terça-feira, 1 de setembro de 2026

Afetada por disputas geopolíticas, COP17 termina com poucos avanços

 
Pastagens, povos tradicionais e seca marcaram conferência na Mongólia

Depois de duas semanas, chegou ao fim a 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17) em Ulaanbaatar, capital da Mongólia. Realizada pela Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação (UNCCD) em um momento em que até 40% das terras do planeta estão degradadas, a conferência teve poucos avanços para a concretização de compromissos internacionais.

>> Confira a cobertura da Agência Brasil sobre a COP17

A urgência dos problemas exigia anúncios significativos. As principais expectativas para o evento, porém, não se tornaram realidade: a criação de um regime global contra as secas foi adiada mais uma vez e os valores de financiamento ficaram abaixo do cálculo estimado para conter a degradação da terra.

Negociadores ouvidos pela Agência Brasil ponderam que o resultado final poderia ter sido pior, dadas às condições geopolíticas desfavoráveis e às tentativas dos Estados Unidos de enfraquecer os instrumentos multilaterais.

Logo no primeiro dia do evento, representantes de Washington bloquearam um conjunto de itens da agenda de negociações: gênero, participação da sociedade civil e integração entre as três COPs do meio ambiente (desertificação, biodiversidade e clima).

Uma atitude sem precedentes na história da conferência, já que o texto inicial parte de consensos estabelecidos na COP anterior. Ao fim da conferência na Mongólia, todos os itens foram reintroduzidos no programa de trabalho para a COP18, que será realizada no Egito em 2028.

Impasse

Em relação ao regime global contra as secas, os Estados Unidos defendiam a suspensão total do debate. Europeus eram a favor de um acordo com mecanismos voluntários. Africanos, apoiados pelo Brasil, queriam um acordo que gerasse compromissos obrigatórios.

Ao fim, houve consenso para que a seca passe a ser um item permanente e independente da agenda das próximas conferências, o que evita que a discussão sobre ela seja alvo de bloqueios. Também foi definido que as discussões continuem no período entre COP17 e COP18, o que, em teoria, não deixa o debate em suspenso por dois anos.



17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17). Foto: Kiara worth/UNCCD - Kiara Worth/UNCCD

Em entrevista à Agência Brasil, a secretária-executiva da UNCCD, Yasmine Fouad, disse que, mesmo diante das disputas e oposições, o resultado da COP17 fortalece a permanência do diálogo contra o autoritarismo.


“O mais importante é que o sistema multilateral mostra não estar tão fragmentado e disperso como todos dizem. Por isso, trabalhamos arduamente para que esta COP avançasse. Talvez não tenhamos tido o pacote completo, mas certamente mantemos a possibilidade de progresso até a próxima conferência”, disse Fouad.

Resultados paralelos

Um dos avanços anunciados em Ulaanbaatar foi a entrada em fase de implementação da Parceria Global de Resiliência à Seca de Riad, criada durante a COP16, em 2024. A primeira assembleia avançou na discussão de um fundo coletivo destinado a apoiar cerca de 70 países de baixa e média-baixa renda.

A proposta prevê apoio à capacitação, elaboração de programas aptos a receber investimentos e financiamento de medidas para aumentar a resiliência.

A COP17 também foi marcada pelo lançamento do Mecanismo de Investimento para Resiliência à Seca (DRIF), a primeira plataforma global de financiamento dedicada exclusivamente ao tema. Criada pela UNCCD e por Luxemburgo, com apoio da Aliança Internacional para a Resiliência à Seca (IDRA), a iniciativa pretende mobilizar até US$ 400 milhões em recursos públicos e privados.

Os investimentos deverão ser direcionados para segurança hídrica, agricultura sustentável, soluções baseadas na natureza e recuperação de terras.

Outra novidade foi a segunda fase do Observatório Internacional de Resiliência à Seca (IDRO), que apresentou o primeiro Índice de Resiliência à Seca (DRI). A ferramenta pretende ajudar os países a avaliar sua capacidade de antecipar, se preparar e se adaptar aos períodos de escassez de água.

Financiamento

A questão financeira permaneceu como um dos principais desafios da conferência. Para cumprir os compromissos globais de restauração até 2030, seriam necessários cerca de US$ 355 bilhões por ano, segundo a UNCCD. Atualmente, o investimento é de aproximadamente US$ 77 bilhões anuais, o que deixa um déficit de US$ 278 bilhões por ano.

A participação do setor privado é ainda limitada: representa apenas cerca de 6% dos investimentos globais destinados à recuperação de terras.

Durante a COP17, governos, bancos de desenvolvimento, fundos e empresas anunciaram uma carteira de US$ 1,3 bilhão para a restauração de terras e o aumento da resiliência às secas, envolvendo 23 países em cinco continentes.

>> Estados do Nordeste tentam atrair investimentos para Caatinga na COP17

Desse total, US$ 644,5 milhões são classificados como novos recursos, enquanto US$ 216,4 milhões já estão confirmados e avançam para a implementação. Os recursos abrangem projetos de recuperação de paisagens e pastagens, resiliência à seca e adaptação liderada pelas próprias comunidades.

As discussões também abordaram novos instrumentos para tentar transformar projetos de restauração em oportunidades de investimento, incluindo garantias, capital de primeira perda, seguros e mecanismos de preparação de projetos.

Pastagens no centro da agenda

A escolha da Mongólia como sede da conferência coincidiu com o Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores, celebrado pela ONU em 2026. Os países reconheceram os pastores como responsáveis pela conservação das áreas e destacaram a importância da mobilidade transfronteiriça e dos conhecimentos tradicionais.

Apesar de sua relevância, as pastagens continuam pouco presentes nas políticas climáticas e nos investimentos. Esses ecossistemas concentram cerca de um terço das principais áreas de biodiversidade do planeta, mas aparecem nos planos climáticos nacionais de apenas 24 países. No caso das florestas, esse número chega a 181.




Nas estepes na Mongólia, país-sede da COP17. Foto: Rafael Cardoso/Agência Brasil

Uma nova análise econômica apresentada na COP17 estimou que as pastagens geram entre US$ 21 trilhões e US$ 47 trilhões por ano em serviços ecossistêmicos, incluindo produção de alimentos, água, armazenamento de carbono e biodiversidade.

Segundo o levantamento, cada dólar investido na recuperação desses ecossistemas pode gerar retorno entre US$ 4 e US$ 6. Considerando benefícios públicos mais amplos, como o abastecimento de água, esse retorno pode chegar a US$ 36 por dólar investido.

A Iniciativa Global sobre Pastagens, anunciada na COP17, pretende transformar essa avaliação econômica em uma carteira de investimentos para o manejo sustentável, a recuperação dos ecossistemas e o apoio às populações pastoris.
Povos indígenas ganham novos espaços

A COP17 também marcou a primeira reunião formal dos novos grupos de representação de povos indígenas e comunidades locais dentro da convenção de combate à desertificação.

Os dois espaços foram criados ao fim da COP16, em Riad, e passaram a funcionar como canais específicos para levar perspectivas e prioridades desses grupos às discussões da convenção.

Em Ulaanbaatar, os indígenas destacaram os sistemas de conhecimento tradicionais, as formas comunitárias de governança, o pastoralismo sustentável e a gestão das terras. Também defenderam maior proteção dos direitos territoriais e de mobilidade, acesso direto a recursos financeiros e participação efetiva nas decisões.

Ao lado de outros grupos da sociedade civil, como os de gênero, juventudes e comunidades locais, os indígenas organizaram protestos durante a conferência, cobrando maior presença nos espaços de decisões e que não tivessem uma participação meramente simbólica.




17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17). Foto: Kiara Worth/UNCCD

Metas brasileiras

No balanço final, a UNCCD destacou o fato de o Brasil ter apresentado um novo compromisso voluntário para alcançar a Neutralidade da Degradação da Terra (LDN) até 2030.

A meta brasileira reúne 17 subobjetivos relacionados a políticas, planos e programas nacionais. Entre eles está a recuperação ou restauração de mais de 163 mil quilômetros quadrados, por meio da regeneração da vegetação nativa e de sistemas agroflorestais.

