sábado, 10 de janeiro de 2026

Butantan esclarece: 5 mitos do combate a escorpiões que podem aumentar risco de picada

 

Produtos químicos, inseticidas ou plantas não são eficazes para afastar escorpiões; conheça os mitos mais comuns e as recomendações oficiais de prevenção

Os acidentes com escorpiões são cercados de desinformação e crenças populares que acabam atrapalhando o tratamento da picada, além de aumentarem a disseminação desses aracnídeos pela cidade. Em 2024, os escorpiões foram os responsáveis pela maioria dos acidentes com animais peçonhentos no Brasil, causando 198 mil dos 337 mil registros, segundo o Ministério da Saúde. Só no estado de São Paulo, foram notificados 42 mil acidentes do tipo no período.

Essa predominância é consequência da adaptação dos escorpiões ao ambiente urbano, onde encontram ampla disponibilidade de alimento (como as baratas), água e abrigo. Eles se escondem em locais escuros e costumam entrar nas residências por meio de ralos, calhas, tubulações e caixas de fiação sem vedação. Nem os andares mais altos dos prédios estão totalmente livres do animal, já que ele consegue escalar superfícies irregulares.

Como os encontros entre esses aracnídeos e os humanos estão cada vez mais frequentes, é importante saber o que realmente ajuda a evitar o aparecimento de escorpiões dentro de casa, como lidar ao se deparar com o animal e como prevenir acidentes e complicações em caso de envenenamento.

O aracnólogo e tecnologista do Laboratório de Coleções Zoológicas do Instituto Butantan, Paulo Goldoni, explica os principais mitos relacionados a escorpiões.

1. Não use produtos químicos ou inseticidas contra escorpiões

Produtos comuns do dia a dia, como vinagre e água sanitária, ou mesmo inseticidas e pesticidas, não são recomendados para controle de escorpiões. Pelo contrário: o uso desenfreado de produtos químicos pode fazer com que o animal deixe seu esconderijo e se espalhe ainda mais para outros lugares, aumentando o risco de acidentes, além de prejudicar a saúde humana e o meio ambiente.

Mesmo que matem o aracnídeo, nenhum produto químico possui conduta de aplicação comprovada cientificamente que considere as variações do ambiente (como temperatura e umidade), uma vez que seus testes foram feitos apenas em ambientes laboratoriais controlados.

“Existe esse viés de confirmação em que a pessoa acredita que se ela usou o produto uma vez e o animal morreu, o produto é eficaz. Mas enquanto ela pode ter eliminado um escorpião, por exemplo, outros exemplares fugiram e se disseminaram nesse processo. Por isso, não recomendamos a aplicação de produtos químicos desenfreadamente”, afirma Paulo Goldoni.

A prática também gera estresse no animal, o que é uma das hipóteses que pode favorecer a partenogênese – quando a fêmea se reproduz sozinha, sem a fecundação de espermatozoides. O escorpião vive, em média, de 3 a 4 anos, e tem pelo menos quatro reproduções por ano. “Cada vez que eles se reproduzem, nascem pelo menos 20 filhotes: é um aracnídeo que aumenta rapidamente sua população”, explica.

Além disso, o escorpião tem a capacidade de fechar seus estigmas respiratórios (orifícios por onde o animal respira), o que também pode ajudá-lo a sobreviver diante dos pesticidas. Ainda não foi descoberto pela ciência por quanto tempo o aracnídeo consegue “segurar” a respiração.

Para evitar essa visita indesejada em casa, a principal recomendação é não acumular materiais de construção, que podem servir de abrigo, e nem lixo, que atrai as baratas (um alimento comum dos escorpiões). Também é indicado usar telas em ralos do chão, pias e tanques, e não afastar seus predadores naturais (saruês, aves, anfíbios e mamíferos).

2. Não passe nenhum produto na picada nem faça torniquete

De acordo com Paulo Goldoni, um mito muito disseminado em todas as regiões do país é o uso da chamada “garrafada”, que consiste em manter o animal morto em um recipiente com álcool e usar essa solução para “tratar” a picada. Além de não ter eficácia alguma contra o envenenamento, a prática pode aumentar o risco de complicações e infecções.

