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quarta-feira, 15 de julho de 2026

Crianças são mais vulneráveis a envenenamento por picada de escorpião

 

Casos recorrentes de envenenamento sistêmico grave por peçonha de escorpião, como o da menina Valentina Nobre Lima, de 11 anos, que morreu após ser picada ao calçar o sapato no Distrito Federal, chamam a atenção para a vulnerabilidade de crianças.

Após o acidente, a família procurou o Corpo de Bombeiros, mas só teve acesso ao soro antiescorpiônico em um hospital regional. De lá, a criança foi encaminhada para uma unidade de terapia intensiva (UTI). Valentina foi intubada e permaneceu em coma induzido por 24 dias. Ela faleceu no último domingo (5).

No Brasil há mais de 170 espécies de escorpião e os efeitos das picadas podem ser mais ou menos perigosos, conforme a espécie e quem recebe o veneno. O escorpião-amarelo, com ampla distribuição em todas as macrorregiões do Brasil, é o responsável pelos acidentes mais graves.

Segundo Joelma Gonçalves Martin, especialista da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), as crianças são mais vulneráveis à substância injetada pelo escorpião, por serem menores, com menos massa corporal que um adulto.

“É um veneno extremamente agressivo. A criança é picada, recebe a mesma quantidade de veneno que um adulto receberia, mas nela o veneno se distribui por um organismo que tem um peso corporal menor. Então isso vai resultar numa dose de toxina por quilo de peso maior nas crianças, do que no adulto”, explica a pediatra.

Sintomas

De acordo com Joelma, o veneno do escorpião possui toxinas que atuam no sistema nervoso, causando diferentes sintomas que afetam principalmente o coração e o sistema neurológico.

“Essas substâncias podem causar ataque cardíaco importante, podem levar à hipertensão, levar à edema agudo de pulmão. E, no caso do coraçãozinho da criança e do sistema nervoso isso é mais intenso, já que as crianças têm menor reserva fisiológica para suportar essas alterações”, diz.

De acordo com a pediatra, o agravamento do quadro logo apresenta outros sinais como taquicardia, sudorese, sinais de pressão alta, de pressão baixa, convulsão, agitação psicomotora, sonolência, falta de resposta neurológica, bradicardia (batimentos lentos), dor abdominal e falta de ar.

“A intensidade dos sintomas da picada do escorpião vai depender, claro, da quantidade de veneno que foi inoculada e da idade do paciente, sendo que as crianças têm sintomatologia mais grave”, reforça Joelma Martin.

Atendimento

Os sinais da picada na pele são pouco visíveis, mas a dor intensa é um forte sinal de que a picada existiu e que é necessário rapidez na resposta médica especialmente de crianças, idosos e pessoas imunodeprimidas.

“É muito importante que nós tenhamos nos municípios um mapeamento de onde é o serviço mais próximo que tenha o soro antiescorpiônico, para que os pacientes possam ser imediatamente encaminhados para lá, porque efetivamente o tempo de recebimento deste soro é responsável pela melhor resposta”, explica a pediatra.

De acordo com informações divulgadas pelo Centro de Informação e Assistência Toxicológica o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU 192) ou o Corpo de Bombeiros (193) podem ser acionados para transportar o paciente até os hospitais de referência para soroterapia de acidentes por animais peçonhentos.

Cada Secretaria Estadual de Saúde é responsável por manter atualizada a lista desses hospitais.

Segundo Joelma Martin é importante ter essa informação antes mesmo do acidente acontecer, para evitar perder tempo na busca por outros serviços de saúde que não possuam o soro antiescorpiônico.

“Higienizar o local [da picada]. Eventualmente, pode dar um remédio com analgésico via oral, que costuma ser pouco eficaz, mas é para minimizar um pouquinho a dor. Levantar o membro [que recebeu a picada], também pode ser complementos do tratamento importantes, mas que não devem atrasar o encaminhamento ao hospital”, diz a pediatra.

Prevenção

Como as crianças são mais vulneráveis aos casos graves de envenenamento, é necessário redobrar a prevenção entre elas.