Outros 3,51 milhões de quilômetros quadrados serão abrangidos por medidas destinadas a evitar a degradação, por meio da conservação e do manejo sustentável da terra. No total, a meta cobre aproximadamente 3,67 milhões de quilômetros quadrados.

FONTE: Agencia Brasil

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Quedas e queimaduras são maior causa de internação de crianças

 
Em 2025 foram mais de 80 mil internações até os 14 anos de idade

As quedas e queimaduras foram as causas mais comuns de internação de crianças e adolescentes até os 14 anos de idade no Brasil, em 2025. Foram mais de 55 mil internações por quedas, ou 43,4% do total para essa faixa etária, e mais de 25 mil internações por queimaduras, 19,6% do total.

Os dados, compilados pelo Projeto Criança Segura, da ONG Aldeias Infantis SOS, foram retirados diretamente do DataSUS, repositório de dados que reúne as notificações em saúde no país.

Em 2025, ocorreram mais de 1,6 milhão de hospitalizações de pessoas no país por acidentes, consideradas todas as faixas de idade. Crianças e adolescentes até os 14 anos de idade responderam por 162 mil dessas internações, 9,7% do total, sendo que 128,5 mil, 79,3% do total, mapeadas pelo Projeto Criança Segura.

A cada mês, em 2025, 10,7 mil crianças e adolescentes até os 14 anos de idade foram hospitalizadas em decorrência de acidentes no Brasil, com maior incidência nos estados de São Paulo, com 19.837 (15,4%), Minas Gerais, com 12.183 (9,5%) e Paraná, com 10.708 (8,3%). As menores incidências foram nos estados do Amapá, 468 (0,4%), Roraima 543 (0,4%) e Sergipe, com 297 hospitalizações, 0,2%.

Quando ponderados em relação à população, os dados mostram uma realidade um pouco diferente. O Pará teve a maior taxa de internações, correspondendo a 120 hospitalizações por 100 mil habitantes.

Segundo colocado, o Tocantins teve taxa de 113, e o Maranhão de 102 por 100 mil habitantes em 2025.

No outro extremo estão os estados do Rio de Janeiro, com taxa de 43 hospitalizações por 100 mil, o Rio Grande do Norte, com taxa de 39 por 100 mil, e Sergipe, com taxa de 13 por 100 mil.

"Os resultados demonstram que quedas, queimaduras, sinistros de trânsito, intoxicações, sufocações e afogamentos continuam figurando entre as principais causas de internação infantil no Brasil. Investir em ambientes seguros, educação preventiva e fortalecimento de políticas públicas significa reduzir hospitalizações, sequelas permanentes e óbitos evitáveis", destaca o relatório.

OUTRAS CAUSAS

Os acidentes de trânsito estão em terceiro lugar das causas de internações por acidentes, com 12,6 mil ocorrências (9,9%), concentrados na faixa dos 10 aos 14 anos (50,4%) e com presença importante na faixa dos 5 aos 9 anos (32,3%).

Na sequência, houve 4,2 mil casos de intoxicações (3,3%), sendo que 37,7% desses acidentes com crianças de 1 a 4 anos, e 31,2% em crianças de 5 a 9 anos.

Com menor incidências estão a sufocação, com 644 ocorrências (0,5%), acometendo em maior grau as crianças de 1 a 4 anos (49,1%); os afogamentos, com 261 casos (0,2%), concentrados também com crianças de 1 a 4 anos (71,6%), e acidentes com armas de fogo, com 70 situações (0,1%).

Ao comparar 2025 com os dois anos anteriores, o relatório observou uma tendência de crescimento nas internações hospitalares de crianças e adolescentes até 14 anos, decorrentes de acidentes.

O aumento foi de 2,2% em 2024 em relação a 2023, e de 5,4%, em 2025, em relação a 2024.

As categorias em que houve mais aumentos foram intoxicações, com aumento de 19,7% na comparação 2024/2025, sufocação, 10,8%, e queimaduras, 7,4%.

Os acidentes com armas de fogo foram a única categoria em que houve redução de ocorrências, na ordem de 13,6%, também com certa tendência de redução. O aumento consolidado de hospitalizações de crianças e adolescentes no triênio 2023 a 2025 foi de 9.221 casos: 7,7%.

EDUCAÇÃO

O relatório foi taxativo ao colocar as campanhas educativas e uma maior atenção aos pequenos como decisivas para diminuir os índices. A estimativa é que mais de 90% dos acidentes com esse público sejam evitáveis, e o uso de celulares aparece como um elemento importante. A desatenção dos cuidadores é apontada como um fator decisivo para os aumentos recentes em ocorrências.

FONTE: Agencia Brasil

domingo, 30 de agosto de 2026

Bacia-esponja pode ser uma alternativa contra inundações

 
Modelo seria uma adaptação do conceito chinês de cidade - esponja.

Imagens impressionantes de uma enxurrada na região entre o Nepal e Tibet, na Ásia, atravessaram o mundo. E no Brasil, fizeram recordar as enchentes ocorridas nos últimos anos, em diferentes regiões. Com mais frequência e intensidade, os extremos climáticos têm a mesma origem, o aquecimento global.

Segundo Cecília Herzog, paisagista urbana da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (Recn), as mudanças climáticas exigem adaptações que vão além das áreas urbanas. É preciso pensar o processo hidrológico como um todo e adaptar as bacias hídricas, avalia.

“A água não respeita as nossas decisões políticas ou nossas convenções e fronteiras, o limite da natureza é outro, tem os seus processos e fluxos que correm na paisagem”, diz.

A partir dessa ideia, a especialista propõe a adoção de um modelo chamado bacia-espoja, que seria uma adaptação do conceito de cidade-esponja, difundido pelo arquiteto chinês Yu Kongjian, no início dos anos 2000, de tratar os próprios cursos dos rios em vez de adaptar as cidades para absorver, reter e reutilizar a água da chuva por meio de soluções baseadas na natureza.

“Na hora que você passa a tratar a bacia hidrográfica como uma unidade de planejamento, que é a unidade ideal, você tem que começar na cabeceira e terminar na foz, e passando por ele todo, e ao longo não apenas do curso do rio, mas de todas as áreas periféricas que vão de alguma maneira impactar o que acontece”, explica.

Para a especialista em soluções baseadas na natureza Juliana Baladelli Ribeiro, gerente da Fundação Grupo Boticário, retardar o escoamento na própria estrutura do rio é mais eficaz do que pensar apenas nos efeitos das chuvas atingindo as cidades.

“O excesso de chuva que causa transtornos nas cidades muitas vezes não caiu diretamente ali. A água vem sendo acumulada ao longo da bacia hidrográfica, chegando pelos rios”, explica.

Na prática, as principais intervenções seriam proteger as nascentes nas partes mais altas das bacias hidrográficas e recuperar as florestas nas margens dos rios, para manter a conectividade natural da vegetação por meio dos fluxos de água.

Juliana entende que a intervenção nas bacias não exclui ações nas cidades, onde também é necessário dar vazão aos fluxos acumulados e aumentados por chuvas intensas.

Ela propõe “ter espaços como parques urbanos, jardins de chuva, praças úmidas, que ajudam a assegurar essa água e permita então que a água da chuva volte aos poucos para o seu fluxo natural”.

De acordo com as especialistas, a gestão integrada das bacias hidrográficas a partir do conceito de bacia-esponja já demonstram resultados bem-sucedidos em vários países, mas é preciso adequar as soluções a cada lugar e aos fatores naturais de cada região.

“Não podemos pensar em importar modelos. É necessário pensar como que a gente vai transformar essas paisagens de extremamente vulneráveis a paisagens mais resilientes, cocriando com o conhecimento local”, defende Cecília Herzog.

FONTE: Agencia Brasil

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Dia de Combate ao Fumo: treinar não combina com fumar, destaca Inca

 

Instituto alerta para efeitos opostos desses hábitos sobre o organismo

O Instituto Nacional de Câncer (Inca) promoveu, nesta quinta-feira (27), evento on-line em alusão ao Dia Nacional de Combate ao Fumo, lembrado em 29 de agosto. Neste ano, a campanha tem como tema “Atividade física e saúde: treinar não combina com fumar”.

