executiva do Unicef, Catherine Russell, a vida das crianças segue sendo profundamente abalada por ondas de calor, incêndios florestais, secas e enchentes.

Seca, calor extremo e ondas de calor são a combinação mais comum de riscos climáticos, com mais de 296 milhões de crianças e adolescentes vivendo em áreas expostas a essas três condições. A segunda combinação mais comum — seca, calor extremo e tempestades tropicais — atinge mais de 115 milhões de crianças em todo o mundo.

Segundo o Unicef, na região do Sahel, na África, uma das mais afetadas, mais de 4 milhões de crianças enfrentam a tripla ameaça de ondas de calor, calor extremo e tempestades de areia e poeira.

Já em países da Ásia, como Bangladesh, Mianmar e Paquistão, as crianças estão expostas a mais ameaças climáticas e com maior intensidade do que em qualquer outro lugar do mundo.

Países de alta renda também enfrentam impactos climáticos. Na Itália, por exemplo, mais de 6 milhões de crianças e adolescentes estão expostas a ondas de calor prolongadas e a secas.

Além das oito ameaças climáticas mais frequentes, o relatório analisa a exposição das crianças à poluição do ar e à malária, dois riscos muito sensíveis às mudanças climáticas. Os dados mostram que a poluição do ar afeta quase todas as crianças no mundo, enquanto 1 bilhão de meninos e meninas estão expostos à malária, aumentando uma camada extra de risco a quem já enfrenta múltiplas ameaças climáticas.

No Brasil, o cenário é similar, com quase todas as crianças e adolescentes (95%, ou 47 milhões) expostas à poluição do ar. Já outras 5,6 milhões (ou 11% da população infantil do país) estão expostas à malária.

“Sem esforços urgentes para reduzir as emissões de gases de efeito estufa, as ameaças climáticas vão se tornar mais frequentes e mais intensas, pressionando ainda mais os orçamentos públicos, os sistemas governamentais e comprometendo o bem-estar das crianças,”, alerta o relatório.

Para proteger os direitos das crianças e enfrentar a crise climática, o Unicef recomenda: Reduzir as emissões e adotar ações ambiciosas para cumprir compromissos internacionais, incluindo a eliminação gradual dos combustíveis fósseis e uma transição justa para energias renováveis;
Proteger as crianças e os adolescentes por meio de adaptação climática inclusiva;
Redução de riscos de desastres e respostas de perdas e danos que tornem os serviços públicos essenciais resilientes;
Garantir que as políticas fundamentais para as crianças sejam incluídas nos planos nacionais de adaptação e nas estratégias setoriais, na governança do risco de desastres, e nos planos de preparação e resposta;
Criar escolas seguras e verdes e unidades de saúde resilientes ao clima;
Garantir a segurança alimentar das crianças;
Tornar os sistemas de alerta precoce eficazes para as crianças e acessíveis aos serviços dos quais dependem;
Fortalecer a eficiência dos serviços de água e saneamento, bem como dos sistemas de proteção social responsivos a emergências;
Empoderar crianças e jovens para participar de forma significativa na ação climática por meio do investimento em educação e habilidades climáticas;
Fortalecimento da capacidade de tomadores de decisão e especialistas de respeitar os direitos das crianças de serem ouvidas, de se expressarem e de participarem nas decisões que afetam suas vidas.

“Esse estudo pode ajudar governos e tomadores de decisão a planejar melhor e investir de forma mais eficaz em serviços resilientes”, disse Catherine Russell.

FONTE: Agencia Brasil

domingo, 28 de dezembro de 2025

Corpo humano não funciona como deveria em temperatura acima de 35°C

 
Confusão mental e fala arrastada são sinais de falência térmica

A onda de calor que elevou as temperaturas na semana do Natal, no Rio de Janeiro, São Paulo e em outros seis estados ao redor, no Sudeste, Centro-Oeste e Sul, de acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), deve se estender até a próxima segunda-feira (29). Para essas áreas, o órgão emitiu aviso vermelho, de grande perigo, o que significa temperaturas 5º C acima da média por mais de 5 dias e alta probabilidade de risco à vida, danos e acidentes.