“Orientar as crianças a chacoalhar os sapatinhos que estão ali debaixo da cama, as roupas que estão paradas há muito tempo, não irem brincar em lugares com muitos buracos na parede, com muitos resíduos, acúmulos de material de construção, trilhos de trem. Essas coisas todas retém ou escondem o escorpião”, destaca Joelma.

O manual do Ministério da Saúde que trata de acidentes por escorpiões, alerta que a limpeza de ambientes é fundamental para evitar a presença de insetos que sirvam de alimento ao escorpião. O uso de soleiras, telas e vedações de ralos, pias em taque fora de uso também são barreiras.

Afastar camas e berços das paredes e evitar que roupas de cama, mosquiteiro e outros tipos de panos encostem no chão, para evitar a subida do escorpião. E quando identificar a sua presença, comunicar a vigilância ambiental.

“Gostaria de enfatizar que os escorpiões se multiplicam por partenogênese, portanto eles têm os filhotinhos sozinhos mesmo. Quando uma pessoa encontra um escorpião, em geral, existe uma família deles por perto”, conclui a pediatra.

FONTE: Agencia Brasil

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Escorpiões causaram 65% dos acidentes com animais peçonhentos no Brasil em 2025

 

Número de mortes dobrou em relação ao ano anterior; falta de saneamento básico e demora no atendimento às vítimas aumenta chances de picada e risco de morte


O Brasil registrou 225.695 casos de picadas por escorpiões em 2025. Segundo dados do Painel Epidemiológico do Ministério da Saúde*, o aracnídeo foi responsável por mais de 65% dos acidentes com animais peçonhentos (serpentes, aranhas, lagartas, escorpiões e abelhas) registrados no período. Embora a maioria das ocorrências sejam leves (89%), as crianças são a população mais vulnerável: dos 265 óbitos registrados em decorrência do envenenamento – o dobro do ano anterior –, mais de 20% envolveram menores de 10 anos.

Os números também revelam que as pessoas que se autodeclaram pardas foram as vítimas em 55% dos casos e em 62% das mortes, refletindo as desigualdades que atingem esse público. Segundo dados do Painel Cor ou Raça no Brasil do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 56,8% da população parda e 16,1% da população preta vivem em favelas e comunidades urbanas.



Esse fator é relevante porque a ausência de infraestrutura é um dos pontos determinantes para a proliferação de escorpiões no meio urbano, zona que concentra mais de 66% dos acidentes. O aracnídeo costuma ser encontrado em redes de águas pluviais e esgotos, ambientes propícios à multiplicação de baratas – seu principal alimento. Além disso, o acúmulo de lixo e entulhos complementa o cenário de risco.

No Brasil, o escorpião-amarelo (Tityus serrulatus) é o responsável pela maioria dos casos graves de envenenamento. Isso acontece devido, principalmente, à sua fácil capacidade de adaptação a ambientes antropizados (ou seja, que foram significativamente alterados pela ação humana). Outro detalhe é que as fêmeas da espécie conseguem se reproduzir sozinhas, sem necessidade de acasalamento com um macho, por conta de um fenômeno conhecido como partenogênese – o que ajuda a explicar a rápida disseminação do animal.

Perfil das vítimas e distribuição dos acidentes

Em 2025, 51% das notificações envolveram pessoas do sexo feminino e 49% do sexo masculino. Entre as faixas etárias, destacam-se os adultos entre 20 e 29 anos, que somaram quase 34 mil registros ao longo do ano passado.

A mão e os dedos costumam ser as partes do corpo mais atingidas (41,26%), seguidos pelas pernas, pés e dedos dos pés (36,9%). Geralmente, os acidentes ocorrem durante a execução de atividades domésticas ou o manuseio de objetos em quintais e depósitos, o que reforça a importância do uso de equipamentos de proteção individual, como luvas grossas e calçados fechados.

Em relação à localidade, há uma forte concentração de casos no Sudeste e no Nordeste, que juntos são responsáveis por mais de 83% das notificações. Considerando os números absolutos, São Paulo e Minas Gerais lideram o ranking nacional, com 50.178 e 42.635 notificações, respectivamente.