A finalidade é destacar os efeitos opostos da prática de exercícios e do uso de produtos de tabaco e nicotina sobre o organismo.

Segundo o Inca, a atividade física fortalece os sistemas cardiovascular, respiratório e muscular, melhorando o condicionamento e a qualidade de vida. Já o tabagismo compromete essas funções, reduz o desempenho físico e aumenta o risco de doenças crônicas.

A prática de exercícios também pode ser uma aliada para o fim do tabagismo, ao ajudar a reduzir a vontade de fumar e os sintomas da abstinência.

Para a psicóloga e especialista no tratamento do tabagismo do Inca Vera Borges, a atividade física tem papel fundamental na melhora da saúde como um todo.

“Esse tema guarda a necessidade de alertar os fumantes de cigarros e de vapes que fazem atividade física e que acreditam que o exercício reduz o risco de adoecimento. Quaisquer das formas desse produto vai trazer prejuízo à saúde.”

Segundo Vera, todos os ganhos advindos da prática regular de uma atividade física são perdidos com os danos causados pelo tabagismo.

Dessa forma, o Inca busca prevenir o tabagismo e fortalecer comportamentos saudáveis, proteger ambientes livres dos produtos da nicotina e promover o fim do tabagismo.

“Treinar e fumar é incompatível, quando a gente pensa no cuidado à saúde.”

Cigarros eletrônicos

A campanha também tem como foco informar sobre os danos causados pela dependência à nicotina no universo dos adolescentes e jovens, além de alertar sobre a experimentação de dispositivos eletrônicos para fumar, os vapes, e outros derivados do tabaco.

De acordo com a especialista, esse público é levado a acreditar que os eletrônicos são produtos menos danosos ao condicionamento físico. Atualmente, ela alerta que o uso de sachês de nicotina é promovido nas redes sociais por influenciadores e atletas como um estimulante natural de bem-estar.

Segundo a psicóloga, enquanto a atividade física fortalece os sistemas cardiovascular, respiratório e muscular, o uso do tabaco compromete essas funções, reduz o desempenho físico e eleva o risco de doenças crônicas.

“Fumantes têm menor resistência física, fadiga precoce, recuperação mais lenta após os treinos e maior risco de lesões ou complicações cardiovasculares durante atividades intensas.”

Os benefícios da atividade física ficam comprometidos diante do uso de tabaco e nicotina com danos à saúde por meio de mecanismos como: 
Vasoconstrição – a nicotina contrai os vasos sanguíneos reduzindo o fluxo de sangue para os músculos e órgãos;
Privação de oxigênio – redução da capacidade do sangue de transportar oxigênio, privando os músculos desse elemento essencial durante o esforço físico;
Prejuízo pulmonar – inflamação das vias aéreas reduzindo a função pulmonar, dificultando a respiração;
Sobrecarga energética – o esforço físico torna-se maior para atividades que exigiriam menos energia de uma pessoa não fumante.

FONTE: Agencia Brasil

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Tabagismo é maior entre jovens de 16 a 24 anos, alerta pesquisa

 
Maioria dos fumantes mantêm outros hábitos prejudiciais à saúde

Os jovens brasileiros de 16 a 24 anos apresentaram incidência de tabagismo maior que outras faixas etárias em uma pesquisa do Instituto A.C. Camargo Câncer Center em parceria com a empresa Nexus.

Nessa faixa etária, 19% dos entrevistados se declaram fumantes ativos, de cigarros comuns ou eletrônicos, número acima da média nacional (17%) e de todas as outras faixas etárias. A pesquisa entrevistou mais de 2 mil pessoas em todo o país.

A faixa entre 25 e 40 anos, por outro lado, apresenta o menor índice de tabagismo, com 15% dos entrevistados declarando serem fumantes. Em seguida, surge o grupo das pessoas com mais de 60 (16%), e de 41 a 59 anos (17%).

Além disso, os dados apontam que grande parte da população está exposta aos perigos do tabagismo: cerca de um terço da população brasileira (33%) compartilha frequentemente ambientes domésticos ou de trabalho com fumantes. A inalação passiva da fumaça eleva as chances de desenvolvimento de câncer pulmonar, inclusive em indivíduos que jamais fumaram.

Segundo Helano Freitas, líder do Centro de Referência de Tumores de Pulmão e Tórax do A.C.Camargo, a incidência do tabagismo entre os jovens entre 16 a 24 anos exige atenção prioritária. O médico ressalta que, conforme levantado na pesquisa, o primeiro contato com o cigarro ocorre, em média, aos 16 anos.

Por se tratar de um grupo de adolescentes e jovens adultos bastante vulnerável, há um alto risco de iniciação na dependência sem conseguir deixá-la posteriormente, ainda que as demais idades também necessitem de cuidado.

Outras Categorias


A população com mais de 60 anos lidera o índice de ex-fumantes, com 32% do total. Em segundo lugar, aparecem pessoas de 41 a 59 anos (15%), de 25 a 40 (10%) e de 16 a 24 anos (8%).

Entre as regiões do país, o consumo de cigarro é superior no Sul (22%), seguido do Sudeste (19%), Nordeste (13%) e Norte/Centro-Oeste (13%).

A pesquisa também demonstra que o consumo de cigarros está atrelado a fatores socioeconômicos. Os entrevistados que possuem renda salarial de até um salário mínimo apresentam a maior taxa de tabagismo, com 19%. Já em relação ao nível de escolaridade, aqueles que concluíram apenas o ensino fundamental também apresentam o maior índice de tabagismo, com 21%.

O estudo indica ainda uma forte relação entre o tabagismo e outros comportamentos de risco: 84% dos fumantes relataram manter até quatro hábitos prejudiciais à saúde no cotidiano, destacando-se o sedentarismo e a ingestão exagerada de frituras e produtos ultra processados.

Em contrapartida, 18% das pessoas que nunca fumaram afirmam não ter nenhum hábito prejudicial à saúde, o dobro do índice observado entre os fumantes (9%). Já os ex-fumantes lideram a categoria de apenas um hábito ruim (44%) e apresentam baixas taxas de múltiplos deslizes.

O cenário sugere que abandonar o cigarro costuma vir acompanhado de uma reestruturação ampla do estilo de vida, restando apenas um deslize residual na rotina.

Outro dado do estudo revela que 63% dos fumantes classificam a própria saúde como "ótima" ou "boa". Essa percepção positiva supera inclusive a das pessoas que jamais fumaram (61%), ainda que a diferença esteja contida na margem de erro, demonstrando que os fumantes se consideram tão saudáveis quanto os não fumantes.

FONTE: Agencia Brasil

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Saiba os sintomas e os tratamentos para a febre do Nilo Ocidental

 
Medida preventiva é evitar a reprodução e a picada de pernilongos

Febre, mal-estar, falta de apetite e manchas na pele estão entre os sintomas da febre do Nilo Ocidental, infecção transmitida principalmente pela picada do pernilongo comum (gênero Culex).

O estado de São Paulo confirmou os primeiros casos humanos em sua história: uma mulher de 34 anos, moradora de Ribeirão Preto (já curada após viagem à região amazônica), e uma adolescente de 18 anos, moradora de São José do Rio Preto, que permanece internada sob cuidados médicos.
Em todo o país, a vigilância epidemiológica e laboratorial do Ministério da Saúde segue reforçada após a confirmação de outros dois casos em Santa Catarina — com um óbito registrado — e um caso provável no Piauí.

Sintomas

Estima-se que apenas 20% das pessoas infectadas desenvolvam manifestações clínicas, que costumam surgir de forma leve, mas podem evoluir.
Os sintomas mais frequentes da doença incluem:Sinais iniciais e gerais: 

febre, mal-estar, falta de apetite, náuseas e vômitos
Dores no corpo: dor de cabeça, dor muscular e dor nos olhos
Sinais visíveis: manchas na pele e aumento dos gânglios linfáticos (ínguas)

Em uma parcela menor dos infectados, a doença pode evoluir para quadros graves, como encefalite ou meningite.