Com aumento do calor extremo, resultado especialmente das mudanças climáticas induzidas pelo homem, uma série de medidas são necessárias para diminuir o impacto na saúde. De acordo com o clínico geral e coordenador do Pronto Atendimento dos Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, Luiz Fernando Penna, esse quadro tem potencial de gerar a falência térmica do corpo.

"Essa é uma emergência médica caracterizada pela confusão mental, pele quente e seca e temperatura corporal acima de 40º C", explicou o profissional de saúde.

Se o corpo apresentar esses sinais e sintomas, é necessário buscar atendimento médico de imediato, advertiu o médico.

Na avaliação do médico do Sírio, o impacto do calor na saúde é subestimado. "Muitas pessoas acreditam que causa apenas mal-estar, mas estamos falando de riscos reais, que incluem desde quedas de pressão até falência térmica", alertou.

Quando está muito quente, Penna explica que o corpo humano trabalha no limite. O organismo aumenta a sudorese, o que faz acelerar os batimentos cardíacos e dilata os vasos sanguíneos. "Esses mecanismos, porém, têm limite. E, quando falham, instala-se a falência térmica", explicou.

O calor extremo também agrava o quadro de quem convive com doenças crônicas, tais como hipertensão, insuficiência cardíaca, diabetes, doença pulmonar obstrutiva crônica (Dpoc) e doença renal crônica.

Pessoas que fazem uso de diuréticos, anti-hipertensivos, antidepressivos, anticolinérgicos e antipsicóticos também precisam redobrar a atenção. Os medicamentos podem aumentar a dilatação ou descontrolar a regulação térmica natural do corpo.

"Para quem já tem uma condição de base, o calor impõe uma sobrecarga perigosa", acrescentou o médico.

As altas temperaturas interferem ainda no sono, prejudicando o humor, aumentando a irritabilidade e reduzindo a produtividade, já que afetam o tempo de descanso, a memória e a tomada rápida de decisões.

Para essas situações, não basta se hidratar, é preciso se proteger, evitar a exposição entre 10h e 16h, usar roupas leves e claras, priorizar ambientes ventilados e não fazer exercícios físicos. Aqueles trabalhadores que não podem evitar sair no calor extremo, como profissionais da construção civil, de entregas e da coleta de lixo, devem fazer pausas frequentes nas horas mais quentes, recomenda.

"Não existe adaptação completa para ondas de calor extremas e repetidas", explica Fernando Penna. "Acima de 35°C com alta umidade, o corpo humano simplesmente não consegue funcionar como deveria".

A recomendação do coordenador de pronto-socorro é evitar situações de riscos e reconhecer sinais precoces de falência térmica para evitar o colapso.

No Rio de Janeiro, já foi comprovado por pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz, de fevereiro de 2025, que as altas temperaturas estão relacionadas ao aumento da mortalidade. O risco é maior para idosos e pessoas com alguma doença, como diabetes e hipertensão, além de Alzheimer, insuficiência renal e infecções urinárias. O trabalho da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp) analisou mais de 800 mil mortes entre 2012 e 2024.

"A maioria dos estudos sobre calor e mortalidade concentra suas análises em doenças cardiovasculares e respiratórias", disse, em nota, o pesquisador João Henrique de Araujo. "Todavia, há estudos que relatam esses efeitos também para doenças metabólicas, do trato urinário e doenças como Alzheimer, sobre as quais dissertamos", acrescenta.

O que fazer em casos de calor * Antes de planejar suas atividades, procure saber quão quente e úmido será o dia;
saiba como obter ajuda, anote telefones e informações sobre o serviço de saúde ou de ambulância - para acionar o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), ligue 192;

Mantenha sua casa fresca Sempre que possível, proteja a casa da entrada de calor, feche portas, janelas e cortinas durante as horas mais quentes e abra de noite para refrescar;
use ventiladores e aparelhos de ar-condicionado, se disponíveis; mas sem exagerar na regulagem do frio para não causar choque térmico

Proteja-se do calor Não saia durante os horários mais quentes;
quando estiver ao livre, use protetor solar, chapéus e guarda-chuvas;
evite permanecer em ambientes fechados e sem circulação de ar, onde o calor se acumula e pode ser mais intenso do que ao ar livre.