No entanto, o maior impacto proporcional é em Alagoas, onde o coeficiente de incidência ultrapassa os 440 acidentes por 100 mil habitantes — parte desse número pode ser atribuída à ampla presença do escorpião-do-nordeste (Tityus stigmurus) na área.

Como agir em caso de picada por escorpião

O primeiro passo é procurar atendimento médico imediatamente após o acidente, mesmo que os sintomas iniciais pareçam leves, uma vez que os dados apontam que o tempo entre a picada e o atendimento médico é fator determinante para o desfecho clínico. A taxa de letalidade salta de 0,10 entre os pacientes atendidos na primeira hora, para 0,13 entre os que demoraram de uma a três horas para receber o socorro.

Também não se deve aplicar nenhum tipo de produto, nem realizar torniquete ou compressa de gelo no local, uma vez que o frio pode potencializar a sensação de dor. A recomendação é lavar o local com água e sabão e, se possível, aquecer a região com compressas mornas, que ajudam a aliviar o desconforto.

Apesar do grande número de picadas que ocorreram em 2025 no Brasil, pouco menos de cerca de 5% dos acidentados precisaram receber o soro antiescorpiônico ou o soro antiaracnídico – ambos podem ser utilizados para o tratamento de quadros moderados ou graves de envenenamento causado por escorpiões do gênero Tityus. Produzidos pelo Instituto Butantan, os antivenenos são disponibilizados gratuitamente à população por meio do Sistema Único de Saúde (SUS).

* Dados coletados em 27/3/2026
FONTE: Instituto Butantan
Esta matéria foi validada pela bióloga e assistente técnica de apoio à pesquisa do Biotério de Artrópodes do Instituto Butantan Denise Candido.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Por que os acidentes por picada de escorpião aumentaram tanto na última década?

 

Artrópode se adapta facilmente a espaços alterados pela ação humana; espécies naturais de outros países da América do Sul já são encontradas em estados brasileiros


O Brasil observou um salto expressivo nos acidentes provocados por picadas de escorpião nos últimos dez anos. Segundo dados do Ministério da Saúde, as notificações passaram de cerca de 85 mil em 2015 para mais de 200 mil em 2023, ano recorde da série histórica – um aumento de 230% quando comparado ao período de 2005 a 2015.

A bióloga e assistente técnica de apoio à pesquisa do Biotério de Artrópodes do Instituto Butantan Denise Candido explica que o crescimento substancial está relacionado à interação de diversos fatores. Entre eles estão a urbanização acelerada, os impactos das mudanças climáticas e a consequente perda de biodiversidade, além das próprias características biológicas do animal.

O cenário consolida o escorpionismo como um relevante problema de saúde pública no país e, também, revela um quadro de desequilíbrios e transformações ambientais.

Cidades em expansão

O avanço desordenado das cidades sobre áreas naturais muitas vezes vem atrelado a lacunas de infraestrutura, como falta de saneamento básico e acúmulo de lixo. Tudo isso contribui para que os novos ambientes urbanos se tornem ideais para a proliferação de espécies oportunistas, devido à abundância de baratas – principal presa do artrópode – e à disponibilidade de abrigo.

“Existe uma dinâmica muito particular, pois ao mesmo tempo em que o ser humano invade o habitat natural do escorpião, ele cria as condições ideais para que o animal se prolifere”, afirma Denise Candido.

Em São Paulo, por exemplo, tal processo favoreceu a alteração da espécie predominante em diversas regiões do estado – o que pode ter contribuído para o aumento dos acidentes. Antes amplamente distribuído em ambientes de mata úmida, o escorpião-marrom (Tityus bahiensis), perdeu espaço para o escorpião-amarelo (Tityus serrulatus), uma vez que o último se adapta melhor a ambientes alterados pela ação humana.

Outro fator que colabora para o aumento do T. serrulatus em áreas urbanas é a sua capacidade de reprodução por partenogênese. Nesse processo, as fêmeas da espécie são capazes de gerar descendentes sem necessidade de acasalamento com o macho. “Na prática, isso significa que um único indivíduo pode dar origem a toda uma população, desde que encontre alimento, abrigo e água – itens geralmente abundantes nas grandes cidades”, observa a bióloga.