O mesmo vale para outros costumes, como fazer torniquete ou tentar “sugar” o veneno. Na dúvida, o especialista reforça: se não é indicado para picada de serpente, também não vai funcionar para picada de escorpião – e nem de nenhum outro animal peçonhento. Em todos os casos, a recomendação é lavar o local da picada com água e sabão e procurar o serviço médico mais próximo imediatamente. Se possível, leve o animal que causou o acidente ou fotografe-o. Nunca se automedique.

3. Caixas de ovos não devem ser usadas como “armadilhas” caseiras

No Manual de Controle de Escorpiões do Ministério da Saúde, as bandejas de ovos são indicadas exclusivamente para o transporte de escorpiões vivos dentro de caixas de plástico, o que deve ser feito por profissionais treinados. As bandejas ajudam a evitar o choque entre os animais e aumentam a capacidade do recipiente, além de facilitar a visualização dos escorpiões e reduzir o risco de acidentes durante o manuseio.

A solução é utilizada no biotério de escorpiões do Instituto Butantan, onde são abrigados os exemplares utilizados na extração de veneno e produção do soro antiescorpiônico. “É um material leve, barato, que facilita a manipulação e conservação do animal. Mas é importante reforçar que isso não deve ser usado como ‘armadilha caseira’ pela população”, esclarece Paulo.

4. Não existem plantas que afastam escorpiões

Nem alecrim, nem arruda, nem lavanda e nem citronela: não há comprovação científica que determinadas plantas sejam capazes de “repelir” escorpiões. Esses aracnídeos vivem em todos os biomas, de desertos a florestas úmidas, e não existe nenhum repelente natural contra eles.

Até o momento, a única relação cientificamente comprovada entre escorpiões e plantas envolve a espécie Tityus neglectus, que não é considerada de importância médica e não provoca acidentes graves em humanos. Essa espécie, distribuída pela região Nordeste do Brasil, é conhecida por se abrigar em bromélias, onde se aproveita da água acumulada e se alimenta de pequenos insetos.

5. Galinhas não são indicadas para controlar escorpiões

As aves são predadores naturais do escorpião, principalmente as galinhas, mas isso não significa que criá-las seja um método eficaz de controle. A probabilidade das espécies se encontrarem é baixa, já que a ave tem hábitos diurnos, enquanto o aracnídeo tem hábitos noturnos. Vale lembrar, ainda, que é preciso ter autorização das autoridades de controle ambiental para criar galinhas na zona urbana.

Além de não serem efetivas no combate ao aracnídeo, a criação de galinhas pode causar outros problemas. As fezes dessas aves são reservatório para o mosquito-palha, transmissor da leishmaniose – doença parasitária que, se não tratada, pode levar a óbito em até 90% dos casos, segundo o Ministério da Saúde.

Saiba o que fazer para prevenir o aparecimento de escorpiões em casa

Encontrei um escorpião, e agora?

Em primeiro lugar, jamais tente pegar o escorpião com as mãos, mesmo que estiver usando luvas, pois o risco de acidente é alto. A Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo recomenda que a captura seja feita se a pessoa se sentir segura; caso contrário, o ideal é entrar em contato com a prefeitura para comunicar o aparecimento do animal e solicitar assistência.

Antes de tentar capturar um escorpião, é necessário vestir equipamentos de segurança, como luvas de vaqueta ou raspa de couro, sapatos fechados de couro ou de outros materiais resistentes e calças compridas. Após colocar a proteção, utilize um graveto ou pinça longa para empurrar o animal para dentro de um frasco plástico fundo, de superfície lisa e com tampa perfurada. Depois, leve-o ao Centro de Controle de Zoonoses do seu município.

Caso não consiga coletar o escorpião, utilize um objeto plano, rígido e longo para golpeá-lo. Não tente usar produtos químicos para matar o escorpião. Após eliminar o aracnídeo, não o descarte no lixo: use uma pinça longa para colocá-lo dentro de um pote com álcool etílico (70%) e contate o Centro de Controle de Zoonoses ou a prefeitura do município. Mesmo morto, o animal pode ser encaminhado para instituições de pesquisa para estudo.

“O ideal a fazer é sempre gerar informação. O registro é importante para aprimorar os dados epidemiológicos, conhecer melhor a distribuição do animal e identificar as regiões de maior risco. Isso ajuda a formular melhores estratégias de combate e prevenção de acidentes”, aponta Paulo Goldoni.