Mantenha-se fresco e hidratado Beba mais água, recuse bebidas alcoólicas acreditando que vai relaxar, o álcool acelera a desidratação;
use tecidos respiráveis, roupas escuras e pesadas retêm calor e dificultam a ventilação;
cuidado com banhos gelados, que provocam efeito rebote e fazem o corpo aumentar a produção de calor.

* Fonte: Unicef, Hospital Sírio-Libanês e Agência Brasil

quinta-feira, 11 de setembro de 2025

Unicef: obesidade infantil supera desnutrição pela 1ª vez no mundo

 
Relatório da agência traz dados dados de mais de 190 países

Uma em cada cinco crianças ou adolescentes do mundo está acima do peso, o que representa cerca de 391 milhões de indivíduos. Quase metade delas - 188 milhões - apresenta obesidade. Com isso, pela primeira vez na história, o excesso de peso grave superou a desnutrição como a maior forma de ná nutrição infantil. Os dados são do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) que alerta para o risco de adoecemento.

Em um relatório com dados de mais de 190 países, a organização mostra que a prevalência de desnutrição entre crianças de 5 a 19 anos caiu de quase 13% para 9,2%, entre 2000 e 2025 Enquanto isso as taxas de obesidade aumentaram de 3% para 9,4%. A obesidade só não superou a desnutrição em duas regiões do mundo: a África Subsaariana e o Sul da Ásia.

No Brasil, esse já é o panorama há algumas décadas. No ano 2000, 5% das crianças e adolescentes apresentavam obesidade, contra 4% afetados pela desnutrição. Até 2022, o índice de obesidade triplicou, chegando a 15%, enquanto a desnutrição continuou caindo para 3% dessa população. Além disso, o sobrepeso dobrou de 18% para 36%.

Segundo o relatório, as maiores taxas de obesidade entre crianças e adolescentes foram encontradas em países das Ilhas do Pacífico, passando de 30%. A principal razão, segundo o Unicef, é a substituição da alimentação tradicional por alimentos ultraprocessados, que são mais baratos.

Mas as taxas de obesidade e o consumo de ultraprocessados também preocupam em países de alta renda, de continentes e com contextos culturais diferentes. No Chile, 27% das habitantes entre 5 a 19 anos vivem com obesidade, e a proporção é de 21% nos Estados Unidos e Emirados Árabes Unidos, ou seja, 2 a cada 10.

“A obesidade é uma preocupação crescente que pode impactar a saúde e o desenvolvimento das crianças. Os alimentos ultraprocessados estão substituindo cada vez mais frutas, vegetais e proteínas, justamente quando a nutrição desempenha um papel crítico no crescimento, desenvolvimento cognitivo e saúde mental das crianças”, lamenta Catherine Russell, Diretora Executiva do Unicef.

De acordo com a organização, a mudança não se deve a escolhas pessoais, mas a "ambientes alimentares prejudiciais que estão moldando a dieta das crianças, para privilegiar alimentos ultraprocessados e fast foods", que contém altas concentrações de açúcar, amido refinado, sal, gorduras não saudáveis e aditivos.

"Esses produtos dominam comércios e escolas, enquanto o marketing digital dá à indústria de alimentos e bebidas acesso poderoso ao público jovem", alerta a publicação.

O relatório mostra também que a desnutrição continua sendo uma preocupação significativa entre crianças menores de 5 anos em muitos países de baixa e média renda, enquanto o excesso de peso é mais prevalente entre as crianças em idade escolar e adolescentes.

De acordo com o relatório, a condição aumenta o risco de desenvolver resistência à insulina, pressão alta e doenças graves ao longo da vida, como diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares e certos tipos de câncer.

O Unicef calcula que, se os países não intervirem para prevenir o excesso de peso infantil, podem enfrentar grandes impactos econômicos, por causa das consequências na saúde pública. Até 2035, o impacto econômico global do sobrepeso e da obesidade deve ultrapassar US$ 4 trilhões por ano.