A especialista também ressalta o papel-chave das redes subterrâneas de água e esgoto na dispersão do animal em grandes centros, uma vez que as galerias oferecem acesso a diferentes pontos de uma cidade e proporcionam condições ideais de abrigo e alimentação.

Aquecimento global, desmatamento e adaptação

O calor também é um fator relevante na dinâmica com o artrópode. Afinal, é durante o período de altas temperaturas que eles ficam mais ativos, locomovendo-se com frequência em busca de alimentos e intensificando sua capacidade de replicação por meio da partenogênese. Não à toa, os registros de acidentes por picada de escorpião aumentam sensivelmente a partir do mês de outubro todos os anos.

A Organização das Nações Unidas (ONU) já afirma que o aquecimento global deverá atingir cerca de 3,2°C até o final do século. Com os períodos de calor tornando-se cada vez mais longos e intensos, os encontros entre humanos e o animal tendem a se tornar ainda mais frequentes – assim como as chances de picada.

Além disso, o aumento das áreas desmatadas tem contribuído para que outras espécies de escorpião cheguem a áreas de maior densidade demográfica. Na região Norte do país, por exemplo, o escorpião-preto-da-amazônia (Tityus obscurus) e o escorpião-preto (Tityus metuendus), antes restritos a ambientes de floresta úmida, estão sendo encontrados com frequência em residências localizadas em Manaus e em outros municípios vizinhos.

Já o escorpião-do-nordeste (Tityus stigmurus), natural da região, hoje ocupa diferentes estados do Sul e Sudeste. Assim como o escorpião-amarelo, a espécie se reproduz por partenogênese e é altamente adaptável a ambientes urbanos, sendo também uma das principais causadoras de acidentes no país.

“No Centro-Oeste e no Sudeste, temos registros crescentes de espécies consideradas de interesse médico na Argentina, como o Tityus confluens e o Tityus trivittatus, indicando um possível processo de adaptação ecológica em curso”, ressalta Denise Candido.


Escorpiões típicos de regiões quentes já são encontrados no Sul do Brasil, mostra pesquisa do Butantan


A facilidade com que o animal se estabelece em ambientes modificados é consequência direta de sua biologia. Presentes no planeta Terra há cerca de 450 milhões de anos, os escorpiões desenvolveram uma série de mecanismos para sua proteção: são capazes de “bloquear” seu sistema respiratório para evitar intoxicação, suportam longos períodos submersos na água e até detectam vibrações no ambiente por meio de pelos e órgãos sensoriais. “Gosto de compará-los a ‘mini’ tanques de guerra”, brinca a especialista do Biotério de Artrópodes.

Tais características tornam as tentativas de eliminação do animal por meio do uso de produtos químicos pouco eficazes. “Observamos que quando um espécime é atingido pelo produto, mas não morre, ele tende a fugir de seu esconderijo. Isso pode ampliar as chances de contato com humanos”, alerta.

A busca ativa e a coleta física de escorpiões por pessoas devidamente capacitadas ainda são os métodos mais eficientes de controle. A estratégia é preconizada pelo Ministério da Saúde, que oferece treinamentos presenciais aos profissionais que atuam na linha de frente no combate e controle do animal.

Além disso, a Escola Superior do Instituto Butantan (ESIB) oferece cursos de extensão universitária e divulgação científica sobre o tema.


Aumento das notificações e expectativas para o futuro

Parte do crescimento do volume de notificações de acidentes com escorpião no Brasil também reflete a melhoria dos sistemas de vigilância de saúde.

Se no passado os registros eram realizados manualmente, hoje as notificações são feitas em ambiente virtual, por meio de plataformas de informação cada vez mais rápidas e unificadas. O próprio Ministério da Saúde mantém um Painel Epidemiológico de Acidentes por Animais Peçonhentos que pode ser acessado por toda a população, permitindo a visualização de dados atualizados praticamente em tempo real.

Ainda assim, Denise Candido é enfática: “O que vemos não é apenas reflexo dessa melhora no registro de notificações, mas também um aumento real dos acidentes. São dois movimentos que acontecem ao mesmo tempo.”

