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terça-feira, 29 de novembro de 2011

A atualidade da filosofia

No dia 17 de novembro, celebra-se o Dia Mundial da Filosofia. É um momento oportuno para refletir sobre esse saber, ao mesmo tempo, tão antigo e tão atual. A Filosofia não é algo depositado em textos do passado que só interessam aos historiadores das ideias. Pelo contrário, as questões que ela levanta são do interesse de quase todos nós. Afinal, quem pode permanecer indiferente a muitos dos seus problemas como, por exemplo, se Deus existe ou não, se o universo e nós nele somos o produto do cego acaso, ou se, pelo contrário, fazemos parte do plano de um ser superior, se a morte é ou não é o fim de tudo?
Muitas vezes se tem decretado a morte da Filosofia. No século 19 os positivistas acreditaram que o avanço da ciência deixaria a Filosofia sem temas, pois, na sua perspectiva, todos os assuntos que, até então, tinham sido objeto da especulação filosófica poderiam, no futuro, ser abordados de forma científica, por meio do método experimental. Contudo, não foi isso o que aconteceu. Ao invés, o progresso da ciência e da tecnologia abriu novos âmbitos para a pesquisa filosófica. Basta pensar na bioética, ramo atual da Filosofia em que são avaliadas, desde um olhar ético, decisões sobre a vida e a morte, envolvidas nas discussões sobre o aborto, a eutanásia e a pesquisa farmacológica com animais. Mas, também nesse ramo da Filosofia, discutem-se problemas éticos inconcebíveis para os filósofos do passado, como os relativos ao uso de embriões e à fecundação in vitro. Outra área da Filosofia que o avanço científico e tecnológico tornou possível é a que se denomina Filosofia da mente. Nessa disciplina, abordam-se assuntos tais como: se as máquinas poderiam pensar e em que sentido poderiam fazê-lo; se os processos mentais são processos cerebrais, ou, pelo menos, são redutíveis a eles; se o ser humano é livre ou se é um autômato.
Nessa enumeração das questões atuais da Filosofia, não poderia deixar de ser mencionada a ética ambiental, na qual se contrapõem, desde uma visão filosófica do assunto, de um lado o imperativo do desenvolvimento econômico e social e de outro lado a necessidade de se preservar o meio ambiente para as futuras gerações. Se os problemas dos diversos ramos da ética filosófica são tão difíceis de resolver, isso é devido ao fato de não se tratar, nessa disciplina, de opor o bem ao mal, mas de avaliar as razões que militam em favor de escolher entre Bens que não podem ser obtidos ao mesmo tempo. Com efeito, escolher um significa sacrificar o outro.
Esses novos problemas da Filosofia acompanham os tradicionais, sobre os quais se debate desde a antiguidade clássica: o ceticismo e a possibilidade de chegar a conhecimentos certos; as relações entre linguagem, realidade e pensamento; o sentido da vida humana; a questão da existência de Deus.  Nestes últimos tempos, a Filosofia recuperou uma função que já tivera na época do Império romano: a de ser uma sabedoria, um discurso argumentativo, baseado na razão humana e não na religião, cujo tema é como devemos viver para ser felizes. Daí decorre o sucesso de livros como Aprender a viver, do francês Luc Ferry.
Com este breve texto, esperamos ter despertado no nosso leitor o interesse e a curiosidade pela Filosofia e ter-lhe mostrado a atualidade dessa disciplina. Nesse caso, nosso propósito ao escrevê-lo terá se realizado. 
Jorge Alberto Molina
Professor de Filosofia da Unisc

Fonte:Jornal Gazeta do Sul 17/11/2011

segunda-feira, 11 de abril de 2011

POR QUE EM ESCOLAS?