Por outro lado, alguns países aparecem como exemplos positivos, incluindo o Brasil. A organização destaca: a restrição progressiva da compra de ultraprocessados no Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE); a vedação de propagandas de alimentos não saudáveis para crianças; a rotulagem frontal, que destaca quando um produto é rico em substâncias nocivas, como açúcar e sódio; e a proibição do uso de gorduras trans na produção de alimentos.

Fonte: Agência Brasil

sexta-feira, 15 de agosto de 2025

Brasil tem 229 mil crianças não vacinadas contra difteria, tétano e coqueluche, aponta Unicef

 

País está em 17º lugar na lista de nações com menos crianças vacinadas; no mundo, 14 milhões de meninos e meninas não receberam a primeira dose da vacina DTP em 2024

O Brasil reapareceu na lista dos 20 países com maior número de crianças não vacinadas contra difteria, tétano e coqueluche (DTP) em 2024, segundo relatório divulgado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e pela Organização Mundial da Saúde (OMS). O país está em 17º lugar na lista, com 229 mil crianças que não receberam a primeira dose da DTP ou Tríplice Bacteriana em 2024. No calendário nacional de vacinação, a DTP é indicada em três doses e dois reforços, sendo a primeira aplicada aos 2 meses de idade.

Apesar da volta do Brasil à lista, da qual tinha saído em 2024, com dados de 2023, o relatório aponta que o país atingiu uma cobertura global da DTP1 de 91% - mais próxima da meta de 95%. Isso indica que o Brasil está entre os países com as maiores coberturas percentuais do imunizante do mundo.

“É uma lista que foca em números absolutos, não na cobertura vacinal. Apesar deste número corresponder a 2% da população de crianças que devem tomar essa vacina, 229 mil crianças é um número gigantesco, semelhante a populações inteiras de cidades e até de países, o que deve ser levado em conta”, afirma o infectologista e gestor médico do Butantan, Érique Miranda.

A vacina DTP na sua versão acelular é um dos imunizantes produzidos pelo Butantan. No ano passado, o Instituto forneceu ao Programa Nacional de Imunizações (PNI) 4 milhões de doses, que foram encaminhadas aos estados e municípios pelo Ministério da Saúde para serem distribuídas gratuitamente à população nos postos de saúde.

Para a OMS, a primeira dose de DTP é um indicador para o acesso aos serviços de imunização. Quando ela não é administrada, a criança é considerada “zero dose”, ou seja, que não recebeu nenhuma vacina. No ano passado, o Brasil deixou de figurar na lista ao computar 103 mil crianças não vacinadas, uma queda acentuada comparada aos dados de 2022, quando foram registradas 418 mil crianças zero dose no país.

Segundo o Ministério da Saúde, no primeiro quadrimestre de 2025 o Brasil registrou um aumento na cobertura de 15 das 16 vacinas do calendário nacional na comparação ao mesmo período de 2024; entre os imunizantes que tiveram sua cobertura ampliada está o primeiro reforço da DTP, que foi de 74,49% para 81,97% - mas ainda fora da meta de 95%.

“Houve sim uma queda nas coberturas vacinais e essa variação desde a pandemia já foi suficiente para colocar o Brasil nesta lista. É um número macro e a tendência dele, de acordo com os dados recentes do governo, que demonstram uma curva de melhora, é o Brasil sair dessa lista novamente”, afirma Érique Miranda.

Durante a pandemia de Covid-19, houve uma queda significativa nas coberturas da primeira e terceira dose de DTP nas Américas. Em 2021, a região atingiu seu nível mais baixo em duas décadas, com coberturas de 87% para DTP1 e 81% para DTP3. No entanto, os dados de 2023 mostraram uma recuperação parcial, com 90% para DTP1 e 88% para DTP3, segundo a OPAS.

CAUSAS DA NÃO VACINAÇÃO

O relatório do Unicef aponta que 20 milhões de crianças permaneceram não vacinadas ou subvacinadas no mundo em 2024. Destas, 14,3 milhões não receberam nenhuma vacina (zero dose de DTP1), um aumento em relação aos 12,9 milhões de 2019. Entre as crianças que permanecem não vacinadas ou subvacinadas no mundo, aproximadamente 10,2 milhões (51%) vivem em países com fragilidade institucional e social ou afetados por conflitos.