Em relação às projeções para as próximas décadas, os números devem seguir em crescimento, ainda que com padrões distintos entre as espécies. Em relação ao escorpião-amarelo, por exemplo, a expectativa é que sua distribuição continue expandindo até alcançar um ponto de estagnação. Denise explica que, a longo prazo, isso possa acontecer por reflexo da partenogênese, uma vez que a forma de reprodução restringe a variabilidade genética da espécie, podendo diminuir sua dispersão.

Por outro lado, espécies oportunistas ou até mesmo desconhecidas podem apresentar potencial para ocupar nichos deixados por animais nativos menos resistentes – como vem sendo observado no Sudeste com o T. stigmurus –, ampliando a diversidade de escorpião em áreas urbanas.

“Todos esses cenários em potencial representam um crescimento significativo de acidentes nos próximos 50 anos, sobretudo em cidades com baixa cobertura vegetal e com reduzida presença de predadores naturais de escorpião – caso dos sapos, corujas, lagartos e de alguns pequenos mamíferos”, ressalta a bióloga.

O que fazer em caso de acidente

Os escorpiões possuem hábito noturno, quando costumam deixar seus esconderijos para procurar alimento. A especialista do Biotério de Artrópodes explica que eles são capazes de se movimentar por até 40 metros em uma única noite, raramente retornando para o mesmo ponto de onde saíram.

Durante o dia, eles geralmente permanecem abrigados em ambientes escuros e minimamente umidificados, como frestas na parede, entulhos, tubulações, armários, sapatos e até roupas – principalmente aquelas que ficam penduradas atrás da porta ou espalhadas pelo chão.

A picada de escorpião é descrita como lancinante, provocando dor imediata e intensa. Em caso de acidente, as orientações são claras: lavar a região com água corrente e sabão neutro, aplicar compressa morna e buscar atendimento médico imediato – especialmente no caso das crianças, que podem evoluir para quadros graves em um curto intervalo de tempo.

No Brasil, o Instituto Butantan é responsável pela produção do chamado soro antiescorpiônico, indicado para o tratamento de envenenamento por escorpiões do gênero Tityus, e o soro antiaracnídico, que além dos escorpiões pode ser utilizado em casos de picada de aranhas do gênero Phoneutria (aranha-armadeira) ou Loxosceles (aranha-marrom).

Em 2024, quase 80 mil frascos do antiescorpiônico e mais de 20 mil ampolas do antiaracnídico foram entregues ao Ministério da Saúde, que é responsável por disponibilizar os produtos na rede pública de atendimento.

FONTE: Instituto Butantan

terça-feira, 10 de junho de 2025

Butantan muda embalagens de soros antiveneno para facilitar a identificação dos produtos

Caixas na cor verde serão substituídas por cartuchos de cores diferentes para cada soro, que conterão ilustrações de animais, toxinas ou vírus correspondentes ao produto



O Instituto Butantan desenvolveu novas embalagens para seus soros, que agora apresentam uma cor para cada produto e ilustrações dos animais, da toxina ou do vírus correspondentes. O objetivo da mudança, que não envolve qualquer alteração na composição dos soros, é melhorar a identificação e diferenciação dos imunobiológicos para minimizar possíveis equívocos de aplicação. Além das cores e ilustrações novas, o nome do produto ganhou fontes maiores para favorecer a leitura.

“A mudança foi feita pensando em agilizar a identificação do soro correto a ser administrado, desde o momento em que é retirado da geladeira, evitando também equívocos no preparo e na aplicação pelo profissional de saúde”, afirma a diretora técnica de produção de soros do Butantan, Fan Hui Wen.

A aprovação de uma nova Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que estabelece as regras para a rotulagem de medicamentos no Brasil, foi o que determinou a mudança. O artigo 67 da RDC nº 768, de 12 de dezembro de 2022, estabelece que os rótulos de medicamentos ou insumos farmacêuticos devem ter características que os diferenciem entre si e que inibam erros de dispensação, administração e uso.

O parágrafo primeiro do artigo ressalta que essa diferenciação na embalagem pode incluir alterações nas cores, no tamanho e no estilo da fonte, entre outras características, que garantam a fácil distinção. Anteriormente, por determinação da RDC n° 71, de 30 de março de 2016, as embalagens dos soros apresentavam a mesma identidade visual, diferenciando-se apenas pelo nome da imunoglobulina.