Referências:

Candido, D.M., Goldoni, P.A.M., 2024. Identificação de escorpiões. In: Brasil Ministério da Saúde Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente Departamento de Doenças Transmissíveis (Ed.), Guia De Animais Peçonhentos Do Brasil. Ministério da Saúde, Brasília, pp. 96–115.

GUERRA-DUARTE, C.; SAAVEDRA-LANGER, R.; MATAVEL, A.; OLIVEIRA-MENDES, B. B. R.; CHAVEZ-OLORTEGUI, C.; PAIVA, A. L. B. Scorpion envenomation in Brazil: Current scenario and perspectives for containing an increasing health problem. PLoS Negl. Trop. Dis., v. 17, n. 2, p. e0011069, 2023. https://doi.org/10.1371/journal.pntd.0011069

Braga-Pereira FB, Vidigal THDA, Santos FR, Santos AJ. 2019. Is the parthenogenesis of the yellow scorpion (Tityus serrulatus) promoted by endosymbiont bacteria (Wolbachia sp.)? Journal of Arachnology 47:284–289.

Braga-Pereira, G. F., & Santos, A. J. (2021). Asexual reproduction in a sexual population of the Brazilian yellow scorpion (Tityus serrulatus, Buthidae) as evidence of facultative parthenogenesis. Journal of Arachnology, 49(1), 185–190

Lourenço WR. 2008. Parthenogenesis in scorpions: some history – new data. Journal of Venomous Animals and Toxins including Tropical Diseases 14:19–44.

Albuquerque, C. M. R. (2009). Tityus stigmurus (Thorell, 1876) (Scorpiones; Buthidae): response to chemical control and understanding of scorpionism among the population. Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, 42(3), 255–259

Santos, R. L., Almeida, M. G., Nunes, J. V., Tinoco, L. D. S., & Martins, L. B. (2003). Bromeliads as a keystone resource for the scorpion Tityus neglectus in eastern Rio Grande Do Norte state, Brazil. Journal of Bromlid Society, 53, 241–288.
de Oliveira Souza MC, Foerster SÍA, Salomão RP, Souza-Alves JP, de Moura GJB, Lira AFA, Ferreira RB. The role of bromeliad structural complexity on the presence, spatial distribution and predator avoidance in Tityus neglectus (Scorpiones: Buthidae). Ecol Evol. 2024 Jun 4;14(6):e11522. doi: 10.1002/ece3.11522. PMID: 38835519; PMCID: PMC11148394.

SANTOS, A. B. & ALBUQUERQUE, C. M. R. 2020. Behavioural changes in Tityus stigmurus (Thorell, 1876) (SCORPIONES: BUTHIDAE) exposed to a pyrethroid insecticide. Journal of Ethology 38:301-310.

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Candido, D.M. 2008. Escorpiões: ocorrência das espécies de importância médica, acidentes no Estado de São Paulo, obtenção de veneno e manutenção em cativeiro.

Lacerda AB, Lorenz C, Azevedo TS, Cândido DM, Wen FH, Eloy LJ, Chiaravalloti-Neto F. Detection of areas vulnerable to scorpionism and its association with environmental factors in São Paulo, Brazil. Acta Trop. 2022 Jun;230:106390.

BERTANI R, GIUPPONI A. P. L, MORENO-GONZÁLES J. A. Escorpiões do Brasil – lista dos gêneros e espécies de escorpiões registrados para o Brasil (Arachnida, Scorpiones). 2022. v 1.1. http://www.ecoevo.com.br/escorpioes.php.

FONTE: Instituto Butantan

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Anvisa libera novo medicamento para fase inicial do Alzheimer

 

Remédio é produzido com o anticorpo lecanemabe

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) liberou um novo medicamento, o Leqembi, para tratamento de pacientes diagnosticados na fase inicial da doença de Alzheimer. A aprovação foi publicada no Diário Oficial da União no dia 22 do mês passado.

O remédio, produzido com o anticorpo lecanemabe, é indicado para retardar o declínio cognitivo das pessoas que já apresentam demência leve causada pela doença.

Segundo o registro da Anvisa, o lecanemabe reduz as placas beta-amiloides no cérebro. O acúmulo dessas placas é uma característica definidora da doença de Alzheimer. O produto é uma solução para diluição para infusão.