Vinte e sete países apresentaram cobertura de DTP1 abaixo de 80%, sugerindo a necessidade de ampliar o acesso aos serviços de imunização locais. A maioria deles está localizada na África Ocidental e Central (7), África Oriental e Meridional (6) e América Latina e Caribe (6).

O relatório aponta que, globalmente, mais de 50% das crianças com zero dose estão concentradas em nove países altamente populosos e/ou que vivem em conflitos políticos e econômicos que impactam a vacinação.
São eles: Nigéria (228 milhões de habitantes e 15% de crianças zero dose), Índia (1,43 bilhão de habitantes e 6% de crianças zero dose), Sudão (50 milhões de habitantes e 6% de crianças zero dose), República Democrática do Congo (106 milhões de habitantes e 5% de crianças zero dose), Etiópia (129 milhões de habitantes e 5% de crianças zero dose), Indonésia (281 milhões de habitantes e 5% de crianças zero dose), Iêmen (39,4 milhões de habitantes e 4% de crianças zero dose), Afeganistão (41,5 milhões e 3% de crianças zero dose) e Angola (36,8 milhões e 3% de crianças zero dose).

O relatório pondera o grande número de habitantes de alguns países contribuem para os números globais, apesar das altas taxas de cobertura vacinal. Por exemplo, em 2024, a Índia contabilizou 909 mil crianças com zero dose, o que corresponde a 6% da população elegível, apesar de atingir 96% de cobertura para uma coorte de 22,7 milhões de bebês sobreviventes.

A lista de 20 países elaborada pela Unicef leva em conta o número absoluto de crianças não vacinadas, portanto destacam-se países muito populosos e com graves limitações do sistema de saúde pública. “A Nigéria, que está no topo da lista, com 2 milhões de crianças não vacinadas, é o sexto país mais populoso do mundo e ainda é uma área endêmica para poliomielite que enfrenta questões de segurança, socioeconômicas, de infraestrutura e sistêmicas que contribuem para o desafio geral de alcançar uma alta cobertura vacinal no país”, explica Érique Miranda.

Em segundo lugar vem a Índia, o segundo país mais populoso do mundo e seis vezes mais populoso que a Nigéria, porém com metade do número de crianças sem vacinar observado no país africano: quase 1 milhão. O Brasil, que tem uma população um pouco menor que a da Nigéria, tem 229 mil, e está em 17º na lista, ao lado da China.

COQUELUCHE PREOCUPA

O relatório detalhou também a cobertura global da terceira dose da vacina contra difteria, tétano e coqueluche (DTP3) - frequentemente usada como um indicador de quão bem os países estão fornecendo serviços de imunização de rotina para crianças  e da vacina de sarampo, já que a doença é considerada um marcador de transmissão.

Em 2024, a cobertura global da terceira dose da DTP3 foi de 85%, de acordo com as estimativas mais recentes da OMS e do Unicef, pouco abaixo da meta global de 90% estabelecida pela Agenda de Imunização 2030.

Ao todo, 111 países (57%) alcançaram pelo menos 90% de cobertura da DTP3 em 2024. Esse número é menor do que em 2019, quando 125 países atingiram a meta.

A Europa, Ásia Central e o sul da Ásia apresentaram a maior cobertura da vacina DTP3, com 92%, enquanto a África Ocidental e Central apresentaram a menor, com 72%. A cobertura nos países da América Latina e Caribe foi de 82%.

No seu Alerta Epidemiológico de Aumento de Casos de Coqueluche na Região das Américas, a OPAS apresentou a evolução das coberturas de DTP3 entre 2020 e 2024 em sete países da região — Brasil, Colômbia, Equador, Estados Unidos, México, Paraguai e Peru —, que registram surtos de coqueluche em 2025.

Segundo o relatório, a cobertura de DTP3 no Brasil sofreu altos e baixos nos últimos quatro anos, com totais de 86% (2020), 68% (2021), 77% (2022), 90% (2023) e 91% (2024).