“Com a alteração da norma, deixou de ser obrigatório manter as embalagens no padrão verde e houve uma necessidade de uma revisão dos cartuchos [caixas] e dos rótulos contidos nos frascos.



Nova embalagem de soro contra picada de veneno de jararaca (gênero Bothops)

Os primeiros lotes de soros antibotulínico, antiescorpiônico, antibotrópico, anticrotálico, antielapídico, antiaracnídico e antibotrópico e antilaquético com as novas embalagens foram enviados entre dezembro de 2024 e em fevereiro deste ano ao Programa Nacional de Imunizações (PNI), do Ministério da Saúde, que faz a distribuição para os estados brasileiros. Vale ressaltar que a mudança não impacta o uso dos soros com as embalagens elaboradas antes e ainda disponíveis na rede de unidades de saúde credenciadas do SUS.

“Durante a transição para as novas embalagens, alguns lotes dos soros ainda podem estar disponíveis no modelo antigo. Ambas as versões podem ser utilizadas até sua data de validade, sem qualquer prejuízo à sua qualidade, segurança e eficácia", informa a diretora técnica dos Centros de Ensaios Clínicos e Farmacovigilância do Butantan, Vera Gattás.



Embalagem de soro contra veneno de escorpião também contará com desenho do animal para ajudar na identificação do produto

Novo design

A mudança das embalagens envolveu o trabalho das equipes de Produção de Soros, Assuntos Regulatórios, Farmacovigilância e Desenvolvimento Industrial do Butantan. A primeira levantou o histórico de embalagens anteriores e fotos dos animais peçonhentos para ajudar no desenho das novas caixas; a segunda garantiu o alinhamento da mudança à nova RDC; a terceira assegurou que o produto fosse facilmente identificado pelo profissional de saúde, já que é a área que notifica erros e/ou dificuldade de administração em hospitais e postos de saúde.



Nova embalagem do soro contra veneno de cobra-coral verdadeira (Micrurus sp.)

Com todas essas diretrizes, a equipe de Desenvolvimento de Produtos fez o novo design, baseado em cores já utilizadas em embalagens de soros mais antigas do Butantan, e focou na pesquisa de mercado para evitar criar uma identidade parecida com imunobiológicos já existentes.

“Não foi somente uma ação de desenvolvimento de embalagem, mas um conjunto de fatores aliados à abertura da legislação que permitiu fazermos algo diferente, mostrar nosso lado criativo, ao mesmo tempo em que estávamos considerando as novas normas regulatórias da Anvisa, as recomendações da Farmacovigilância e das demais áreas envolvidas”, afirma a coordenadora de Desenvolvimento de Material de Embalagem do Butantan, Anna Carolina Vectore.



Cores das embalagens atualizadas foram baseadas nos cartuchos feitos na década de 1990, quando as cores para cada produto foram estabelecidas

Na década de 1990, quando a norma permitia embalagens diferenciadas para cada produto, os produtos do Butantan tinham cores diferenciadas para cada tipo de soro. Nas versões atuais, esse histórico foi revisitado e as embalagens também ganharam novas cores, mas em um outro layout: listras cor de rosa para o soro contra picada de jararaca; azul claras para o soro antiveneno de cobra coral; amarelas para soro antiveneno da cascavel; laranjas para o soro antiveneno de escorpião; verdes para o soro antiveneno de jararaca e surucucu pico-de-jaca; vermelhas para o soro antiaracnídico; e em azul marinho para o soro antibotulínico. Embalagens dos outros soros estão sendo modificadas gradativamente.

“Fizemos este resgate de materiais impressos e voltamos a colocar cor para diferenciar um soro do outro. A lição de casa foi resgatar todos as embalagens e a evolução delas até chegarmos no que fizemos hoje”, conta a analista de Desenvolvimento de Materiais de Embalagem do Butantan, Erika Higashi.