Estudo

A Anvisa divulgou que o medicamento teve a eficácia clínica avaliada em um estudo principal que envolveu 1.795 pessoas com doença de Alzheimer em estágio inicial, que apresentavam placas betaamiloides no cérebro e receberam o Leqembi ou placebo.

“A principal medida de eficácia foi a mudança nos sintomas após 18 meses”, apontou a Anvisa. A avaliação ocorreu a partir de uma escala de demência denominada CDR-SB, utilizada para testar a gravidade da doença de Alzheimer em pacientes.

A escala inclui questões que ajudam a determinar o quanto a vida diária do paciente foi afetada pelo comprometimento cognitivo. Segundo o estudo, no subgrupo de 1.521 pessoas, os pacientes tratados com o novo medicamento apresentaram um aumento menor na pontuação CDR-SB do que aqueles que receberam placebo.

FONTE: Agência Brasil

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quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Guia orienta sobre mudança no rastreamento do câncer de colo do útero

 

A Fundação do Câncer lançou nesta quinta-feira (8) nova versão atualizada do Guia Prático de Prevenção do Câncer de Colo do Útero, como parte do Janeiro Verde, mês de conscientização e prevenção da doença. O guia teve a primeira edição lançada em 2022, quando se falava de vacinação contra o HPV (papilomavirus humano), vírus que afeta a pele e as mucosas - a infecção sexualmente transmissível mais comum no mundo - e o rastreamento com o exame Papanicolau, que utilizava a citologia, método vigente à época.

A nova versão do guia visa a orientar profissionais de saúde na transição de rastreamento, que substituirá gradualmente o exame Papanicolau pelo teste molecular de DNA-HPV.

“Tanto a vacinação quanto o método de rastreamento receberam muitas mudanças nesse período, principalmente em 2025. Houve uma ampliação para vacinação do público-alvo contra o HPV", disse a consultora médica da Fundação do Câncer, Flávia Miranda Corrêa.

Segundo ela, em relação ao rastreamento foram incorporados ao Sistema Único de Saúde (SUS), em 2024, os testes moleculares (DNA-HPV) para detecção do HPV oncogênico (tipos de HPV com potencial capacidade de causar câncer de colo do útero). A partir de setembro do ano passado, começou o processo de implementação”.

O processo de implementação dos testes moleculares para detecção do HPV oncogênico foi iniciado em setembro do ano passado, por meio de um núcleo criado na Secretaria de Atenção Especializada em Saúde, do Ministério da Saúde, e ocorrerá de forma gradativa, disse Flavia Corrêa, doutora em Saúde Coletiva da Criança e da Mulher pelo Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira, da Fundação Oswaldo Cruz (IFF/Fiocruz). Primeiro foram elencados municípios de 12 estados para começar essa implementação baseada.

Eles estão em diferentes estágios de evolução desse processo. Agora começaram as conversas com mais 12 estados para ter apoio do ministério e começar a implementação”. Flavia destacou que nos lugares em que o rastreamento molecular (DNA-HPV) não tiver chegado ainda, continuarão valendo as regras baseadas no rastreamento citológico (Papanicolau).

O guia atualizado da Fundação do Câncer já incorpora as recomendações das novas Diretrizes Brasileiras para o Rastreamento do Câncer do Colo do Útero, aprovadas pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec), que preveem a substituição gradual do exame de Papanicolaou pelo teste de DNA-HPV no SUS.

De acordo com o cirurgião oncológico e diretor executivo da Fundação do Câncer, Luiz Augusto Maltoni, enquanto o Papanicolau identifica alterações celulares quando elas já estão presentes, o novo exame molecular detecta a infecção pelo HPV, “ampliando a capacidade de detecção precoce e a efetividade das estratégias de prevenção”.

Público alvo

Flavia Corrêa informou que o público-alvo do novo exame de rastreamento DNA-HPV continua o mesmo no Brasil, abrangendo mulheres na faixa etária de 25 a 64 anos de idade. Outros países fixaram a idade inicial em 30 anos. Após estudos, o Brasil decidiu manter o que já estava consolidado no país, principalmente para não ter os dois métodos sendo usados concomitantemente em uma mesma unidade de saúde. “As duas técnicas não podem coexistir, porque senão vai haver muita confusão e, inclusive, a possibilidade de serem feitos os dois testes na mesma mulher”, explicou.