Nesses casos, aparecem sintomas como confusão mental, rebaixamento do nível de consciência, tremores ou convulsões. Diante de qualquer um desses sinais neurológicos, a busca por atendimento médico imediato é indispensável.

Tratamento

Por não existir uma vacina ou remédio antiviral específico para combater o vírus do Nilo Ocidental em humanos, o tratamento é totalmente focado no alívio dos sintomas e no suporte ao organismo:

Casos leves: o manejo é feito em casa com repouso rigoroso, hidratação abundante e medicamentos sintomáticos receitados por um médico
Casos graves: podem exigem internação hospitalar imediata, com suporte em Unidade de Terapia Intensiva (UTI), hidratação intravenosa, suporte respiratório e prevenção de infecções secundárias.

FONTE: Agencia Brasil



terça-feira, 25 de agosto de 2026

COP17 entra em semana decisiva com missão de destravar financiamento

 
Recursos para restaurar solo e combater seca estão abaixo da meta

A 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17) entrou na última e decisiva semana de negociações em Ulaanbaatar, capital da Mongólia. Os próximos quatro dias do encontro serão divididos em eixos temáticos específicos para tentar acelerar acordos.

Nesta segunda-feira (24), o foco principal são as finanças. Delegações estão mobilizadas para tentar captar mais recursos destinados à restauração dos solos e combate à seca. Os investimentos anunciados durante o dia, no entanto, mostram que os objetivos ainda estão muito longe de ser alcançados.

Os novos recursos somam US$ 1,3 bilhão, mas o déficit anual estimado pelos especialistas das Nações Unidas é de US$ 278 bilhões por ano.

A secretária executiva da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD, na sigla em inglês), Yasmine Fouad, fez um apelo para que setores público e privado se engajem no processo.
“Falamos de financiamento não para doar, mas para investir. Para mobilizar recursos que invistam nas pessoas, nas economias e na prevenção. Prevenção dos conflitos que vemos em muitas das nossas áreas de pastagem. Queremos levar a resolução para além das palavras no papel e implementá-la na vida das pessoas.”

Pastagens são prioridade


O maior anúncio econômico da COP17 envolve as pastagens, que ocupam mais da metade da superfície terrestre e são fundamentais para a subsistência de centenas de milhões de pessoas.

A Rangelands Flagship Initiative, lançada em parceria pelo governo da Mongólia e a UNCCD, reúne carteira de 45 projetos e está avaliada em US$ 1,2 bilhão. Segundo os organizadores, trata-se da maior mobilização financeira da história da Convenção voltada especificamente para esses ecossistemas.

A iniciativa pretende conservar, gerir de forma sustentável e restaurar pastagens e ecossistemas de terras secas em todo o mundo. O tema é central para a Mongólia, onde a conservação das estepes está diretamente ligada à sobrevivência de comunidades que dependem da criação de animais.

O especialista em economia ambiental do Mecanismo Global da UNCCD Pablo Munõz disse que o déficit financeiro exige novas formas de atuação. Entre as alternativas discutidas estão o uso de recursos públicos que reduzam riscos para investidores privados, garantias, capital de primeira perda, seguros e novos modelos de negócios.
“Reconhecemos a importância das doações e do financiamento concessional [em condições mais favoráveis que as de mercado], mas a escala necessária exige pensar de forma diferente.”
Atualmente, o setor privado responde por apenas cerca de 6% do financiamento global destinado à restauração de terras. Para tentar ampliar essa participação, a UNCCD anunciou uma rede de centros nacionais chamada Business4Land, voltada à aproximação entre empresas, governos e investidores.
A especialista em sustentabilidade no Mecanismo Global da UNCCD Sarah Toumi afirmou que empresas começam a enxergar que também sentirão os impactos ambientais.
“Eles precisam mudar suas práticas para sobreviver do ponto de vista econômico, porque a seca e a degradação do solo representam um risco econômico, não apenas ambiental. Então, precisam pensar em como investir para o bem próprio.”
Segundo ela, setores como agricultura, moda e alimentos dependem diretamente da saúde do solo e da disponibilidade de água. A ideia é que empresas passem a medir seus impactos sobre a terra e incluam a recuperação ambiental em suas estratégias de negócio.

Nova agenda para as secas


Outra aposta da COP17 é ampliar os recursos destinados à preparação para os períodos de seca. O Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF, na sigla em inglês) anunciou a criação de um programa integrado para gestão de terras, com previsão inicial de US$ 140 milhões.


Seca avança e movimenta debates na COP17. Foto: ASA / Divulgação

A iniciativa pretende auxiliar países a abandonar uma lógica baseada na resposta a emergências e investir mais em prevenção, monitoramento e planejamento, explica Ulrich Appel, representante do GEF.
“Isso ajudará os países a ter um planejamento rodoviário nacional mais robusto, soluções baseadas na natureza e investimentos que fortaleçam a resiliência antes que a seca se torne um desastre”, disse Ulrich.

FONTE: Agencia Brasil



segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Canetas emagrecedoras: pediatras alertam para risco de uso em crianças

 

A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) publicou nota de alerta sobre o uso sem indicação e sem acompanhamento médico de medicamentos da classe dos agonistas do receptor GLP 1, popularmente conhecidos como canetas emagrecedoras, por crianças e adolescentes.

Segundo o comunicado, o uso inadequado pode aumentar a frequência e a gravidade de eventos adversos. Entre os riscos do uso sem acompanhamento estão déficit de crescimento e desenvolvimento; desidratação e distúrbios eletrolíticos; perda de massa muscular; pancreatite aguda; e problemas na vesícula.

“O uso com finalidade estética também pode servir de gatilho para transtornos alimentares, como anorexia e bulimia, além de ansiedade e quadros depressivos relacionados à imagem corporal”, alertou a entidade.

A SBP também contraindica a utilização de produtos sem procedência ou registro sanitário, incluindo preparações clandestinas, manipuladas ou importadas sem registro da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

“As chamadas canetas emagrecedoras não devem ser utilizadas por adolescentes com peso adequado simplesmente para modificar a aparência corporal ou atingir padrões estéticos”, destacou a nota, ao citar que tais medicamentos têm indicações específicas como obesidade e diabetes tipo 2.
“Mesmo diante do diagnóstico dessas doenças, a prescrição não é automática”, completou o comunicado.
Na avaliação da entidade, antes de decidir pela prescrição, o médico precisa avaliar a resposta da criança ou do adolescente a intervenções farmacológicas e não farmacológicas prévias, além da gravidade da doença, da presença de comorbidades, de riscos potenciais, da capacidade de acompanhamento e das expectativas do paciente e da família.

“A SBP recomenda, inclusive, substituir a expressão popular canetas emagrecedoras por medicamentos para tratar a obesidade”, destacou o comunicado, citando que a terminologia é mais precisa por reconhecer a obesidade como doença crônica, além de deixar claro que o objetivo do tratamento envolve melhorar a saúde e a qualidade de vida, não apenas a perda de peso.
“Expressões associadas exclusivamente ao emagrecimento podem contribuir para a banalização do tratamento e reforçar o estigma das pessoas com obesidade que necessitam de farmacoterapia”, completou a SBP.

Eventos adversos

A entidade reforça que os eventos adversos mais comuns desse tipo de medicamento são gastrointestinais e tendem a ocorrer principalmente durante o escalonamento da dose. São eles:

- náuseas;
- vômitos;
- refluxo;
- azia;
- diarreia;
- constipação.

A perda de massa magra também é apontada pelos pediatras como risco – a nota recomenda acompanhamento médico para ajuste da conduta diante de intolerância. Entre os eventos classificados como potencialmente graves estão pancreatite, hipoglicemia e colelitíase.

“A evidência científica disponível demonstra eficácia e segurança desses medicamentos em adolescentes quando utilizados dentro dos critérios estudados e associados às intervenções sobre estilo de vida. O problema que temos observado atualmente, principalmente nas redes sociais, não está no medicamento em si, mas na banalização”, destacou o documento.