Dia desses passei em frente à Escola Estadual Protásio Alves, onde cursei meu Técnico de Secretariado. Meu coração foi preenchido por uma emoção gostosa, avassaladora, que me permitiu ficar assim, com esse sentimento o resto de meu dia.
E o contrário, e o difícil colocar-se no lugar do outro?
Como deve ser terrível uma emoção repulsiva à escola, por quê?
Porque a escola é o nosso primeiro e grande teste de aceitação lá fora. Deveríamos, a cada mês, submeter nossos alunos a um simples questionamento: você está sentindo-se aceito aqui neste espaço? Assim, como teste para nivelar e saber o que pensa a turma.
Aliás, quantas escolas, sejam elas da rede pública ou privada, fazem seus alunos pensarem através da disciplina de Filosofia?
O que se flagra como maior oponente à tradicional escola? A veloz e desafiante Internet!
Que tal direcionarmos recursos, aqui considerados investimentos e não gastos, para a educação para que, pelo menos, o professor conselheiro da turma tenha um computador em sala para visitar com seus alunos as páginas que tanto os atrai e, por vezes, traem nosso falso conceito de que estamos educando.
Ir na contramão da velocidade de nossos dias pode resultar em choques frontais e, até mesmo, letais. As nossas famílias, seja qual for o paradigma para a sua formação, estão a exibir jovens conectados somente com o seu mundo, no seu quarto e com o seu computador. Qualquer perícia policial vai constatar diálogos de violência e páginas que ensinam o que assistimos na tragédia do Rio de Janeiro. Não, não vamos culpar a Internet, a grande rede está aí respondendo às necessidades dos séculos. Mas podemos nós, seres humanos, nos conectar a outra grande rede. Aquela que nos permitia olhar no olho do filho e perguntar: tudo bem? Aquela que nos movia a dar um bom-dia para o nosso vizinho. Aquela que nos licenciava assoviar uma canção, a caminho do trabalho. Aquela que não fazia nossas crianças confundirem galinha com "pássaro grande". Porque nossas crianças conheciam galinhas. Ah... e também sabiam que o leite vem da vaca e não direto das caixinhas!

É a velha teoria Flinstoniana: somos os mesmos desde os Flinstones, com as mesmas necessidades, com as mesmas emoções e com as mesmas expectativas de sermos aceitos, porém, em uma sociedade cada vez mais exclusiva!
Jornalista Silvia do Canto
Fonte:Jornal Correio do Povo 11/04/2011

quarta-feira, 6 de abril de 2011

POR QUE FILOSOFAR ?

No início do livro Las preguntas de la vida (há uma edição brasileira pela Martins Fontes, mas está esgotada), o filósofo espanhol Fernando Savater lembra o questionamento que muitos fazem ao se deparar com o ensino da filosofia: que informação podemos tirar dela? A resposta é óbvia: nenhuma. Quem nos dá informação são os noticiários. Mas depois que recebemos a informação (um número x de pessoas morrem de fome no mundo, por exemplo), ela basta para entendermos a nós mesmos e ao mundo ao nosso redor? A informação por si só não, mas depois as pessoas passam a opinar sobre a notícia, procurando justificativas, causas, relacionam os fatos com o seu conhecimento de mundo. Por isso, uns invocam as análises psicológicas, outros levantam teses sociológicas, outros apelam para as explicações religiosas. Até que alguém exclama: “em que mundo vivemos!”. Essa exclamação gera uma pergunta que não encontra uma resposta satisfatória, como a óbvia “vivemos no planeta Terra!”, pois ela transcende qualquer explicação científica. Passa-se pelo degrau da informação, depois pelo degrau do conhecimento e agora se quer chegar à sabedoria.

Para se chegar a esse degrau, eu afirmo: precisamos da filosofia. Filosofamos porque queremos respostas que vão gerar, por sua vez, novas perguntas e assim por diante. No momento em que achamos que já encontramos a resposta, deixamos de filosofar. As religiões dizem que têm a verdade, basta ter fé e não questionar. Alguns cientistas afirmam também categoricamente suas descobertas em revistas e saímos repercutindo como verdades absolutas. Ainda bem que há os que questionam os dogmas religiosos e os que questionam os dogmas científicos. Graças a essas pessoas, não deixamos de evoluir.

Pense, caro leitor, em um objeto importantíssimo do seu dia a dia. Pensou no celular, no computador, na televisão ou outra coisa? Pois você deve isso a um filósofo ou, na menor das hipóteses, a uma pessoa que filosofou. Ela deve ter refletido “está certo, esse objeto facilitou minha vida, mas não pode facilitar ainda mais?”. Ou seja, o cara não se conformou com o que tinha e quis algo mais. São as mentes inconformadas que movem o mundo e elas são alimentadas pela busca do conhecimento e a aplicação desse conhecimento para os seres humanos. Se elas param, paramos também e nossa vida se torna monótona.

Para os que dizem que a filosofia é uma disciplina inútil, respondo que ela é inútil para aqueles que só se conformam em viver e deixam que outras pessoas reflitam no seu lugar. Mas lembre-se: refletir é também olhar-se no espelho. Portanto, vá ao banheiro ou ao seu quarto, olhe-se no espelho e me diga se é a sua imagem que está sendo refletida.

Cassionei Niches Petry/Professor e mestrando em Letras, bolsista do CNPq
cassio.nei@hotmail.com

Fonte:Jornal Gazeta do Sul 06/04/2011