A periodicidade dos testes também é diferente. Na citologia, ele tem de ser repetido de três em três anos após um resultado negativo, depois de dois resultados negativos feitos no intervalo de um ano.

“Os primeiros exames são anuais e, a partir daí, são trienais”. Com o exame molecular (DNA-HPV), mais sensível, sabe-se que 99% das mulheres têm teste negativo, não têm HPV, não têm lesão precursora nem câncer e, por isso, pode-se ampliar o intervalo do rastreamento para cinco anos. Essa diferença é justificada pela maior sensibilidade do teste HPV.

Entre as mulheres que tiverem resultado positivo para os tipos mais perigosos e responsáveis por 70% dos casos de câncer de colo do útero, que são o HPV 16 e 18, em que há mais risco de lesão precursora de câncer, o encaminhamento para exame de colposcopia é imediato. A colposcopia permite, por meio de lentes de aumento, visualizar o colo do útero e a vagina de forma ampliada e detalhada e, com o uso de alguns reagentes, detectar lesões precursoras da doença.

Flavia Corrêa disse ainda que além do HPV 16 e 18, existe um grupo de mais dez tipos de HPV, considerados pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (Iarc) responsáveis por 30% dos casos de câncer de colo de útero. As mulheres com resultado positivo para outros tipos de HPV oncogênico terão a citologia reflexa processada no mesmo material coletado para o teste molecular. Caso a citologia apresente alterações, essas pacientes também serão encaminhadas para colposcopia. Mas se a citologia for normal, se não tiver nenhuma alteração, a paciente repete o teste de HPV em um ano, em vez de cinco anos, porque está em risco intermediário entre a mulher que tem HPV 16 e 18 positivo e aquela que apresenta teste negativo.

Pilares

O Brasil aderiu à Estratégia Global para a Eliminação do Câncer de Colo do Útero, lançada em 2020 pela Organização Mundial da Saúde (OMS), e assumiu metas até 2030 que incluem vacinar 90% das meninas até 15 anos de idade, rastrear 70% das mulheres com teste molecular e tratar 90% das pacientes diagnosticadas com lesões precursoras ou câncer.

Flavia Corrêa destacou que a vacinação das meninas é a forma mais eficaz de prevenir o câncer de colo do útero “porque simplesmente não tendo uma infecção por HPV, o câncer não ocorre. É o que a gente chama de prevenção primária”. Com a pandemia de covid-19 e, nos anos seguintes, com o movimento muito forte antivacina, a cobertura caiu. Agora, o Programa Nacional de Imunização (PNI) faz grande esforço em relação à meta de 2030 e, desde o final do ano passado, com duração prevista até o final do primeiro semestre de 2026, está fazendo o resgate dos adolescentes entre 15 e 19 anos que não foram vacinados até o momento contra o HPV.

“Vai ser uma medida muito importante, porque a gente sabe que quanto mais cedo a criança ou adolescente for vacinado contra o HPV, maior é a imunidade que se desenvolve”.

Disponível no SUS desde 2014, a vacina quadrivalente protege contra os tipos mais frequentemente associados ao desenvolvimento do câncer de colo de útero. No Brasil, meninas e meninos de 9 a 14 anos recebem dose única contra o HPV.

O segundo pilar é o rastreamento, que ganha força com a incorporação do teste molecular DNA-HPV. A consultora médica da Fundação do Câncer salientou que, ao contrário do Papanicolau, com subjetividade muito grande pelo fator humano e que pode apresentar resultados falsos positivos como negativos, o exame molecular (DNA-HPV) é automatizado e tem 99% de segurança, se der negativo, de que a pessoa não tem nem vai ter lesão precursora ou câncer no período de cinco anos ou mais. “Essa mudança aproxima o Brasil de países como a Austrália, referência mundial, que já registrou quedas expressivas na incidência da doença após adotar o novo exame como principal método de rastreamento”, afirmou Flavia.

O terceiro pilar é o tratamento oportuno, que completa a estratégia da OMS. Ele inclui desde o manejo adequado de lesões precursoras até o acesso rápido ao tratamento oncológico para os casos já avançados, assegurando que mulheres identificadas com alguma alteração recebam o cuidado necessário de forma rápida e efetiva. Se for confirmado o diagnóstico de lesão precursora ou câncer e a mulher não for submetida a tratamento, se rompe um elo dessa cadeia e não se está fazendo prevenção, disse a médica.