Contraindicações

A SBP alerta que as canetas emagrecedoras são contraindicadas para pessoas com hipersensibilidade ao princípio ativo ou a componentes da formulação; para gestantes e lactantes; e para pacientes com história pessoal ou familiar de carcinoma medular da tireoide ou síndrome de neoplasia endócrina múltipla tipo 2.
“O relato de pancreatite prévia é considerado uma contraindicação relativa e requer avaliação médica individualizada”, concluiu a entidade.

FONTE: Agencia Brasil

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Manual traz nova classificação de riscos de desastres em áreas urbanas

 
Publicação atualizada está disponível online e de forma gratuita

Após quase 20 anos, a publicação Mapeamento de Riscos: Conceitos e Métodos Aplicados a Processos Geológicos e Hidrológicos foi atualizada pela primeira vez. A ferramenta existe desde 2007 é a principal referência no país para gestão de risco em áreas urbanas.

Segundo o diretor do Departamento de Mitigação e Prevenção de Risco do Ministério das Cidades, Rodolfo Moura, o próprio uso do manual por técnicos, pesquisadores e gestores municipais apontou a necessidade de uma evolução de alguns conceitos, mas a urgência climática e a chegada de um super El Niño aceleraram o processo.

“A gente correu para antecipar o lançamento do livro entendendo que ele já pode ser um instrumento novo para identificar as áreas críticas, mas principalmente as pessoas que estão em situação de risco”, diz.

O manual atualizado está disponível online e de forma gratuita. Entre as mudanças em relação à versão anterior, a publicação trata de novos instrumentos tecnológicos para a gestão de risco e traz uma nova classificação, com foco nos riscos médio, alto e muito alto.

“Deixamos de lado outras classificações, porque se o risco é baixo ou inexistente não merece uma classificação”, explica Moura.

Novos conceitos foram abordados na versão atualizada como a delimitação de setores de risco hidrológico, como inundação, enchente e enxurrada, e também a descrição de processos erosivos, como rolamento de rochas e terras caídas – fenômeno que ocorre no Norte do país.

De acordo com Rodolfo Moura, a aplicação do manual permite que prefeituras façam o mapeamento das áreas de risco nos territórios e, a partir disso, elaborem seus planos municipais de redução de risco. Essas medidas podem retirar milhares de pessoas de zonas de risco de deslizamento, inundação e enxurrada no Brasil.

Em 2024, uma nota técnica publicada pela Casa Civil atualizou os números de municípios suscetíveis a deslizamentos de terras, alagamentos, enxurradas e inundações. São 1.942 cidades que expõem quase 9 milhões de brasileiros a esses desastres.

Segundo Moura, o caminho para enfrentar o desafio de tirar essas pessoas das áreas de risco é exatamente implementar o que o manual prevê, com ações de antecipação, identificação de riscos, fortalecimento da resiliência e adaptação das cidades.

“É por meio desse instrumento de mapeamento de risco, dos mapas, planos municipais de redução de risco, que municípios e os governos estaduais acessam recursos para essas obras”, destaca.

FONTE: Agencia Brasil

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Anvisa aprova novas canetas de semaglutida, incluindo a 1ª genérica

 
Substância se tornou conhecida como princípio ativo do ozempic

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou dois novos medicamentos injetáveis à base de semaglutida obtida por via sintética. Os registros foram publicados no Diário Oficial da União desta segunda-feira (17).

A semaglutida ficou conhecida por ser o princípio ativo das "canetas emagrecedoras" Ozempic e Wegovy, usadas no tratamento para a diabetes mellitus tipo 2. Médicos também receitam a substância para o controle da obesidade.

Em maio, a farmacêutica EMS obteve o primeiro registro de semaglutida sintética no país, no medicamento Ozivy. Agora, a EMS foi autorizada a comercializar o genérico do Ozivy, que poderá chegar ao mercado com preços mais baixos. Como se trata de um remédio genérico, no entanto, a nova caneta não pode ter nome comercial.

Medicamento similar

A Anvisa também aprovou um medicamento similar à base de semaglutida do laboratório Germed, vinculado à EMS. Neste caso, além do princípio ativo, a versão similar pode ter nome e características próprias, sem alterar o princípio ativo, além de embalagem e rotulagem diferentes do remédio de referência. Este produto será vendido como Semaclique.

O registro da agência reguladora reconhece o uso dos medicamentos aliado à dieta e aos exercícios físicos. Eles são administrados semanalmente e devem ficar armazenados em geladeira (em temperaturas de 2 °C a 8 °C) antes e depois de iniciado o tratamento.

A agência reforça ainda a necessidade do acompanhamento médico para o uso das canetas de semaglutida: "Como todos os medicamentos do tipo GLP-1, a semaglutida sintética está sujeita à prescrição de receita médica em duas vias".

Apresentações dos medicamentos aprovadas pela Anvisa

-Solução injetável de semaglutida 1,34 mg/mL em sistema de aplicação preenchido (multidose e descartável) com 1,5 ml + 1 caneta + 6 agulhas;

-Solução injetável de semaglutida 1,34 mg/mL em sistema de aplicação preenchido (multidose e descartável) com 3 ml + 2 canetas +10 agulhas;

-Solução injetável de semaglutida 1,34 mg/mL em sistema de aplicação preenchido (multidose e descartável) com 1,5 ml + 1 caneta + 4 agulhas;

-Solução injetável de semaglutida 1,34 mg/mL em sistema de aplicação preenchido (multidose e descartável) com 3 ml + 2 canetas + 8 agulhas.

FONTE: Agencia Brasil

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Brasileira defende mais influência dos jovens nas decisões da COP17

 
Beatriz Azevedo é reconhecida pela ONU por combate à desertificação

A participação de jovens nas conferências internacionais sobre meio ambiente avançou nos últimos anos, mas ainda há um desafio: fazer com que eles sejam efetivamente integrados aos espaços de decisão. A avaliação é da advogada cearense Beatriz Azevedo, de 33 anos, uma das dez jovens reconhecidas em 2024 como Land Heroes (heróis da terra, em inglês) pela Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD).

O título de Land Hero reconhece jovens e organizações de juventude que desenvolvem ações de enfrentamento à desertificação, à degradação da terra e à seca. A seleção busca dar visibilidade a agentes de mudança e aproximá-los dos processos da convenção.
Para Beatriz, existe uma expectativa de que os jovens sejam parte da solução para a crise ambiental e climática, mas não são oferecidos estrutura, financiamento e oportunidades profissionais proporcionais a essa cobrança.

Em entrevista à Agência Brasil, a advogada também fala sobre os desafios para transformar representatividade em influência política. Ela discute ainda o financiamento de iniciativas de restauração e as expectativas para a COP17 de Combate à Desertificação.

A conferência começou na última segunda (17) e segue até 28 de agosto, em Ulaanbaatar, na Mongólia, sob o tema “Restaurando a Terra. Restaurando a Esperança”.

Participam representantes de 197 países, além de cientistas, empresas, organizações da sociedade civil, povos indígenas, pastores, agricultores familiares e jovens para discutir restauração de terras, seca, segurança alimentar, financiamento e resiliência.

Beatriz também é presidente da Comissão de Direito Ambiental da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e fundadora da ABA Climate Solutions, uma empresa de consultoria especializada em financiamento climático.

A expectativa da ambientalista é de que a COP17 represente mais uma oportunidade para ampliar a visibilidade sobre problemas que atingem diretamente o Nordeste brasileiro. Enquanto as negociações climáticas costumam concentrar a atenção sobre a Amazônia, Beatriz avalia que a conferência sobre desertificação permite colocar a Caatinga e o Semiárido no centro das discussões.


Confira a entrevista de Beatriz Avezedo à Agência Brasil


Agência Brasil: Como representante brasileira do Land Hero, de que maneira você conecta as agendas da UNCCD com a realidade do Nordeste, região historicamente afetada pela seca e desertificação?