Fonte: Instituto Butantan

sábado, 29 de março de 2025

Soros salvam | Picada por escorpião escondido na bota, mulher sobrevive a envenenamento após tratamento em hospital do Butantan

Por José Roberto Peruca from Araçatuba/SP, Brasil - Tityus serrulatus (Buthidae), CC BY 2.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=131341048



Logo depois de calçar as botas para começar o trabalho em Osasco (SP), na manhã do dia 6/3, a encarregada de limpeza Priscila Maria da Silva, de 39 anos, sentiu uma fisgada no pé direito. Ao retirar o calçado, veio o susto: era um escorpião amarelo (Tityus serrulatus), espécie que mais causa acidentes e óbitos por envenenamento por escorpiões no Brasil.


Descubra onde encontrar soros para picada de animais peçonhentos

Priscila foi picada no segundo dedo do pé direito. Com dor no local e na perna direita, ela foi levada para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) mais próxima, onde foi medicada com analgésicos e depois encaminhada de ambulância para o Hospital Vital Brazil (HVB), localizado dentro do Parque da Ciência Butantan e especializado no tratamento de acidentes por envenenamento. Assim que chegou ao HVB, Priscila foi tratada com o soro antiescorpiônico produzido pelo Instituto Butantan.


“Na hora da picada eu senti uma queimação, um formigamento que foi subindo pela perna até o joelho. Quando eu cheguei na UPA, comecei a sentir ânsia de vômito, tontura, dor de cabeça e me disseram que eu seria transferida para o hospital do Butantan”, explica Priscila.

O que fazer e o que não fazer ao encontrar um escorpião?

A encarregada de limpeza disse que a picada foi fruto de uma distração: a empresa onde ela presta serviço havia orientado os funcionários a checarem os sapatos antes de calçá-los, pois havia feito uma dedetização após a aparição de um escorpião.

“Na rotina normal, eu tiro as botas de dentro da gaveta do armário, bato cada uma, e oriento meus outros funcionários a fazerem o mesmo. Só que naquele dia eu me distraí porque fui conversando com o pessoal e calçando a bota até que senti a picada”, conta.

Desinsetização resolve?

A bióloga e assistente técnica de pesquisa científica e tecnológica do Biotério de Artrópodes do Instituto Butantan Denise Maria Candido explica que a desinsetização não é eficaz para eliminar escorpiões. “A desinsetização não é recomendada para o controle de insetos, pois além de não serem insetos -são aracnídeos- os escorpiões são animais bastante resistentes e ficam escondidos em locais onde não são atingidos pelo veneno, tornando a ação ineficaz. Com metodologias corretas é possível fazer o controle de escorpiões com produtos sólidos e não pulverizados”, afirma Denise Candido.

A bióloga explica que a dedetização ou desinsetização se refere ao controle de pragas focado na eliminação de insetos, sendo que o primeiro está relacionado ao nome do antigo DDT, que atualmente não deve mais ser usado para este controle.

“A dedetização fez com que o animal se deslocasse sem morrer e foi parar dentro do sapato. Os funcionários foram corretamente avisados do ocorrido, mas o que aconteceu foi a ‘sensação de segurança’ que passaram a ter por saberem que já tinham jogado o veneno”, ressalta a bióloga.

Saiba o que fazer para prevenir o aparecimento de escorpiões em casa

Das 2.800 espécies de escorpiões conhecidas no mundo, cerca de 140 são consideradas de interesse em saúde, ou seja, que o veneno pode ser prejudicial aos humanos. No Brasil, existem 180 espécies de escorpiões, sendo que as responsáveis pelos acidentes graves pertencem ao gênero Tityus – que tem como característica, entre outras, a presença de um espinho sob o ferrão. A espécie Tityus serrulatus, a mesma que picou Priscila, é a que mais causa acidentes graves no país, com registro de óbitos principalmente em crianças, segundo o Manual de Controle de Escorpiões, do Ministério da Saúde.

Os escorpiões foram responsáveis por 154 óbitos e por 193.115 acidentes no país em 2024, segundo o Sistema de Informação de Agravos e Notificação (Sinan) do Ministério da Saúde. O estado de São Paulo continua sendo o maior notificador de acidentes escorpiônicos, com 42.054 casos em 2024.