No Brasil, até meados de maio de 2025, foram notificados 1.819 casos confirmados de coqueluche, incluindo seis óbitos. Dos estados com casos confirmados de coqueluche, os que apresentaram maior número foram Minas Gerais (417 casos e um óbito), São Paulo (321 casos e dois óbitos), Rio Grande do Sul (249 casos e um óbito) e Paraná (247 casos). A faixa etária mais acometida é a de crianças menores de um ano (498 casos), representando 27,4%, seguida da faixa etária de 1 a 4 anos (462), representando 25,4%.

“A queda das coberturas durante a pandemia fez ressurgir surtos de coqueluche em adultos que estão infectando crianças porque, depois dos 7 anos, não se recebe mais reforço da coqueluche, só se recebe a vacina duplo adulto acelular (tétano e difteria). Os adultos sem imunidade contra coqueluche infectam principalmente bebês que ainda não receberam os três reforços. Por isso, é importante possibilitar reforços para adultos, para além das gestantes e profissionais de saúde”, explica Érique.

Causada pela bactéria Borderella pertussis, a coqueluche é repassada pelo contato com gotículas de pessoas doentes, sendo altamente transmissível. É justamente por esse motivo que a meta de vacinação é a mais alta - de 95%.

O QUE PRECISA SER FEITO PARA REVERTER O CENÁRIO

O documento da OMS e Unicef destaca que os desafios para aumentar a cobertura vacinal são numerosos e persistem em regiões frágeis e afetadas por conflitos. Em 2024, ao menos oito países apresentaram coberturas da DTP3 de 60% ou menos (Afeganistão, Azerbaijão, Bolívia, República Centro-Africana, Líbano, Papua-Nova Guiné, Sudão e Iêmen). Seis em cada oito desses países vivem em situação de fragilidade institucional e social, ou são afetados por conflitos.

O documento ressalta ainda que a cobertura também é afetada por investimentos inadequados em programas nacionais de imunização, escassez de vacinas e surtos de doenças.

“Para elevar os níveis globais de imunização, é essencial priorizar os esforços nos países com os maiores números absolutos de crianças não vacinadas. No entanto, é igualmente importante garantir que os países com baixas taxas de cobertura, onde as crianças têm maior probabilidade de não serem imunizadas, recebam a atenção necessária, especialmente em nações com coortes de nascimento menores”, pondera o Unicef.

Fonte: Instituto Butantan

sexta-feira, 20 de junho de 2025

Vacinação melhora, mas ainda enfrenta desafios no Brasil

 







Curvas de imunização indicam queda das taxas de cobertura desde 2015

Apesar das coberturas vacinais no Brasil estarem em rota de recuperação, as diferenças entre estados e municípios e os esquemas incompletos ainda são desafios que ameaçam a saúde pública brasileira. Essas são as principais conclusões do Anuário VacinaBR, produzido pelo Instituto Questão de Ciência (IQC), em parceria com a Sociedade Brasileira de Imunizações (Sbim) o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

A publicação mostra que, em 2023, nenhuma vacina infantil do calendário nacional atingiu a meta de cobertura em todos os estados. O destaque negativo ficou com os imunizantes que protegem contra a poliomielite, meningococo C, varicela e Haemophilus influenzae tipo B – nesses casos, nenhum estado vacinou 95% do público-alvo, porcentagem necessária para evitar a transmissão dessas doenças.

Além disso, apenas 1.784 municípios, ou menos de 32% dos mais de 5.570 existentes no Brasil, conseguiram cumprir a meta de cobertura para quatro vacinas considerados prioritárias: pentavalente, poliomioliete, pneumo-10 e tríplice viral. O melhor desempenho foi o do Ceará, onde 59% das cidades imunizaram o público-alvo. No Acre, porém, apenas 5% dos municípios alcançaram a marca.

"Saúde é competência concorrente da União, dos estados e dos municípios. O problema da imunização não pode ser atacado de maneira uniforme, porque a gente vive em um país de dimensões continentais que tem desafios muito específicos. E a gente viu, no Anuário, que às vezes tem municípios adjacentes, com condições muito parecidas, mas com taxas de imunização muito diferentes", alerta o diretor executivo do IQC e organizador do Anuário VacinaBR, Paulo Almeida.