Beatriz Azevedo: Levamos a nossa realidade local para o espaço da ONU por conta dos acessos que nos são abertos. Estive em países como Arábia Saudita, China e Panamá, onde tive espaços de fala para compartilhar a realidade do Ceará e as soluções com as quais venho trabalhando. Já são 14 anos nessa trajetória, então cheguei a um ponto em que quero focar nas soluções, nas ecologias e projetos que funcionam.

A convenção aborda muito a perspectiva de conter e compensar a degradação, tanto pela conservação quanto pela restauração. Hoje, minha empresa está em processo para entrar na coalizão Business4Land, coalizão de empresas que promovem negócios ligados à terra.

Muitos jovens premiados atuam diretamente na ponta. Uma amiga tem um projeto de restauração com moringa na África. Outro colega atua com agricultores na Índia. A minha iniciativa atua no meio do processo: conectando financiadores às iniciativas. Eu foco no debate sobre financiamento e políticas públicas, além de acompanhar a implementação de políticas estaduais no Conselho Estadual do Meio Ambiente. O objetivo é sempre integrar o contexto local ao internacional.

Agência Brasil: Você tem participado há anos de diferentes conferências da ONU. Como avalia a participação da juventude nos espaços de decisão?

Beatriz Azevedo: A participação avançou bastante. Na primeira COP da Desertificação que fui, em 2013, não havia espaço para a juventude. Hoje, temos o Youth Forum, programas como o Land Heroes, o Ecopreneur (para empreendedores verdes) e o Youth Negotiators, que treina jovens negociadores. Em termos de participação e presença, demos um salto de qualidade.

O desafio atual é como fazer com que as contribuições dos jovens sejam de fato incorporadas nas decisões finais que são tomadas pelos países. Para isso, os jovens precisam atuar diretamente com seus governos nacionais.

O governo brasileiro historicamente se mostra muito aberto a esse diálogo com o Itamaraty e com os ministérios, o que é fundamental para fundamentar as posições do país.

Agência Brasil: Por que é necessária uma participação específica da juventude nesses debates ambientais e quais são as principais demandas que ela apresenta?

Beatriz Azevedo: Há um debate muito forte sobre justiça climática e representatividade das diferentes juventudes existentes. Os jovens se caracterizam por colocar a "mão na massa", com muita energia, e por apresentar projetos de grande impacto direto na ponta.

Por outro lado, a juventude é a geração que está sendo preparada para tomar decisões e liderar em um cenário de "novo normal", marcado pela crise climática e por fenômenos mais severos, como o El Niño.

Uma juventude consciente da ciência e dos processos de tomada de decisão está muito mais bem preparada. Além disso, esses espaços promovem a articulação em rede com o governo e a sociedade civil, fortalecendo a formação das lideranças.

Agência Brasil: Quais são suas principais expectativas em relação às pautas que precisam avançar nesta COP da Desertificação?

Beatriz Azevedo: Vejo que o governo brasileiro tem enfatizado a bioeconomia, a ideia de que a restauração da terra deve caminhar junto com benefícios socioeconômicos, como geração de emprego e renda.

Na minha empresa, discutimos projetos nessa linha. Por exemplo, a cultura da macaúba para a produção do combustível sustentável de aviação (SAF) pode ser associada a projetos de restauração. Outra frente são os projetos de restauração financiados pelo mercado de carbono.

Precisamos de decisões que promovam ações sustentáveis do ponto de vista econômico, ambiental e social. Não se pode exigir a conservação sem oferecer meios de subsistência para quem cuida do território.

É claro que isso deve caminhar lado a lado com a demarcação de terras indígenas e a garantia de direitos. O caminho é viabilizar o financiamento justo para que chegue aos assentamentos rurais e comunidades locais, promovendo a repartição de benefícios.

Agência Brasil: A COP da Desertificação costuma receber menos atenção do público do que as COPs do Clima e da Biodiversidade. Como você avalia essa diferença e a possibilidade de torná-la mais conhecida?

Beatriz Azevedo: Ela é de fato menos conhecida. A do Clima vem em primeiro lugar, seguida pela de Biodiversidade e, por fim, a de Desertificação, até por ser um tema muito associado a regiões específicas, como o semiárido nordestino no Brasil.

Porém, vejo isso como uma oportunidade. Enquanto na COP do Clima a atenção internacional sobre o Brasil se volta prioritariamente para a Amazônia, a COP de Desertificação dá visibilidade para a Caatinga e o Semiárido. É um espaço valioso para o Nordeste pautar suas demandas diretamente com o governo e outros países.

Agência Brasil: Muitos jovens ativistas relatam uma sensação de sobrecarga e ansiedade. Como você vê esse cenário de pressão sobre os jovens por mais engajamento e resultados, enquanto precisam lidar com notícias frequentes sobre emergência climática, degradação ambiental e incertezas sobre o futuro da humanidade?

Beatriz Azevedo: Essa reflexão é muito válida. Entre 2016 e 2021, eu me afastei do processo da ONU justamente por me sentir sobrecarregada ao participar das conferências, mas não ver as coisas mudarem no ritmo necessário. Decidi, então, focar no trabalho local.

Existe uma narrativa forte de que "o jovem é a solução", mas há pouca estrutura e financiamento dedicados a isso. O trabalho no terceiro setor muitas vezes é instável, apoia-se excessivamente no trabalho voluntário e oferece remunerações precárias. O ativismo abre portas e dá visibilidade, mas nem sempre se traduz em emprego e renda imediatos.

Esse cenário impacta a saúde mental. Quando retornei para o espaço internacional, mudei meu foco para o financiamento, pois entendi que esse era o principal gargalo: como fazer os recursos chegarem a quem executa.

Agência Brasil: Qual mensagem você deixaria para os jovens que desejam se engajar na pauta ambiental?

Beatriz Azevedo: Gostaria de deixar uma mensagem de esperança e incentivo. Embora o tema pareça por vezes pesado, trabalhar com a agenda ambiental é uma oportunidade de atuar alinhado aos seus propósitos e gerar um impacto positivo na sociedade por meio de novas soluções, tecnologias e projetos. Vale a pena seguir esse caminho profissional e de vida.

FONTE: Agencia Brasil

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

COP17 começa na Mongólia com foco em seca, terra e financiamento

 
Países buscam destravar acordos e avançar em soluções concretas

Começou nesta segunda-feira (17), em Ulaanbaatar, na Mongólia, a 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17). Até o dia 28 de agosto, representantes de 196 países e da União Europeia buscarão soluções para desafios que afetam a vida de todos: combater a seca, restaurar ecossistemas, garantir acesso universal à água e aos alimentos, valorizar povos e territórios tradicionais.

A terra é o elemento que une todas as discussões. Em torno dela, giram as negociações entre representantes dos governos e da sociedade civil. O evento deste ano traz expectativas por ações mais concretas de proteção da terra e também carrega a missão de resolver pendências deixadas pela última conferência, a COP16, em Riad, na Arábia Saudita, em 2024.

A principal questão envolve avançar na criação de um novo instrumento internacional para fortalecer a governança sobre secas, tema sobre o qual não se teve acordo em Riad.

Outro ponto central são as metas de Neutralidade da Degradação da Terra (LDN, na sigla em inglês). A previsão é que os países participantes apresentem relatórios sobre como têm agido para garantir que a quantidade e a qualidade dos recursos vindos da terra se mantenham estáveis ou avancem.

Chão rachado devido ao nível baixo do rio Igarapé Tarumã-açu, na maior seca em 121 anos que Manaus sofreu em 2023. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

A ampliação do financiamento global para combater a degradação da terra; o fortalecimento das novas estruturas de participação social ,como grupos de gênero, juventude e povos indígenas; e a maior articulação entre as três convenções ambientais da ONU, a do clima, a da biodiversidade e a da desertificação, completam a lista de demandas principais.
A secretária-executiva da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD, na sigla em inglês), Yasmine Fouad, disse à Agência Brasil que espera resultados concretos na COP17

"Há um reconhecimento crescente entre as Partes de que terras saudáveis ​​são a base para a segurança alimentar e hídrica, a resiliência econômica e o desenvolvimento sustentável", disse Fouad.