Quando o soro é necessário?

É importante ressaltar que nem todos os acidentes com escorpião demandam o uso do soro antiescorpiônico. Além de prestar atendimento à população, os médicos do HVB são consultados por profissionais de saúde de outros hospitais para avaliar a necessidade ou não do uso do antiveneno em seus pacientes. Com o caso de Priscila não foi diferente. A equipe da UPA ligou para o hospital do Butantan, onde a equipe avaliou os sintomas e resultados de exames. Por se tratar de um caso que precisaria de soro, a transferência foi sugerida.

“Ela apresentava palidez, sudorese, mal-estar, dor no peito e alterações da glicemia e no eletrocardiograma, quadro de envenenamento classificado como moderado, que necessita da administração do soro”, explica o médico cirurgião Jefferson Murad, plantonista no HVB que atendeu a encarregada de limpeza. Com a piora dos sintomas, Priscila recebeu três ampolas do medicamento.

Além de moderado, os envenenamentos podem ser leves ou graves. Nos casos de envenenamento leve, a dor pode ser intensa no local da picada, mas o veneno não se espalha por completo no corpo do paciente. “Estes casos podem ser combatidos com infiltração anestésica local, com analgésicos orais ou injetáveis e calor local. Eles correspondem a mais de 90% dos casos”, esclarece Jefferson Murad.

Os casos de envenenamento moderado podem incluir alterações no sangue, como aumento da glicemia, aumento da amilase (enzima digestiva) no sangue e alterações cardíacas. “Envolvem sinais de envenenamento sistêmico como palidez, sudorese profusa, mal-estar, náuseas e vômitos. Quando ocorre a maior parte destes sintomas laboratoriais e clínicos, indicamos a administração do soro”, ressalta o médico do HVB.

Nos casos de envenenamento grave, o acidentado pode sofrer vômitos proeminentes, arritmia, parada cardiorespiratória, choque hipovolêmico (hemorragia proeminente) e edema agudo de pulmão. “São pacientes que precisam ser internados em Unidade de Terapia Intensiva, mas são casos raros, difíceis de acontecer. Devemos dar uma atenção especial em crianças a fim de evitar que o envenenamento evolua para esse quadro”, destaca Jefferson Murad.

Em resumo:

- Envenenamento leve: causa dores, coceira, formigamento ou queimação – não precisa de soro antiescorpiônico;

- Envenenamento moderado: dores intensas, náuseas, vômitos, sudorese, taquicardia, entre outros – de 2 a 3 ampolas de soro antiescorpiônico;

- Envenenamento grave: manifestações do envenenamento moderado + problemas cardíacos e pulmonares, entre outros – de 4 a 6 ampolas de soro antiescorpiônico.

Prevenção e socorro

Com os dias mais quentes, clima propício para a reprodução de escorpiões, o aumento de acidentes com o aracnídeo se torna um fenômeno cada vez mais comum. No dia do atendimento de Priscila, por exemplo, outros dois pacientes haviam dado entrada no hospital do Parque da Ciência devido a picadas de escorpiões.

“Em caso de picada de escorpião, o paciente deve ser levado à unidade de saúde mais próxima o mais rápido possível e solicitar a avaliação de um médico. Caso haja alguma dúvida quanto ao atendimento, ele pode entrar em contato conosco para fazermos a orientação ou oferecer uma segunda opinião. Prestamos este serviço para todo o Brasil”, disse Jefferson Murad.

Priscila ficou no HVB sob observação por 24 horas. Neste período, contou as horas para rever os filhos João, de 20 anos, Júnior, de 15 anos, Yasmin, de 8 anos, e Alice, de 4 anos, além o esposo Thiago e da mãe Marta. E disse que não vai se esquecer do que aprendeu com os profissionais do HVB.

“Eles me contaram aqui que os escorpiões gostam de ficar em lugares escuros. Então entendi que é importante sempre dar uma olhada nos sapatos e nas roupas que a gente coloca no armário. Devemos estar atentos, principalmente nestes locais e onde há obras, porque são lugares mais propícios para aparecer escorpiões”, conclui Priscila.

Fonte: Instituto Butantan