“Não basta só mudar o teste. Toda a rede de cuidado e prevenção do câncer do colo do útero tem que estar estruturada”.

Prioridades

Flavia lembrou que a vacinação gratuita contra o HPV está disponível no SUS também para grupos prioritários como pessoas com HIV/Aids, transplantados, pacientes oncológicos e vítimas de abuso sexual (9 a 45 anos), além de usuários de PrEP (Profilaxia Pré-Exposição), medicamento antirretroviral tomado por pessoas sem HIV para prevenir a infecção. Para mulheres na faixa de 20 a 45 anos, a vacina não está incorporada ao SUS e elas terão de recorrer ao setor privado de saúde. A partir dos 20 anos, a vacina é dividida em três doses e a decisão deve ser compartilhada entre a mulher e o profissional de saúde que a acompanha, para avaliação dos benefícios.

Como participante do Grupo de Desenvolvimento de Diretrizes da OMS: Atualização das Recomendações de Rastreamento e Tratamento da OMS para prevenir o câncer de colo do útero", Flavia Corrêa admitiu que os profissionais do sexo ainda não estão incluídos nos grupos de vacinação no SUS. Mas, como representam um grupo de risco maior, ela acredita na possibilidade de virem a ser incluídos na expansão da vacinação contra o HPV.

Consulte aqui o Guia Prático de Prevenção do Câncer do Colo do Útero, da Fundação do Câncer.

FONTE: Agência Brasil


Aplicação da vacina da dengue do Butantan começará a partir do dia 17

 
Imunização será para público de 15 a 59 anos

Na luta contra a dengue, o Sistema Único de Saúde (SUS) vai aplicar a vacina produzida pelo Instituto Butantan, de dose única, em três cidades: Maranguape (CE) e Nova Lima (MG), a partir de 17 de janeiro, e em Botucatu (SP), no dia 18.

A ideia é avaliar os resultados com a imunização de pelo menos 50% dos moradores desses municípios.

O público-alvo será composto pela população com a faixa etária entre 15 e 59 anos.


“Para essa estratégia, será utilizada uma parte das primeiras 1,3 milhão de doses produzidas pelo Instituto Butantan”, afirmou o Ministério da Saúde, em nota.

Ampliação

O primeiro lote também será destinado aos profissionais da atenção primária, que atuam nas unidades básicas de saúde (UBS).

Segundo o ministério, com o aumento da produção de doses, a partir da parceria de transferência de tecnologia entre o Instituto Butantan e a empresa chinesa WuXi Vaccines, a estratégia será gradualmente ampliada para todo o país.

A ideia é começar pela população de 59 anos e avançar até o público de 15 anos, conforme a disponibilidade de doses.

Atualmente, o SUS oferece a vacina em duas doses (produzida no Japão) para adolescentes de 10 a 14 anos.

Eficácia

O Instituto Butantan divulgou, nesta semana, que a vacina poderá ajudar a reduzir a quantidade de vírus em pessoas infectadas pelo patógeno, além de manter eficácia contra os diferentes genótipos do vírus circulantes no Brasil. A conclusão surgiu de uma pesquisa tornada pública pela revista The Lancet Regional Health - Americas.

Baixas cargas virais provocam, em geral, quadros menos graves. No levantamento, os pesquisadores analisaram amostras de 365 voluntários que tiveram dengue sintomática entre 2016 e 2021 em 14 estados do Brasil.

O estudo comparou dados dos grupos de vacinados e o de não vacinados.

Segundo a pesquisa, apesar de algumas pessoas terem sido infectadas após a vacinação, a carga viral nos vacinados foi consideravelmente menor do que em participantes não imunizados.

Isso, conforme avaliaram os pesquisadores, demonstrou a eficácia da vacina em induzir resposta imune e diminuir a replicação do vírus nas células.

A vacina da dengue desenvolvida pelo Instituto Butantan foi aprovada pela Anvisa após análise dos dados de cinco anos de acompanhamento dos 16 mil voluntários participantes do ensaio clínico.

No público de 12 a 59 anos, faixa etária indicada pela agência reguladora, o imunizante mostrou 74,7% de eficácia geral e 91,6% de eficácia contra dengue grave e com sinais de alarme.

FONTE: Agência Brasil