"A COP17 oferece uma oportunidade não apenas de avançar nas negociações, mas também de demonstrar que a Convenção está se tornando, cada vez mais, uma plataforma para a entrega de soluções práticas e resultados mensuráveis", complementou.

A conferência também terá o lançamento de novos relatórios globais como o The Drying Planet – Drought in Numbers 2026 (O Planeta que Seca – A Seca em Números), a terceira edição do Global Land Outlook 3 (Perspectiva Global da Terra) e o primeiro Índice Mundial de Resiliência à Seca.

Nordeste é região mais afetada pelos processos de seca e desertificação. Crédito: ASA / Divulgação

Regime global das secas

A COP de Combate à Desertificação também ainda precisa firmar um mecanismo político de peso equivalente ao das outras conferências globais pelo meio ambiente ─ a Convenção do Clima conta com o Acordo de Paris, que orienta o combate ao aquecimento global, e a Convenção da Biodiversidade tem o Marco Global Kunming-Montreal, para deter e reverter perdas da natureza.

O que mais se aproxima disso é a proposta de criar um instrumento global de combate às secas. Ele foi defendido em 2024, por países africanos, que esperavam um protocolo juridicamente vinculante, ou seja, com obrigações legais de cumprimento pelos governos. Não houve consenso por causa da resistência de alguns países desenvolvidos, que queriam algo menos rígido.

Segundo a secretária-executiva Yasmine Fouad, há motivos para otimismo nesta nova rodada de negociações. Segundo ela, desde 2013, o número de países com planos nacionais de seca passou de apenas alguns para mais de 70.

"Embora continuem avançando as discussões sobre a governança da seca, a COP17 coloca ênfase especial na implementação. Espera-se que a conferência fortaleça as ferramentas práticas, os mecanismos de financiamento e as parcerias necessárias para transformar planos de combate à seca em ações concretas", diz Fouad.



Caatinga, principal bioma brasileiro ameaçado pela desertificação no Brasil. Crédito: ASA / Divulgação.

Financiamento

A diretora-gerente do Mecanismo Global da UNCCD, Louise Baker, aponta o financiamento como um dos principais desafios da conferência. Segundo ela, seriam necessários cerca de US$ 1 bilhão por dia até 2030 para alcançar os objetivos da Convenção de proteção da terra.

"O investimento atual fica muito aquém desse patamar. O financiamento público desempenha um papel essencial na redução de riscos e na viabilização de fluxos muito maiores de investimento privado. É por isso que o financiamento é um foco central na COP17", disse Baker.

Para a executiva, uma das estratégias para ampliar os recursos é aproximar o setor privado da agenda de combate à degradação da terra. Segundo ela, empresas dos setores de alimentos e bebidas, moda, farmacêutico e cosméticos dependem diretamente de matérias-primas produzidas em áreas saudáveis e, por isso, passam a ter interesse econômico na conservação e restauração.


"Cada dólar investido na restauração de terras pode gerar entre sete e 30 dólares em benefícios econômicos, tornando-a um dos investimentos de maior retorno disponíveis", afirma.

"As discussões explorarão como o financiamento misto, as garantias e outros instrumentos podem reduzir os riscos de investimento, juntamente com abordagens comuns de valoração da natureza que podem ajudar governos, bancos de desenvolvimento e investidores privados a canalizar mais capital para a restauração de terras e a resiliência à seca", complementa.


Rio seco no Semiárido Nordestino. Crédito: ASA / Divulgação

Neutralidade da Degradação da Terra

Mais de 130 países já adotaram metas voluntárias de Neutralidade da Degradação da Terra (LDN, na sigla em inglês), que buscam equilibrar a degradação e a restauração do solo, para que a quantidade de terras saudáveis e produtivas se mantenha estável ou aumente. A estratégia segue uma hierarquia: evitar, reduzir e reverter a degradação.

Segundo a secretária-executiva Yasmine Fouad, as metas não podem ser vistas apenas como soluções para o meio ambiente, mas também como investimentos em economias resilientes, sistemas alimentares mais robustos e um futuro mais seguro para comunidades em todo o mundo.


"Até 2050, a agricultura precisará produzir pelo menos 50% mais alimentos, mesmo enquanto o mundo continua perdendo cerca de 100 milhões de hectares de terras saudáveis ​​e produtivas a cada ano — uma área ligeiramente maior que o estado de Mato Grosso", disse Fouad.

"Visto que as terras agrícolas representam cerca de 60% das terras degradadas em nível global, melhorar a forma como são manejadas é fundamental para alcançar a Neutralidade da Degradação da Terra", complementou.



Queimadas em área de cerrado do município de Alto Paraíso . Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O governo brasileiro deve apresentar à comunidade internacional seu primeiro conjunto de metas da LDN.

Segundo o diretor do Departamento de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca (DCDE) no Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), Alexandre Pires, um levantamento realizado em parceria entre órgãos do governo e instituições de pesquisa identificou cerca de 55 milhões de hectares de terras em processo de degradação em 2020.

"O Brasil tem uma contribuição muito grande em iniciativas para evitar, reduzir ou reverter a degradação. Entre elas, estão políticas de conservação de unidades de conservação, de garantia de direitos territoriais de povos indígenas e comunidades tradicionais", diz o diretor. "Vamos apontar várias outras iniciativas que estão vinculadas ao conceito de restauração, para que possamos contribuir globalmente com as metas".

Participação

Além das negociações multilaterais, a programação oficial prevê debates sobre restauração de áreas de pastagens, segurança hídrica, sistemas alimentares, saúde dos solos e resiliência à seca, além de fóruns voltados a povos indígenas, comunidades locais, juventude, setor privado e pastoralistas.

Durante a COP16, em 2024, foi aprovada uma proposta brasileira para a criação do "Caucus Indígena e de Comunidades Tradicionais". Caucus são espaços oficiais de articulação política e troca de experiências dentro da convenção. Na Mongólia, portanto, será a primeira vez que os indígenas terão esse lugar de destaque na agenda oficial.

O diretor Alexandre Pires vê isso como um dos grandes avanços do evento.

"São os povos indígenas e comunidades tradicionais que estão nos territórios semiáridos sendo afetados pela degradação da terra, pela desertificação e pelas secas. Eles precisam ter voz dentro da Convenção", diz Pires.

Cobertura na Mongólia

A partir desta semana, a Agência Brasil acompanha a COP17 da Desertificação diretamente da Mongólia. A viagem é uma parceria com a UNCCD, que selecionou seis repórteres de diferentes continentes com uma bolsa de jornalismo para cobrir o evento.

FONTE: Agencia Brasil

domingo, 16 de agosto de 2026

Desertificação no Brasil ameaça segurança hídrica e alimentar

 
Brasil participará de conferência global na Mongólia sobre o tema

Cerca de 39 milhões de brasileiros vivem em locais ameaçados pela desertificação. Entre eles, estão sertanejos, agricultores, povos indígenas, quilombolas, geraizeiros, pantaneiros e pampeiros.

O termo pode causar estranhamento, já que o país não possui desertos como o Atacama, no Chile, e o Saara, no norte da África. Lugares onde o clima seco e a escassez de água são extremos.

Desertificação, porém, é um termo mais amplo, que indica o processo de degradação ambiental em que uma terra antes produtiva perde sua capacidade de reter água e sustentar vida. Isso ocorre principalmente por atividades humanas, como desmatamento e agricultura inadequada, e também por variações climáticas. Quanto mais avançado o processo, maior o risco de uma região virar um deserto.

Cerca de 18% do território brasileiro é composto por Áreas Suscetíveis à Desertificação (ASD), segundo o boletim mais recente da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene).

Obstáculos e soluções para o problema estão na pauta de representantes da sociedade civil e de órgãos governamentais do Brasil que participarão da 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17), na Mongólia, entre os dias 17 e 28 de agosto.

A coordenadora executiva da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), Ivi Aliana, destaca que o problema atinge principalmente populações vulneráveis e comunidades tradicionais.

“Elas são as primeiras a sentir os efeitos, porque lidam diretamente com os impactos na água e na biodiversidade no território”, diz Ivi.