Mesmo a vacina BCG, que protege contra formas graves de tuberculose e deve ser tomada logo após o nascimento – por isso, muitas vezes, é aplicada ainda na maternidade – só alcançou a meta de cobertura em oito unidades federativas. Em 11 estados, a taxa de imunização ficou abaixo de 80%, alcançando menos de 58% dos bebês no Espírito Santo. Dentro de todos os estados, há cidades que vacinaram 100% do público-alvo e outras que não imunizaram nem a metade.

A diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações, Isabela Balallai, também destaca o protagonismo dos gestores municipais para aplicar as recomendações do Ministério da Saúde e a necessidade de seguir o planejamento estadual, conforme as realidades locais. Isabela lembra que o maior combustível para a hesitação vacinal é a baixa percepção de risco, quando as pessoas não sabem, ou não dão valor para o perigo das doenças preveníveis por vacina.

"O acesso também é um grande problema no Brasil. Temos 38 mil salas de vacinação, país nenhum tem isso. Mas se a pessoa vai ao posto e recebe uma informação errada, ela não volta. Se só funciona em horário comercial, e ela trabalha, ela não consegue levar os filhos. Se ela vai num dia, e a vacina acabou, ela não vai consegui voltar em outro dia. A falta de informação, somada à baixa percepção de risco é igual à não vacinação", acrescenta a diretora da Sbim.


Abandono

De maneira geral, as curvas de vacinação no Brasil indicam diminuição das taxas de cobertura desde 2015, com queda mais brusca em 2021 e movimento de recuperação em 2022 e 2023. Já as porcentagens de abandono, quando a pessoa recebe a primeira dose, mas não completa o esquema vacinal, mantêm-se estáveis desde 2018.

Um exemplo é a vacina tríplice viral. Em 2023, a maior parte do país vacinou entre 80 e 85% do público-alvo e apenas quatro estados atingiram a cobertura ideal na primeira dose: Santa Catarina, Mato Grosso do Sul, Tocantins e Rondônia. O índice de aplicação da segunda dose não chegou a 50% em 14 estados, e a meta não foi atingida em nenhuma unidade federativa.

A tríplice viral previne contra o sarampo, a caxumba e a rubéola e deve ser tomada aos 12 e aos 15 meses de idade (sob a forma da vacina tetraviral, que também protege contra a varicela). Todas essas doenças podem desenvolver quadros graves e até provocar a morte, especialmente em crianças pequenas.

Atualmente, há surtos de sarampo em diversos países, e cinco casos isolados foram registrados no Brasil este ano. "As pessoas precisam saber que quem não completa o esquema vacinal continua desprotegido contra aquela doença", adverte Isabela Ballalai.

O diretor executivo do IQC e organizador do Anuário VacinaBR, Paulo Almeida, afirma que é preciso reconhecer que estratégias que deram certo no passado não são suficientes para enfrentar os desafios atuais: "A campanha hoje, por exemplo, não tem o mesmo peso por muitos motivos. Um deles é que as vozes são muito difusas. Antes, havia canais oficiais de comunicação com a população. Hoje, com a internet, temos infinitos canais de comunicação; então, é mais difícil acessar pela via direta da campanha."

Almeida ressalta, porém, que há novas ferramentas disponíveis. "Lembretes por SMS, por exemplo, conseguem melhorar muito a taxa de cobertura, porque a pessoa é cutucada para ir lá no posto. Porque ela sabe que é necessário, ela até quer até fazer, mas eventualmente o ritmo de vida interfere, e ela não consegue. Ou também a conveniência, que é superimportante: ter pontos de vacinação abertos em horários em que o cuidador pode levar a criança pra se imunizar.

Isabela Ballalai também defende o uso constante das escolas como ponto de vacinação e de educação sobre vacinas.

"A escola é capaz de combater os principais pontos da hesitação vacinal. Primeiro ponto: acesso. Os responsáveis não têm que levar ninguém a lugar nenhum, a criança, ou adolescente, já está ali. Segundo: informação. Explicar para a comunidade escolar porque é importante vacinar e que está tendo campanha, porque, às vezes, as pessoas não estão nem sabendo. Terceiro: a escola pode ser o caminho para as autoridades de saúde chegarem e se comunicarem com as famílias, e saberem qual a situação vacinal delas."

Fonte:Agência Brasil