Ela reforça, porém, que a degradação da terra não é um problema exclusivo de quem vive nela.

“Parece um problema distante para alguns, mas a desertificação afeta a produção de alimentos, a segurança hídrica, a economia, influencia no aumento do calor. E tudo isso vai além das áreas degradadas. Tem impactos tanto no campo quanto nas cidades brasileiras”, explica.

O agricultor familiar Orlando Alves da Silva observa uma das nascentes do Rio das Balsas seca, em Limpeza, nos Gerais de Balsas, no Maranhão. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Dados nacionais

Entre os anos de 2000 e 2020, a área afetada pela desertificação no Brasil passou de 1,35 milhão para 1,51 milhão de quilômetros quadrados, um aumento de 170 mil km², que equivale à soma dos territórios de Pernambuco, Paraíba e Alagoas.

O fenômeno atinge principalmente os nove estados do Nordeste, mas chega também ao norte de Minas Gerais e ao do Espírito Santo, ao nordeste do Rio de Janeiro e ao noroeste do Mato Grosso do Sul.

Nestas áreas, há três tipos de clima: subúmido seco, semiárido e árido. Eles são classificados de acordo com a quantidade de chuva e a evaporação da água, por meio do índice de aridez.

O subúmido seco tem índice de aridez entre 0,50 até 0,65; o semiárido, entre 0,2 e 0,5; e o árido, entre 0,05 e 0,2. Quando o número fica abaixo de 0,05 tem-se o clima dos desertos, o hiperárido, que ainda não existe no Brasil.

A primeira região árida do país foi identificada recentemente, em 2023, e abrange 6 mil km² entre Pernambuco e Bahia. A análise foi publicada pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).




Mapa comparativo da evolução da desertificação no Brasil. Crédito: Rodrigo Cunha / Revista Fapesp

Caatinga

Dos seis biomas brasileiros, a Caatinga é a que concentra os níveis mais graves de deterioração do solo: 11% dela está em situação crítica e severa, o que equivale a 100 mil km2. Cerca de 42,6% de sua vegetação nativa já foi suprimida.

Proteger a Caatinga é fundamental para a biodiversidade, as pessoas que vivem nela e o clima, explica o pesquisador do Instituto Nacional do Semiárido (Insa) Aldrin Martin Pérez-Marín, que também coordena o Observatório da Caatinga e da Desertificação (OCA).

O bioma é monitorado continuamente pelo órgão, em parceria com mais de 30 universidades e instituições nordestinas. Um levantamento conjunto mostrou que a Caatinga aproveita o carbono com uma eficiência de 58%, maior que a de todos os outros biomas brasileiros. Essa contribuição é fundamental na luta contra o aquecimento global, já que o excesso de carbono na atmosfera retém calor e intensifica o efeito estufa.

“O mais surpreendente está debaixo da terra: 72% de todo esse carbono fica armazenado no solo, cerca de 125 toneladas por hectare, o que faz dela não só um sumidouro ativo, mas um enorme cofre natural de longo prazo. É essa resiliência que explica o seu protagonismo: ela sabe guardar vida e equilibrar o clima mesmo nos cenários mais áridos”, diz Aldrin.




Cactos típicos da Caatinga, bioma no Semiárido Nordestino. Crédito: ASA / Divulgação

Um estudo publicado na revista Science of the Total Environment, em 2025, confirmou esse protagonismo. Só em 2022, a Caatinga foi responsável por cerca de 50% de todo o sequestro líquido de carbono do Brasil, compensando parte significativa das emissões nacionais de gases de efeito estufa.

O pesquisador do Insa alerta que o Brasil precisa brigar para que a Caatinga seja citada explicitamente no texto científico que será negociado durante a COP17. Caso isso não ocorra, o semiárido tropical ficaria fora do radar científico oficial da Convenção até 2030.

“A Caatinga não é o problema. Ela é parte da solução, para o Brasil e para o planeta. Diante da crise climática, a escolha é por territórios vivos: gente de pé, Caatinga em pé e futuro em pé”, diz Aldrin.

Políticas públicas

O Brasil se tornou signatário da Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação (UNCCD) em 1997, o que significou assumir acordos para prevenir e reverter os efeitos da degradação da terra.

Em março de 2026, foi lançado oficialmente o Plano de Ação Brasileiro de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca (PAB-Brasil 2025–2043). O plano prevê o enfrentamento da desertificação como política pública que articula meio ambiente, educação, saúde, assistência social, infraestrutura, acesso à água, inclusão produtiva e inovação tecnológica.

Outra iniciativa, lançada em junho deste ano, foi o Programa Recaatingar. O biólogo Alexandre Pires, diretor do Departamento de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca (DCDE), vinculado ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, explica que a meta é a recuperação produtiva de 10 milhões de hectares de terras degradadas do bioma nos próximos 20 anos.




Desertificação no Brasil ameaça água, alimento, clima e biodiversidade - ASA / Divulgação

O foco é promover segurança hídrica, restauração socioprodutiva e adaptação às mudanças climáticas, com base no conhecimento tradicional das comunidades locais.

“O recaatingamento é uma metodologia que envolve desde a questão física do solo e da agronomia até o trabalho com as comunidades tradicionais, o modo de vida e a forma como elas manejam essa biodiversidade. A gente se inspirou nessas tecnologias sociais de convivência com o semiárido para criar o programa”, explica Alexandre.


“Recuperar o solo degradado é um caminho estratégico para garantir trabalho, emprego e renda, ao mesmo tempo em que promove um serviço que ajuda a humanidade a enfrentar os desastres climáticos. É preciso olhar para a potência e a capacidade de resiliência desses territórios”, complementa.

O pesquisador do Insa, Aldrin Martin Pérez-Marín, atesta a efetividade do recaatingamento. Ele diz que, mesmo antes do programa, a tecnologia social já produziu 36 mil hectares em conservação, 2 mil hectares em recuperação ativa, 15 sistemas de agrocaatinga, 31 planos de manejo implementados e mais de 280 enxames de abelhas nativas de volta à paisagem.

“O manejo agrossilvipastoril da Caatinga consegue quadruplicar a oferta de forragem sem derrubar o bioma. Os sistemas agroflorestais elevaram a biomassa em torno de 85% e chegam a segurar 100 toneladas de solo por hectare a cada ano contra a erosão”, diz Aldrin. “A rotação de culturas e as barragens subterrâneas devolvem água, carbono e fertilidade a esse cofre subterrâneo”.

Perspectivas e soluções

A Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA), formada por mais de 3 mil organizações da sociedade civil, atua há mais de 25 anos na promoção de soluções e tecnologias que ajudam as comunidades impactadas pela desertificação.

Um dos principais exemplos de atuação da ASA é no desenvolvimento de programas de captação de água da chuva. Parte deles foca na construção de cisternas e pequenas barragens para garantir que famílias tenham acesso à água potável, além de garantir água para produção de alimentos e consumo dos animais.




Cisterna construída com ajuda da ASA para garantir que famílias tenham acesso à água potável. Crédito: ASA / Divulgação

Outras iniciativas são focadas no fortalecimento de sementes adaptadas ao clima da Caatinga e técnicas agrícolas que respeitam a biodiversidade do bioma.


“Não vai ser helicóptero jogando sementes em um território desabitado que vai recuperar essa área. O combate à desertificação passa pela agricultura familiar, pela agroecologia e pelas pessoas vivendo e cuidando desses territórios”, diz Ivi Aliana, coordenadora do ASA.

Cobertura da COP17

A Agência Brasil vai acompanhar as duas semanas da COP17 da Desertificação diretamente da Mongólia. A viagem é uma parceria com a UNCCD, que selecionou seis repórteres de diferentes continentes com uma bolsa de jornalismo para cobrir o evento.

Nos próximos dias, a Agência Brasil publica uma série de matérias com informações sobre a conferência e como os temas debatidos nela afetam o Brasil.


FONTE: Agencia Brasil



Paisagem campestre na Mongólia, sede da COP17 da Desertificação. Crédito: Divulgação UNCCD